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De segunda a sexta-feira, sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.
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  • São Tomé e Príncipe: Justiça vai averiguar condições de saúde e segurança de Lucas Lima
    Dois meses depois do ataque ao quartel militar a justiça são-tomense tem em curso dois processos de investigação. Passados dois meses, a família do único alegado autor do ataque sobrevivente denuncia a ausência de tratamento médico e a contínua visita de militares à prisão. Dois meses depois do ataque ao quartel militar, cujas imagens de tortura e morte de quatros suspeitos continuam a circular nas redes sociais, a justiça são-tomense tem em curso dois processos de investigação. Um por tentativa de golpe de Estado consolidada no ataque ao quartel e um segundo que investiga o homicídio e tortura de suspeitos. Passados dois meses, a família do único alegado autor do ataque sobrevivente, Lucas Lima, denuncia a ausência de tratamento médico e a contínua visita de militares à prisão. Paulina Lima sublinha que a primeira consulta médica a que o irmão teve acesso foi na sexta-feira da semana passada, 20 de Janeiro, custeada pela família, tal como a primeira ecografia, realizada esta quarta-feira, 25 de Janeiro. Na terça-feira, 24 de Janeiro, Lucas teria sido conduzido pelos serviços prisionais a uma consulta médica, contudo dado o aviso tardio da família, o detido apenas foi acompanhado pelo advogado.  “Está de saúde dele não está nada agradável: está a defecar com com sangue, urina com sangue, deitou sangue algumas vezes de um ouvido, tem um dos testículos inflamado, tem dores na perna esquerda… Na consulta à qual o levei, o médico detectou um problema na coluna. Tem muitas dores e diz, também, que da perna direita ‘apanha tipo choque’.” Desde o dia 25 de Novembro de 2022, o seu foi visto pelo médico, pela primeira vez, na sexta-feira da semana passada, no dia 20 de Janeiro de 2023? “Sim, a primeira vez que foi visto [pelo médico] foi na sexta-feira [20 de Janeiro de 2023]. Ele, quando estava na PIC [Polícia de Investigação Criminal] passou pelo hospital porque ele tinha desmaiado. Foi no dia 26 [de Novembro de 2022], mas ele disse que só lhe passaram paracetamol.”  Portanto, neste tempo todo, ele esteve a tomar apenas para paracetamol? “Sim, sim. Pelo que soubemos, a indicação que temos, é que ele não foi atendido por um médico. Era o enfermeiro da cadeia que o atendia, mas o que ele tomava era paracetamol.” Ou seja, depois de ter sido espancado - como se vê nas imagens - não fez nenhum exame, nenhuma ecografia, nada? “Não, não teve nada disso.” Os exames médicos, esta quarta-feira, 25 de Janeiro de 2023, são pagos por vocês [família]? “Sim, por nós. A medicação também.”  Diz que há militares que vão visitar o seu irmão à prisão. Quem são e o que é que eles querem?  “O militar que esteve [na prisão] no dia em que eu estive presente, foi um tal de ‘Geri’.  O ‘Geri’ [um militar] falou com ele [Lucas] e disse-lhe, abertamente, que ele tinha de pensar muito bem no que iria falar porque este Governo e o quartel dependiam dele. E não falou mais nada na minha presença. Deixou-me sair e tentou voltar a falar com o Lucas. Nessa altura, o Lucas disse-lhe que não iria falar com nenhum militar na nossa ausência. Portanto, ficamos sem saber de concreto o que é que os militares queriam que ele dissesse, fizesse ou falasse.”  Pensa que há possibilidade dos militares poderem querer comprar o silêncio do seu irmão?  “Eu penso que sim, porque o ‘Stoe’ [um militar] havia enviado um recado para o meu irmão, havia tentado ‘fechar a boca’ do meu irmão, dizendo que a patente dele estava em jogo e que ele não ia perder. Para mim, já é uma ameaça.”  Ou seja, a vida do seu irmão neste momento corre perigo?  “Corre. Nós sentimos que a vida dele corre perigo.” O facto da senhora, da sua mãe e do seu tio falarem, isso também não vos coloca em risco? “Com certeza que coloca, mas não podemos ficar de ‘braços cruzados’. Nenhuma mãe, que carrega um filho nove meses, quer ver seu filho a morrer ou a sofrer.” No dia em que se assinalaram os dois meses do ataque ao quartel, a RFI ouviu Kelve Nobre Carvalho, o Procurador-Geral de São Tomé e Príncipe, que comentou as acusações proferidas pelos familiares de Lucas Lima e que começa por nos fazer o ponto da situação dos processos. A entrevista a Kelve Nobre Carvalho foi realizada na tarde desta quarta-feira, 25 de Janeiro. "As investigações decorrem com auxílio técnico da cooperação internacional solicitada e está tudo a ser feito no seguimento dos trâmites processuais, no respeito cabal daquilo que é o direito dos arguidos no processo de crime para que, antes do fim do prazo, da prisão preventiva possamos dar o despacho final, seja ele da acusação ou outro qualquer. É este o ritmo, é nesta situação que se encontram as investigações." Há duas investigações, dois processos em curso, a correrem paralelamente? "Certo. Temos duas investigações abertas. Uma em relação à tentativa de tomada ou tomada mesmo do quartel, que ainda estamos a apurar concretamente o que se terá passado, e a outra [investigação] em relação, a algo mais evidente, que são as mortes ocorridas.  Devido à gravidade da situação - das mortes - abrimos propositadamente um processo autónomo só para essas investigações." Há arguidos nos dois processos?  "Temos arguidos presos nos dois processos, quer em relação ao assalto ao quartel quer dos homicídios. Nos dois [processos] temos arguidos presos."  Portanto, quantos arguidos estão presos no processo de violação de direitos humanos? Falo portanto do caso de tortura e morte dos alegados suspeitos.  “Neste momento, encontram-se detidos preventivamente quatro arguidos. Mas as investigações ainda não chegaram ao seu ponto final de conclusão.” Os arguidos deste processo especificamente são militares? “Essencialmente, são militares.” Quanto tempo é que estas investigações podem demorar para o esclarecimento cabal daquilo que se passou a 25 de Novembro? “Nós pretendemos recolher todas as provas suficientes antes do prazo final da prisão preventiva, que em São Tomé e Príncipe são três meses a partir da data de detenção dos arguidos.” Portanto, mais um mês e a partir daí pode começar a haver uma luz ao fundo do túnel? “Também no nosso código de processo penal há possibilidade de requerer a extensão do prazo da prisão preventiva, alegando a complexidade do processo. Há uma prerrogativa nesse sentido. O que estou a dizer é que as coisas estão em curso e só com a evolução concreta do trabalho saberemos ou não se efetivamente será antes dos três [meses]. Mas queremos, o Ministério Público de São Tomé e Príncipe quer que seja feita antes do prazo da prisão preventiva, do término do prazo de três meses.” A família do único alegado autor do ataque sobrevivente, Lucas Lima, denuncia a ausência de tratamento médico e a contínua visita de militares à prisão. “Em relação aos cuidados médicos, nós temos os que à partida a própria cadeia central, sob a coordenação do Ministério da Justiça e um um subcomissário, oferece a todos os arguidos de São Tomé e Príncipe. Mas vamos procurar perceber, efectivamente, qual é o estado actual da saúde do arguido em questão e enviar, provavelmente, um médico para avaliar, em função dessa informação que me está a dar agora, que é nova para mim.” E a questão da visita de militares a este arguido?  “Um preso preventivo tem uma limitação de visitas que pode receber. Nós achamos estranho isso, mas tarde a ser averiguado. Por enquanto, não temos elementos que façam referência a isso. Solicitamos isso à cadeia central e não temos elementos, mas está-se a averiguar efectivamente o que é que estará a ocorrer.  Qualquer preso à cautela do processo, é um preso com os seus direitos. Direitos que devem ser salvaguardados durante a investigação criminal. Um deles é a saúde, outro é a sua própria segurança.  Mas, no momento em que está a falar comigo [25 de Janeiro de 2022, o Ministério Público de São Tomé e Príncipe não recebeu nenhum requerimento do advogado, nenhum escrito do arguido, expondo no processo essa situação.  