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Reportagens sobre exposições, concertos e espetáculos na França. Destaque para os artistas brasileiros e suas criações apresentadas na Europa.
Reportagens sobre exposições, concertos e espetáculos na França. Destaque para os artistas brasileiros e suas criações apresentadas na Europa.

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5 de 22
  • Artistas estrangeiros que influenciaram Paris no pós-guerra são tema de exposição na França
    É o fim da Segunda Grande Guerra e o início de um novo capítulo também na história da arte. À sombra dos anos de conflito, o mundo vive um renascimento cultural, animado por trocas estéticas e um grande fluxo de artistas em todas as direções. Paris é um dos epicentros dessa revolução de cores e formas. Por Andréia Gomes Durão, da RFI É isso que tenta traduzir a exposição Paris et Nulle Part Ailleurs (Paris e nenhum outro lugar), em exibição no Museu da Imigração, no 12° distrito da capital francesa. “Paris era um centro de efervescência excepcional. Para um artista estrangeiro, a Paris dos anos 1950 e 1960 tem um papel central para a criação artística de vanguarda”, destaca o curador da exposição, Jean-Paul Ameline. Eles vêm do Líbano, Marrocos, Romênia, Islândia, Japão, Cuba, Hungria, Senegal, de países da América-Latina, de toda a parte, para vivenciar, mas também transformar, o surgimento de novas visões artísticas, nos campos da abstração, da figuração e da arte cinética. “Havia cerca de 7 mil a 8 mil artistas estrangeiros presentes em Paris nesses anos do pós-guerra, o que é evidentemente enorme. Nós escolhemos 24 que são característicos de diferentes tipos de expressão neste momento. Não mostramos apenas pinturas e esculturas, mas também colagem de objetos, que são importantes, e instalações, porque Paris era também um lugar onde outros movimentos se desenvolviam”, acrescenta Jean-Paul Ameline. “Eu penso, por exemplo, no cinetismo, a arte do movimento, do deslocamento, uma ideia que é muito fortemente desenvolvida pelos artistas estrangeiros em Paris”, continua. Exílio A exposição narra a experiência do exílio, voluntário ou não, e a relação plural que se estabelece seja com o país de origem, seja com o país que passa a acolher esses artistas. “O exílio é voluntário, muito poucos partem porque são perseguidos em seus países. São escolhas de criação para desenvolverem seus trabalhos”, explica o curador. “Essa relação vai determinar o discurso de suas produções, como acontece, por exemplo, com o artista senegalês Iba N’Diaye. “Ele chega a Paris nos anos 1940, e ele se apaixona pela pintura clássica do Louvre, acreditando que a arte é universal e se limitar a uma arte tipicamente africana é cair no exotismo. Ele recusa o exotismo. Ele se engaja no Museu do Homem, no serviço de iconografia, utiliza temas africanos em sua pintura, mas é também uma arte impregnada de pinturas de Rembrandt, de Velasquez, e outros”, exemplifica Jean-Paul Ameline. “É a ideia de um artista que vai além de todas as fronteiras, um tipo de pioneiro que marca uma época importante, uma época de transformação da arte em Paris”, conclui o curador. França, terra de liberdade? Mas Paris et Nulle Part Ailleurs se propõe também a mostrar a pluralidade desses artistas muitas vezes interpretados de uma forma homogênea. Suas motivações para migrarem para Paris, como seus discursos serão pautados – ou não – pela experiência do exílio, a influência dos anos vividos em território francês, a construção de uma nova linguagem, mas também, algumas vezes, uma desconstrução de uma França idealizada como uma terra de asilo e liberdade. “Então esses artistas, que querem encontrar na França uma terra de liberdade, são também, às vezes, testemunha de situações de racismo, como Hervé Télémaque mostra tão bem em suas obras. Afinal, nós ainda estamos em uma França, nesses anos 1960 e 1970, que não está livre de preconceitos, de racismo, ou mesmo de um racismo ordinário, entre aspas, que esses artistas estrangeiros colocam muito bem em evidência em algumas de suas obras”, observa o historiador de arte Eric, enquanto visita a exposição. Mas ainda que a diversidade de experiências vividas por esses artistas possa muitas vezes parecer dissonante, em suas realizações, mas, também, decepções na capital francesa, o fato é que os anos passados em Paris no período pós-guerra serão para sempre uma marca indelével em suas produções. “No que diz respeito às feridas do passado, porque frequentemente esse é um exílio não desejado, obrigado pelo fracasso social e político, em Paris esse passado ganha uma outra cor, um outro olhar, uma outra tradução. Esses artistas são enriquecidos, se tornam mais doces, ou são ampliados pelo que descobrem aqui”, avalia a professora Michelle ao contemplar as obras. Paris et Nulle Part Ailleurs reúne obras de Shafic Abboud (Líbano), Eduardo Arroyo (Espanha), André Cadere (Romênia), Ahmed Cherkaoui (Marrocos), Carlos Cruz-Diez (Venezuela), Dado (Montenegro), Erró (Islândia), Tetsumi Kudo (Japão), Wifredo Lam (Cuba), Julio Le Parc (Argentina), Milvia Maglione (Itália), Roberto Matta (Chile), Joan Mitchell (Estados Unidos), Véra Molnar (Hungria), Iba N’Diaye (Senegal), Alicia Penalba (Argentina), Judit Reigl (Hungria), Antonio Seguí (Argentina), Jesús Rafael Soto (Venezuela), Daniel Spoerri (Romênia), Hervé Télémaque (Haiti), Victor Vasarely (Hungria), Maria Helena Vieira da Silva (Portugal) e Zao Wou-Ki (China). A exposição pode ser visitada até 22 de janeiro no Museu da Imigração, no Palais de la Porte Dorée.