Nós ouvimos, temos ouvido de várias pessoas e fomos averiguar efectivamente e avaliar a própria segurança do arguido em questão." Por seu lado, questionado sobre estas visitas de militares ao preso preventivo Lucas Lima, o ministro da Defesa de São Tomé e Príncipe, Jorge Amado, diz ter tomado conhecimento da situação na manhã de 25 de Janeiro de 2023, e ter procedido à abertura de um inquérito para verificar as acusações: “fiz essa solicitação ao serviço competente para me poder informar sobre o assunto e estou aguardando essa informação.” .  Jorge Amado acrescenta que, em São Tomé e Príncipe, os militares não estão acima da lei nem da justiça. “Eu não considero [que os militares estejam acima da lei] e não vejo em que momento houve desrespeito do exército em relação a alguma decisão que tivesse sido tomada.” A juíza de instrução criminal decidiu a detenção de alguns militares na prisão civil e eles foram para a prisão militar... “Eles foram cumprindo a lei. Quando um militar é preso, mesmo em flagrante delito, deve ser entregue à instituição militar para que aguarde o julgamento na prisão militar. Não se pode misturar um militar com civil, porque há riscos de vida.” De acordo com o senhor ministro, os militares têm estado a respeitar a legislação e a justiça são-tomenses? “Tem estado a respeitar, sim.” Mesmo que se comprovem estas visitas a este detido?  “A este detido, eu não sei se é real. Portanto, estou à espera que me dêem a informação que pedi. Se é real, tenho de saber qual é a causa, quem o ordenou e daí poderei fazer alguns juízos. Sem isso, não posso especular. Se soubermos que é [verdade] vamos tomar as medidas necessárias.” Desde aquilo que se passou a 25 de Novembro de 2022, o que é que a nível militar foi feito, no seguimento daquilo que aconteceu?  “Foi feito um inquérito, que também está ao nível da Procuradoria-Geral da República. Não nos podemos pronunciar sobre o inquérito militar sem que haja uma conclusão da Polícia Judiciária e da Procuradoria-Geral da República, até agora em segredo de justiça. No entanto, os oficiais foram identificados, convocados e enviados para prisão preventiva nas Forças Armadas.” Neste momento, quantos militares estão detidos?  “Podemos dizer aproximadamente quinze.”
    1/26/2023
    13:55
  • "A Rússia quer que Angola reveja o posicionamento em relação à Ucrânia"
    O investigador ligado à Associação de Ciência Política de Angola, Nélson Domingos, considera que o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov, está em Luanda para convencer as autoridades a reverem o posicionamento no conflito que opõe a Rússia à Ucrânia. RFI: O ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov, encontrou-se esta quarta-feira, 25 de Janeiro, em Luanda, com o homólogo Téte António e foi recebido pelo chefe de Estado João Lourenço. O que é que pretende Moscovo com esta visita? Nélson Domingos: Acredito que seja uma possibilidade de reaproximação das relações entre os dois Estados. Historicamente, a parceria entre Angola e a Rússia é fruto da guerra fria. Moscovo esteve sempre ao lado de Luanda, fornecendo armamento e treino militar. A Rússia esteve ainda ao lado do governo do MPLA nas negociações do processo de paz, enquanto os Estados Unidos estiveram ao lado da UNITA. Desde o posicionamento de Angola em relação à Rússia e aos Estados Unidos da América, há uma necessidade de aproximação. Esta visita acontece numa altura em que as autoridades angolanas se têm estado a posicionar de forma neutra, diante a ofensiva russa na Ucrânia. Que mensagem leva Serguei Lavrov a João Lourenço? Serguei Lavrov que acaba de realizar uma viagem à África do Sul... É preciso fazer uma análise cronológica. Em Março, Angola teve um posicionamento neutro e em Setembro, no discurso de tomada de posse, João Lourenço condenou a anexação, recomendando a Rússia a cessar as hostilidades. Em Outubro, na resolução das Nações Unidas, Angola votou a favor da resolução que condenou a anexação do território da Ucrânia pela Rússia. Em Dezembro, quando o Presidente João Lourenço se encontrava nos Estados Unidos, Angola condenou a anexação e revelou que os Estados Unidos passariam a ser o novo parceiro militar de Luanda. Ou seja, os Estados Unidos passariam a rearmar as Forças Armadas Angolanas, uma decisão que representa uma elevada perda para a Rússia. Quase 70% do armamento das Forças Armadas Angolanas são provenientes de Moscovo.  