    1/13/2023
    8:14
  • Cabaret, Asterix e Obelix e homenagens a Picasso prometem animar a agenda cultural francesa de 2023
    O ano novo revela também o início de uma agenda cultural trepidante para 2023 na França. Pablo Picasso e Marcel Proust serão lembrados em diversos projetos, pelos aniversários de morte. O mundo das artes visuais ainda terá exposições de Degas, Manet, Warhol e Basquiat. A dupla Asterix e Obelix volta às telas esse ano como um dos maiores lançamentos do cinema, enquanto os musicais animam a noite parisiense. Andréia Gomes Durão, da RFI Nas artes visuais, o mundo lembra os 50 anos da morte do mais francês dos espanhóis, o pintor Pablo Picasso. Além disso, a partir de março, o Museu d'Orsay promove um confronto da obra de Edgar Degas com a de Édouard Manet. Outro “duelo” ocupa a Fundação Louis Vuitton, a partir de abril, com uma centena de telas pintadas a quatro mãos pela dupla Andy Warhol e Jean-Michel Basquiat. Enquanto essas mostras não começam, o público já pode visitar “Décadrage Colonial” (Desconstrução Colonial, em tradução livre), no Centro Pompidou, que explora uma densa história da representação do corpo negro. A exposição exibe fotos do próprio acervo do museu. As imagens mostram imagens pseudocientíficos, fantasias exóticas, erotização, e têm como ponto de partida a Exposição Colonial de 1931, em Paris, e as reações que o evento provocou. “É preciso lembrar que a exposição colonial era uma vitrine do império francês, com 8 milhões de visitantes. Uma produção ilustrada, visual, de produtos derivados, com os visitantes convidados a fazerem ‘a volta ao mundo’ em um único dia. E os [artistas] surrealistas, assim como os militantes coloniais da esquerda, se organizam para denunciar essa colonização que é principalmente econômica, mas, também, cultural”, explica Damarice Amao, assistente do gabinete de fotografia do Museu Nacional de Arte Moderna da França e que assina a curadoria da exposição. "Em busca do tempo perdido" Na literatura, 2023 também continua lembrando os cem anos da morte de Marcel Proust (em 22 de novembro de 1922) e a Biblioteca Nacional da França rende homenagem ao autor com uma exposição que evidencia, principalmente, o processo de produção e criação do escritor francês. “O que vai impressionar o público é até que ponto Proust trabalha: ele corrige, escreve à mão, escreve nas entrelinhas, cola papéis quando não tem mais espaço, assim como também faz decupagens para ir mais rápido no seu trabalho, porque ele sempre tinha medo de morrer antes de acabar. E foi o que aconteceu no final. É o trabalho de um homem que estava muito doente, e não é uma doença imaginária, ele realmente sofria de asma, o que não se podia tratar na época", revela Nathalie Mauriac Dyer, diretora de pesquisa do Instituto francês de Textos e Manuscritos Modernos e do Centro Nacional da Pesquisa Científica (CNRS, na sigla em francês). Dyer acrescenta que "Ele [Proust] muito frequentemente tinha crises de asma, o que o impedia de trabalhar. Mas quando ele trabalhava, o fazia de uma forma hercúlea, de uma forma feroz”. Nomeada com o título de sua obra que se tornaria uma das mais importantes da literatura mundial, a exposição “Em busca do tempo perdido” é ambientada na estética da Belle Époque para inserir o visitante na atmosfera mundana vivida por Proust. Enquanto as editoras competem por lançamentos em torno do autor, histórias em quadrinhos, reedições de sua correspondência, múltiplos romances e ensaios ressuscitam o escritor e sua obra nas livrarias. Encontro de dois mundos Já os afeitos à arte mas também à história podem visitar a mostra “Splendeurs des oasis d’Ouzbékistan” (Esplendores dos oásis do Uzbequistão), que ocupa o Museu do Louvre. A exposição traz pinturas murais tiradas dos palácios dos príncipes, joias