Esta mudança significativa tem um impacto nas relações entre os dois Estados É esta situação que Serguei Lavrov quer reverter? A Rússia pode usar o passivo histórico para recuperar o apoio de Luanda? A ligação histórica, a dívida histórica é, certamente, um instrumento que pode ser colocado em cima da mesa. No entanto, tudo indica que o Governo de João Lourenço está decidido a manter esta aproximação com os EUA, mas sem fechar a porta às parcerias com a Rússia. Não podemos esquecer que, neste momento, um dos maiores produtores de diamantes é uma empresa estatal russa- ALROSA- que produz, na mina de Catoca, mais de 70% dos diamantes em Angola. Há ainda o satélite ANGO-SAT2, produzido com tecnologia e pela própria Rússia. As parcerias não se esgotam. Angola estará aqui a tentar fazer um jogo de equilíbrio? Ao mesmo tempo, esta visita pode “beliscar” as relações com a Ucrânia? Angola que é muito dependente dos cereais ucranianos…. Sim, mas o Estado angolano é um Estado soberano. Nada o impede de manter parcerias nas diferentes áreas, com os diferentes Estados. A mensagem que Angola tem procurado passar, de forma muito clara, é que condena a invasão russa, criando assim um certo distanciamento com a Rússia. Este posicionamento é diferente dos países africanos que, na sua maioria, têm estado alinhados com a Rússia. Estou a pensar na África do Sul, no Mali e Burkina Faso… Numa das votações, a África do Sul teve um posicionamento neutro. Angola é um parceiro histórico e estratégico da Rússia e é importante, para o Kremlin, que Luanda esteja alinhada com Moscovo. Por essa razão, a visita de Serguei Lavrov passou pela Africa do Sul, mas também por Angola. Isto revela a importância geopolítica de Angola na região da SADEC. O Presidente angolano disse recentemente que tinha chegado a hora de negociar a paz na Europa, voltando a apelar a um cessar-fogo definitivo. João Lourenço tem algum poder para mediar este conflito? O Estado angolano, na verdade, tem experiência em termos negociais, sobretudo na região da SADEC e nos Grandes Lagos. Porém, a mediação está muito dependente das partes beligerantes envolvidas. Em regra, nas negociações há muitos interesses em jogo e, geralmente, as partes envolvidas podem indicar os mediadores. Se a Rússia ou a Ucrânia tiveram interesse em indicar o Estado angolano, como parte mediadora, poderão fazê-lo. Angola tem experiência para isso. Todavia, eu não acredito que seja essa a pretensão da visita de Serguei Lavrov. Esta visita é feita no intuito de convencer as autoridades angolanas a repensar a decisão de comprar armamento aos Estados Unidos e a rever a postura do país no conflito que opõe a Rússia à Ucrânia. [A Rússia] quer ainda manter as parcerias na área dos diamantes, das tecnologias, como é caso da construção de satélites, as parcerias de bolsas de estudo e outras parcerias que existem entre os dois países”. Se Angola mantiver o mesmo posicionamento [relativamente ao conflito na Ucrânia], que retaliação pode fazer a Rússia? Provavelmente, a Rússia não fará [uma retaliação] de maneira aberta, até porque há interesses económicos que afectam a própria Rússia. O que pode fazer, neste momento, é o chamado “Soft Power”. Ou seja, lançar mecanismos mais brandos, no sentido de levar o Estado angolano a mudar o posicionamento. Angola procedeu a uma mudança estratégica [ao nível da política externa], dificilmente abrirá mão dela. Aos olhos da comunidade internacional, esta visita do ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Angola não está a desrespeitar as regras elementares do direito internacional, da soberania dos Estados e das fronteiras? Não há nenhuma violação das regras internacionais ao receber um representante de um Estado. Não há nenhuma regra internacional nesse sentido, que proíba esta relação, esta visita.