em ouro, alguns dos mais antigos exemplares conhecidos do Corão, estátuas de perfil grego ou influenciadas pelo budismo. O evento é uma viagem que atravessa sete séculos de história, passando pelas rotas da seda e por uma grande pluralidade de culturas. “A ideia central é o meio entre dois grandes polos, da história antiga até hoje, com a China a leste e o Mediterrâneo, com suas diferentes civilizações, a oeste. O que faz dessa região da Ásia Central um local de diferentes culturas, que liga também o sul e o norte, como o Cazaquistão atual e até mesmo a Sibéria”, conta Rocco Rante, arqueólogo do Departamento de Arte Islâmica do Louvre, que responde pela curadoria científica da mostra. A inauguração teve a presença do chefe de Estado francês, Emmanuel Macron, e do presidente uzbeque, Chavkat Mirzioev. São quase 180 obras de valor inestimável e algumas nunca saíram desta ex-república soviética da Ásia Central, que se tornou essencial no jogo diplomático. Outra exposição, literalmente faraônica, poderá ser visitada a partir de abril, no grande salão de La Villette, que recebe a mostra “Ramsés”. Depois do sucesso de Tutancâmon, o público é convidado a mergulhar no coração do reino de um dos maiores construtores do antigo Egito. Serão mais de 180 peças originais, em que algumas nunca saíram do Egito. "Ramsés e o Ouro dos Faraós" tratá a Paris um tesouro de mais de 3 mil anos entre joias, máscaras reais, além de móveis dos túmulos inviolados da cidade de Tanis. A exposição também oferecerá uma experiência de realidade virtual para o visitante descobrir o templo de Abu Simbel e a tumba de Nefertari. Dos quadrinhos para as telas Dos museus para os cinemas, quem volta à grande tela é uma dupla velha conhecida do público francês. O filme “Asterix e Obelix: O Império do Meio”, dirigido por Guillaume Canet e com um orçamento colossal de € 65 milhões, estreia em fevereiro. Enquanto isso, outro herói das histórias em quadrinhos, Tintim, inspira “Le Parfum Vert” (O Perfume Verde), um filme de espionagem lúdico e engraçado do diretor Nicolas Pariser. “Eu me dei conta de que alguns desenhos de Tintim se pareciam muito com os filmes de Hitchcock, filmes contemporâneos, dos anos 30, se pareciam muito. Eu assisti tanto que, em um determinado momento, me dei conta de que deveria tentar fazer a mesma coisa, na França, hoje. E foi o que aconteceu: Voilà O Perfume Verde”, resume o cineasta.  Mas para quem prefere acreditar que Paris é sempre uma festa, como Hemingway, o mundo dos espetáculos também reserva surpresas. Depois de renunciar aos shows de dançarinas com plumas, o Lido de Paris passa a investir nos musicais. E para inaugurar esta nova fase da icônica casa de shows, nada mais glamuroso do que o clássico musical "Cabaret". O público assiste o espetáculo como se estivesse no Kit Kat Club, com direito a beber enquanto acompanha a performance. "Escolhemos essa forma artística, que consiste em abolir ‘a quarta parede’, quer dizer, o obstáculo entre o público e os artistas”, celebra o novo diretor artístico da casa, Jean-Luc Choplin, para quem "o mundo dos espetáculos nunca irá parar". Fiel à versão original, "Cabaret" remete o público à atmosfera de perigo da Berlim dos anos 1930, traduzida pelos filmes em preto e branco, explica Robert Carsen, que responde pela mise en scène do show: “Pensei nessa angústia que eu absolutamente queria levar para o palco, de lembrar as pessoas do perigo do avanço da extrema direita, da ideologia que levou, nessa época, a eventos absolutamente inimagináveis, e de se lembrar do perigo disso neste momento. Nós não estamos à salvo, na França, na Europa, no mundo inteiro. Nós vivemos um momento perigoso.” * Os entrevistados foram ouvidos pelos jornalistas da RFI Muriel Maalouf, Sophie Torlotin, Sébastien Jédor e Isabelle Chenu.
    1/6/2023
    7:29
  • Retrospectiva: em 2022, setor da cultura voltou a funcionar após dois anos de pandemia
    Em 2022, teatros, cinemas e festivais voltaram a funcionar a todo vapor, após dois anos sofrendo os impactos da pandemia de Covid-19. A crise do cinema, a morte do diretor francês Jean-Luc Godard e da cantora Gal Costa e os vários prêmios conquistados por cineastas brasileiros em festivais europeus estão entre os fatos que marcaram o mundo da cultura.  O cinema foi a atividade cultural mais abalada pelo Covid-19. O setor começou a perder espaço para as plataformas digitais durante a pandemia e o movimento continuou em 2022, tanto que, pela primeira vez, o Oscar foi concedido a uma produção feita por um serviço de streaming. Mas o que realmente entrou para a história da comedida e ensaiada cerimônia não foi a premiação de "No ritmo do coração", da Apple TV+, na categoria Melhor Filme, mas o polêmico tapa na cara dado por Will Smith em Chris Rock, que fez uma brincadeira sobre a mulher do ator, Jada Pinkett Smith.  Outra premiação americana de cinema que perdeu o brilho foi o Globo de Ouro. Sob acusação de corrupção, a festa foi boicotada. Ao invés do tapete vermelho repleto de celebridades sorrindo, a cerimônia descontraída que sempre marcou a premiação, promovida pela Associação de Correspondentes Estrangeiros em Hollywood, se reduziu a um evento fechado.  Cinema brasileiro brilhou Já o cinema brasileiro não perdeu tempo, aproveitou a relativa volta ao normal, saiu das fronteiras e brilhou nos festivais europeus.  Em Locarno, na Suíça, um dos mais importantes da Europa, o filme “Regra 34”, da cineasta Julia Murat, ganhou o prêmio principal, levando às telas o tema do prazer feminino.  Outro brasileiro, Carlos Segundo, ficou com o prêmio de melhor curta-metragem autoral por "Big Bang", no mesmo festival.  Já no Cinélatino de Toulouse, dedicado ao cinema latino-americano na França, foi a vez da cineasta Carolina Markowicz levar o Prêmio dos Distribuidores Europeus com o filme "Quando minha Vida". Na competição oficial, o primeiro longa-metragem do diretor pernambucano Fellipe Fernandes, "Rio Doce", recebeu o prêmio do Sindicato Francês da Crítica de Cinema.  Também foi em Toulouse que Gabriel Martins lançou seu filme "Marte Um", que vai representar o Brasil no Oscar no ano que vem. O cineasta disse à RFI que via o longa como "uma carta de amor aos brasileiros". Ainda entre os brasileiros premiados em Toulouse, estão o curta "Fantasma Neon", do diretor Leonardo Martinelli, e o filme "Deus me Livre", de Carlos Henrique de Oliveira e Luis Ansorena Hervés. "Fogaréu", longa de ficção da goiana Flávia Neves, com Bárbara Colen no elenco, venceu o prêmio de audiência no Festival de Berlim, e o curta  "Manhã de Domingo" recebeu o Urso de Prata, o segundo Prêmio do Júri oficial da Berlinale. Em Veneza, o brasileiro Pedro Harres levou o Grande Prêmio do Júri na seção paralela Venice Immersive, dedicada à Realidade Virtual, com o curta “From the main square".  Despedidas  Mas não só de prêmios viveu a sétima arte, que chorou a morte de um dos criadores da nouvelle vague. Jean Luc Godard morreu em setembro e deixou como legado filmes icônicos como “O Desprezo”, com Brigitte Bardot, “Week-end à francesa” e "Acossado".   Hollywood perdeu Sidney Poitier, primeiro ator negro a ganhar um Oscar, e o ator francês Gaspard Ulliel morreu aos 37 anos vítima de um acidente de esqui. O mundo da música perdeu Pablo Milanés, um dos maiores nomes do cancioneiro cubano e internacional, e também Gal Costa. A imprensa do mundo inteiro homenageou a artista, falecida em novembro. "Uma das maiores cantoras do mundo", "musa eterna da Tropicália", "uma carreira rica e densa", disseram os principais jornais europeus. "Essa cantora de carisma excepcional e voz cristalina marcou toda uma geração", resumiu o jornal francês Le Figaro.   Também foi destaque nos principais jornais americanos e europeus a morte da cantora e compositora Elza Soares, aos 91 anos. "Elza Soares ultrapassou as fronteiras da música brasileira", disse o New York Times.  Música e na literatura Em 2022, a cantora Anitta lançou disco e realizou uma turnê europeia durante um mês. A garota do Rio transformou o tradicional Festival de Jazz de Montreux em um baile funk, sacudiu o Rock in Rio de Lisboa, foi um dos destaques do festival de Roskilde, na Dinamarca, e se apresentou em duas versões do Lollapalooza, em Estocolmo e Paris, entre outros shows que marcaram o ano da cantora.  Mas foi Liniker que ganhou o prêmio de Melhor Album de Música Popular Brasileira por seu trabalho em Índigo Borboleta Anil, seu primeiro disco solo. Ela se tornou a primeira artista trans a ganhar um Grammy Latino.  Na literatura, uma vez mais o Nobel foi para a França, e para uma mulher, Annie Ernaux, a mestre da autobiografia impessoal que se transformou em ícone feminista.  No principal festival de histórias em quadrinho do mundo, o Festival de Angoulême, na França, o prêmio foi para o quadrinista e escritor brasileiro Marcello Quintanilla, pelo álbum "Escuta, Formosa Márcia".  Soft power Em 2022, o cancelamento de artistas pró-Putin e a solidariedade a ucranianos marcaram a "guerra cultural" na França, contra a invasão da Ucrânia pela Rússia. Da Ópera Nacional de Paris ao Festival de Avignon, instituições culturais francesas expressaram seu apoio "ao povo e aos artistas da Ucrânia".  Os ucranianos da banda Kalush Orchestra se consagraram vencedores do Eurovision — o maior concurso musical do mundo — com a canção "Stefania", Em uma das edições mais políticas deste evento tradicional. A conquista foi festejada pelo presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, para quem a façanha simbolizava um presságio da vitória da Ucrânia também no campo de batalha.  Celebração O ano que passou também teve momentos de celebração. Gilberto Gil e a família decidiram em 2022 fazer uma turnê na Europa, lotando os lugares por onde passaram e levando o que o Brasil tem de melhor: a música, a alegria e o otimismo. Avô, filhos e netos no mesmo palco, celebrando a vida e o cantor, que fez 80 anos recentemente, como explicou Preta Gil em entrevista à RFI. Os 100 anos da Semana de Arte Moderna de 22 também foram celebrados. O movimento, que influenciou a arte em toda a América Latina, foi homenageado com uma série de exposições no Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires e pelo Teatro Municipal de São Paulo, principal palco da manifestação que buscava romper com o conservadorismo da época. No próximo ano, o maior desafio da cultura brasileira será o de se reconstruir. O novo governo de Lula vai recriar o Ministério da Cultura, extinto durante os anos de Jair Bolsonaro. E, assim como no resto do mundo, será preciso atrair de volta o público às salas de cinema, teatro e exposições.
    12/30/2022
    13:17
  • "Faz escuro mas eu canto": obras da 34ª Bienal de São Paulo são expostas em Arles
    O centro cultural Luma Arles, no sul da França, inaugura nesta sexta-feira (16) a exposição itinerante “Faz escuro mas eu canto”, com obras da 34a Bienal de São Paulo, realizada em 2021. Até março, o público francês poderá conferir uma seleção de trabalhos - entre pinturas, fotografias, vídeos, experiências sonoras e instalações - deste que é um dos maiores eventos dos circuitos artísticos internacionais do mundo.  Daniella Franco, da RFI A mostra “Faz escuro mas eu canto” conta com 14 artistas de sete nacionalidades diferentes, autores de obras que fazem eco aos recentes acontecimentos políticos no Brasil, trazem à tona questões pós-colonialistas, ambientais e sobre os povos indígenas.  Em entrevista à RFI, Jacopo Crivelli Visconti, curador da 34ª. Bienal de São Paulo, falou sobre a decisão de levar a exposição itinerante para Arles, depois de ela ter passado por várias cidades brasileiras e Santiago, no Chile. "Esse é um encontro de um desejo institucional da Bienal de São Paulo, de ter as obras viajando, e um desejo, do ponto de vista curatorial, de mostrar como uma obra de arte ou uma exposição sempre quer dizer coisas diferentes, dependendo do contexto de onde ela é vista", explica. Essa é a primeira vez que uma exposição itinerante da Bienal de São Paulo é realizada na Europa. Para Jacopo, o público francês não terá dificuldade de imersão ou compreensão das obras.  "Acho que as temáticas serão compreendidas perfeitamente. Fizemos esse esforço já na própria concepção da Bienal de São Paulo: partir sempre de elementos ou episódios da história brasileira, mas para falar de questões absolutamente urgentes na maioria dos lugares do mundo, como a questão ecológica, por exemplo. Lutas pela justiça e pela igualdade racial ecoam de uma maneira muito forte no Brasil, mas na França também já há muito tempo", ressalta.  Reagir através da arte Algumas obras da série "Mata", da artista brasileira Alice Shintani, fazem parte dos trabalhos expostos em Arles. São guaches sobre papel baseados em elementos da flora e fauna amazônicas, todas com o fundo preto. Ela contou à RFI sobre o contexto em que essas pinturas foram produzidas.  "Esse trabalho foi realizado durante o confinamento, na pandemia, um momento angustiante para todo mundo e que coincidiu com o início do governo Bolsonaro. Estávamos vivendo todo aquele desmonte de políticais sociais e a forma como o governo estava lidando com a pandemia, negando vacina, além do crescente desmatamento. Tudo isso foi acontecendo ao mesmo tempo e gerou uma sensação de impotência. Não tínhamos como reagir, estávamos confinados dentro de casa", relembra.  A maneira que a artista encontrou para superar a frustração foi trabalhando. "Pensei: 'quer saber, vou pintar flores no papel com tinta guache', que foi o material mais prosaico que eu tinha em casa, pra reagir de alguma maneira. Foi uma forma muito íntima minha de tentar lidar com aquilo que eu estava sentindo naquele momento", completa.  “Faz escuro mas eu canto” também foi o tema da 34ª. Bienal de São Paulo, em homenagem a um verso do poeta Thiago de Mello, escrito durante a ditadura militar no Brasil. O poema posteriormente virou música, que foi interpretada po Nara Leão em 1966.  "Naquela época da ditadura militar, quando o poema foi escrito por Thiago de Mello, esse escuro era algo projetado para fora, diante da violência, das pessoas sendo mortas, desaparecidas, presas. Mas, atualizando para o momento presente, fiquei me questionando se escuro está realmente só do lado de fora. Porque hoje a gente aponta tanto para o outro, mas esquece de olhar para dentro de nós. E essa escuridão pode estar dentro da gente também", explica.  Ñamíriwi'í ou a Casa da Noite A artista e a ativista indígena Daiara Tukano terá uma obra exposta em Arles, Ñamíriwi'í ou a Casa da Noite, que faz referência às narrativas de criação do povo Tukano Yé'pá Mahsã. Segundo a tradição desta etnia, no início da humanidade existia apenas o dia e foi preciso procurar a noite, que estava guardada em uma caixa. Quando aberta, revelaram-se novos horizontes.  "Essa tela faz parte de uma série de pinturas que fala sobre as mirações do arco-íris, de todas as luzes, todas as cores que se iniciam por esse momento da escuridão. Talvez, no meio de todos os devaneios, um dos objetivos da noite, além do descanso, possa ser esse sonhar, a capacidade de atravessar mundos através de nossas visões, desde esse ponto de origem no escuro, de onde surge a luz", diz.  Para Daiara Tukano, poder participar da primeira mostra da Bienal de São Paulo na Europa "é uma alegria". A artista, que morou na França durante a infância, acredita que o público europeu pode se conectar à sua obra. "Mas compreender, não sei. Seria prepotência demais achar que qualquer um de nós possa compreender a potência da arte, a potência de nossas expressões", observa. Segundo ela, o caráter político da participação dos povos originários em eventos culturais e artísticos contemporâneos é de extrema importância. "Espero que ao menos possa surgir uma curiosidade do público europeu em relação aos debates e desafios que acompanham as presenças indígenas, não apenas sobre a luta por nossos territórios, que é a questão mais emergencial, mas também a compreensão que nossos territórios não são apenas um espaço físico; são também um espaço de pensamento, de filosofia, de visão e postura diante do mundo", conclui.   “Faz escuro mas eu canto” fica em cartaz no centro cultural Luma Arles até 5 de março de 2023.
    12/16/2022
    13:20
  • Coletivo sueco cria álbum de figurinhas com os trabalhadores mortos na Copa do Catar
    Quem nunca folheou, colecionou ou pelo menos viu o álbum de figurinhas da Copa do Mundo - qualquer Copa - com as fotos dos jogadores dos times selecionados? Nesta Copa do Catar, o jornalista Martin Schibbye e a designer Brit Stakston, ambos suecos, decidiram lançar o projeto "Cards of Qatar" (Cartas do Catar, em tradução livre), em que substituem os jogadores pelos trabalhadores mortos enquanto trabalhavam para construir a infraestrutura deste Mundial de 2022.  Por Paloma Varón, da RFI "Trata-se de uma coleção de histórias apresentadas em formato de figurinhas que se parecem às do tradicional álbum da Panini, essas que a gente coleciona em todas as Copas do Mundo desde que eu era criança – a gente se acostumou a colecionar jogadores, seleções, países. Mas, antes desta Copa do Mundo, houve um grande debate sobre números, estatísticas, sobre quantos morreram na construção, para que esta Copa do Mundo fosse possível", explica à RFI o jornalista Martin Schibbye, criador do projeto Cartas do Catar, que reúne 70 histórias de trabalhadores, publicadas desde junho deste ano.  "E eu senti que, atrás das estatísticas, havia pessoas e nós, jornalistas, não estávamos contando suas histórias. Então eu fui para o Sul da Ásia e, com outros jornalistas, em Bangladesh, Índia e Nepal, para falar com o maior número possível de famílias que perderam seus entes queridos no Catar’", conta Schibbye, que começou este trabalho há dois anos e meio, ainda durante a pandemia, embora só tenha conseguido viajar em novembro do ano passado.  Uma vez que ele tinha as histórias, o desafio era como apresentá-las para que chamassem a atenção dos fãs de futebol e de um público mais amplo.  A responsável pela escolha do formato foi a especialista em estratégia midiática Brit Stakston, cofundadora da plataforma jornalística sueca Blankspot, junto com Schibbye. "Eu trabalho com o Martin há sete anos na Blankspot e desenvolvi a estratégia midiática deste fantástico projeto jornalístico. Para mim, é uma honra trabalhar nas Cartas do Catar, pela urgência do assunto, mas também pelas possibilidades que ele traz de comunicação, de atingir um novo público para o nosso trabalho".  "O design foi feito para quem assiste aos jogos de futebol, para quem tem filhos que colecionam as cartas e figurinhas... Esta me pareceu a maneira mais natural de apresentar essas histórias: os cards funcionam como uma ponte para contar as histórias de cada trabalhador migrante. Nós queríamos destacá-los como as outras estrelas desta Copa do Mundo, queríamos aproveitar a paixão pelo futebol para mostrar os diferentes aspectos deste Mundial", sublinha Brit Stakston.  Ao invés de jogadores profissionais, cada carta conta a história de trabalhadores migrantes que foram ao Catar para conseguir manter suas famílias, mas nunca retornaram aos seus países. "Histórias de trabalhadores migrantes que buscam dar um futuro melhor às duas famílias foram contandas muitas vezes, por décadas, mas a gente queria, nesta caso, apresentá-las de uma nova maneira, para atingir fãs de futebol", completa Schibbye. Não ao boicote, sim à memória O jornalista explica que não se trata de boicotar a Copa do Catar, mas de manter viva esta memória de explorações para que elas não voltem a acontecer. "Uma das famílias que eu entrevistei quando eu fui para o Nepal foi a viúva de Bine Bishworkarma; o seu marido nunca voltou pra casa. Ele morreu no Catar, mas o seu corpo nunca foi mandado de volta. Ela tinha muitas perguntas sobre o que aconteceu com ele no Catar. E, para ter algo que parecesse um funeral, ela pegou suas roupas antigas, num guarda-roupa, e as queimou numa tradição fúnebre", disse. "Eu lhe perguntei sobre os sentimentos dela em relação a esta Copa do Mundo para a qual o seu marido trabalhou - ele era um trabalhador muito talentoso e construiu pisos com materiais preciosos, como mármore. Ela me disse que leu no Facebook pessoas clamando por um boicote, mas ela disse que queria apenas que as pessoas pudessem ver o belo trabalho que o seu marido fez, que lembrem dele, que vejam que é um trabalho bem feito. Suas palavras têm estado comigo neste projeto : é tudo sobre ver e reconhecer o trabalho e não esquecer das pessoas", continua Schibbye.  Caminhos inesperados Confeccionadas em junho deste ano, as cartas seguiram diversos caminhos, alguns até mesmo inseperados pelos criadores do projeto.  "As cartas têm o seu jeito único de achar o caminho até outros países. Ontem um padre na Alemanha colocou as cartas na sua igreja, e acendeu uma vela para cada carta. Então as pessoas que visitarem essa igreja poderão ler essas histórias. O Museu do Design, em Copenhague, nos estendeu a mão, e ofereceu exibir o projeto. Professores de toda a Suécia têm nos contatado para pedir as cartas para discutir esse problema com seus alunos em sala de aula. As cartas também foram traduzidas e publicadas em oito línguas. E, também aqui na Suécia, nas bancas de revistas, além das figurinhas da Panini, as nossas são distribuídas gratuitamente num pacote com oito amostras", conta.  A reportagem da RFI viu as cartas exibidas no Museu do Design, em Cpenhague, na Dinamarca. Anders Eske Laurberg Hansen, o curador da exposição em Copenhague, contou que decidiu exibir as cartas porque, além de mostrarem como o design está em todos os campos, elas incitam os espectadores a agir e exigir mudanças e, portanto, também são em grande parte medida políticas. O turista finlandês Miikka contou à reportagem o que sentiu ao ver a exposição: "Eu fiquei bastante surpreso ao ver esta exposição no Museu do Design, porque eu fui lá para ver o design nórdico e então eu achei esta parte sobre o Catar e os problemas com os trabalhadores estrangeiros. Foi muito interessante ver como eles pensaram esta exposição, especialmente esta das Cartas do Catar, porque eu colecionava as figurinhas da Copa do Mundo quando eu era criança e agora eles usam o mesmo estilo para trazer ao conhevcimento do público o quão ruim é a situação dos trabalhadores estrangeiros no Catar, na construção da infra-estrutura para esta Copa do Mundo".  Cartas foram enviadas à FIFA Além de alcançar um público amplo, Martin tenta que as Cartas do Qatar alcancem os responsáveis pela Copa: "Nós enviamos as cartas para todos os patrocinadores desta Copa, para a FIFA, para o Catar. Nós gostaríamos de ter as respostas deles, para ter a certeza de que isso nunca mais vai acontecer: para fazer reformas trabalhistas, melhorias nas leis de imigração etc. Até agora não recebemos nenhuma respsta da FIFA ou do governo do Catar. A Adidas foi a única empresa que nos respondeu, dizendo que não foi decisão deles que a Copa acontecesse no Catar, mas que estavam atentos para melhorar a situação dos trabalhadores migrantes. Isso mostrou que eles foram tocados pelas histórias", finaliza. Direitos humanos e justiça social Segundo Anders Eske Laurberg Hansen, curador da exposição no Museu do Design de Copenhague, “'Trabalhadores Convidados'” faz parte de um novo espaço do museu denominado “AKUT” (que se traduz em “Agudos”). "AKUT é um espaço para exposições temporárias que mudam de temática cerca de quatro vezes por ano. O espaço dedica-se ao design e artesanato contemporâneos que representam o que está acontecendo no mundo agora e como o design se cruza com temas ambientais, sociais e políticos." "Sentimos que os 'Trabalhadores Convidados' se encaixam na ideia e nos temas relacionados ao AKUT de várias maneiras diferentes. A exposição é muito relevante, pois foi inaugurada poucos dias antes do início da Copa do Mundo da FIFA e, portanto, é diretamente voltada para o evento. Os quatro projetos da exposição comentam a exploração dos trabalhadores migrantes no processo de construção do ambiente necessário para a Copa do Mundo e, portanto, abordam temas como injustiça social e direitos humanos. Os projetos também podem ser vistos como tendo elementos ativistas que incitam os espectadores a agir e exigir mudanças e, portanto, mostram ao nosso público o quão amplo é o campo do design", afirma. Para Hansen, foi importante trazer “Cartas do Catar” para a exposição, ao lado do documentário “A Taça dos Trabalhadores”, "porque ambos os projetos dão voz aos trabalhadores migrantes e contam suas histórias". "Queríamos garantir que as vidas dos trabalhadores não fossem meramente representadas como fatos e estatísticas, mas vidas humanas reais. 'Cartas do Catar' não apenas coloca um rosto nas vítimas, mas também destaca as consequências de longo alcance que essas mortes inexplicadas tiveram para as famílias que ficaram para trás", analisa. Design e política "‘Cartas do Catar’ traz um elemento de design para a exposição que se encaixa no objetivo principal do museu de exibir design. As cartas são um bom exemplo de quão amplo é o campo do design, como ele está evoluindo e que o design também pode ter aspectos políticos. Além disso, elas mostram que um amplo espectro de profissionais, neste caso jornalistas, utiliza elementos do campo do design em seu trabalho e como meio de comunicação". Hansen garante que a reação do público à exposição tem sido muito positiva. "Muitos ficaram agradavelmente surpresos ao ver uma exposição com elementos de ativismo em uma instituição estabelecida como nosso museu. Eles gostam que um museu de design também possa fornecer uma plataforma para debate sobre tópicos complicados, como direitos humanos e injustiça social", conta. "Recebemos muitos comentários sobre o fato de que a exposição é esteticamente agradável, com fotos e designs bonitos e emocionantes, mas também tem uma mensagem importante a transmitir. Eles gostam de como a exposição mostra como o design pode ser algo que usamos no nosso dia a dia, mas também pode ser um meio de chamar a atenção para questões importantes", conclui Hansen.  Mudanças à vista? No início desta semana, o diretor geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT) se declarou "razoavelmente otimista" sobre a possibilidade de um acordo com a FIFA para que os direitos sociais sejam levados em consideração no momento de definir as sedes das Copas do Mundo, depois das críticas ao Mundial de 2022 no Catar. A agência da ONU propõe "uma revisão diligente dos países candidatos" a organizar a Copa, afirmou em entrevista à AFP Gilbert F. Houngbo, que se encontrou no domingo em Doha com o presidente da Federação Internacional de Futebol (FIFA), Gianni Infantino. "Todas as discussões que tivemos até o momento me levam a acreditar que a FIFA está mais que decidida a garantir que, nos próximos Mundiais, a questão social e o respeito às normas de trabalho sejam fundamentais", afirmou Houngbo.
    12/9/2022
    7:52

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