    1/25/2023
    8:29
  • "França está numa situação diplomática deplorável no continente africano"
    Meses depois do Mali, o Burkina Faso pediu à França para retirar as tropas do seu território. A decisão é acompanhada por um recuo da influência francesa e por avanços russos. "A França está numa situação diplomática profundamente deplorável no continente africano", resume o investigador Régio Conrado, numa entrevista sobre as causas e o impacto da decisão de Ouagadougou. “Não é nenhuma surpresa que haja estas contestações no contexto africano recente ao exército francês no continente africano por causa do insucesso que teve durante muito tempo. Isto criou uma percepção muito negativa em relação à fiabilidade deste exército francês”, começa por explicar Régio Conrado, professor na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo. Por outro lado, “também há uma percepção de que a França é um país que, de forma implícita ou indirecta, vai contribuindo para a degradação da situação securitária nestes países”. A isto junta-se “o exemplo do Mali” que pediu e obteve a retirada das tropas da operação antijihadista e “que mostrou que a sua articulação com novas alianças internacionais - como é o caso da Rússia e do caso não oficial do grupo Wagner - trouxe resultados muito mais palpáveis”. Régio Conrado sublinha que “as soluções que a Rússia apresenta parecem muito mais eficazes” e aponta como exemplos o fornecimento de material bélico, “treinamento táctico eficiente” e a formação de oficiais superiores. Agora é a vez do Burkina Faso. Desde a chegada ao poder da junta militar, naquele que foi o segundo golpe militar em oito meses, houve uma aproximação com a Rússia. Na semana passada, o chefe de governo interino, Apollinaire Kyélem de Tembela, encontrou-se com o embaixador russo e há um mês esteve em Moscovo. Porque é que há a percepção que a Rússia pode ser mais eficaz? Para Régio Conrado, a resposta passa por olhar para a forma como a França respondeu à Ucrânia e a forma como tem respondido aos países africanos assolados pelo jihadismo. Não se pode pretender ter relações diplomáticas e militares com um determinado país, cujo objectivo é combater o grupo terrorista, se nós não fornecermos armamento ou material bélico letal, se não dermos formações de qualidade para que os militares nacionais possam ser eles próprios a combaterem e a protegerem a sua terra. Nós constatamos que, nos dez anos de articulação diplomática e militar com a França, estes países não tiveram fornecimento de material, não tiveram formação táctica profunda. É como se a França se quisesse substituir a este exército nacional e manter a dependência, uma dependência neocolonial, desses países em relação a França. Nesta equação diplomático-militar, “é necessário multiplicar os parceiros”, olhando nomeadamente para a Rússia, mesmo que isso signifique “subtrair a França”. Régio Conrado acrescenta que multiplicar parceiros evita “criar uma dependência crónica” com apenas um deles e que “o desaparecimento de França na África do Oeste não significa o desaparecimento do Ocidente”, até porque “os Estados Unidos continuam a dar treino aos militares” e os “alemães estão presentes financeiramente”, por exemplo. Régio Conrado vai mais longe e fala mesmo em “hipocrisia estrutural” por parte de França. Se for a ver todo o investimento que estão a fazer no contexto da Ucrânia, porque é que não o fizeram no continente africano? Porque é que não deram tanto dinheiro aos países africanos que estão em conflito com o terrorismo há mais de dez anos? Porque é que o nível de investimento que a França fez em menos de um ano na Ucrânia não o deu aos países onde ela se investia? Há uma hipocrisia que é estrutural e que criou várias situações de conflito.A França está numa situação diplomática profundamente deplorável no continente africano, está numa situação profundamente crítica no continente africano e é preciso não esquecer que a capacidade de a França influenciar as mentalidades está profundamente enfraquecida. Oiça a entrevista no programa Convidado.
    1/24/2023
    12:21
  • África do Sul cada vez mais próxima da Rússia
    O chefe da diplomacia russa começou hoje uma visita à África do Sul. Pretória que chefia actualmente o bloco dos BRICS, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul tem-se pautado por uma política dita de neutralidade quanto ao conflito na Ucrânia. A África do Sul que acolhe no próximo mês exercícios militares marítimos com a Rússia e a China. José Gama é analista de origem angolano radicado na África do Sul com o qual analisámos esta deslocação.
    1/23/2023
    11:14
  • Viúva de Amílcar Cabral relata a morte de dirigente do PAIGC há 50 anos
    Amílcar Cabral foi assassinado em Conacri a 20 de Janeiro de 1973, baleado por dois membros do seu partido, o PAIGC, um comando que tinha também detido Aristides Pereira, o seu braço direito. Este acabaria por ser solto pela intervenção das autoridades de Sékou Touré. Meio século depois a morte do fundador do movimento independentista continua envolta em mistério. Ana Maria Cabral é a viúva do pai das independências da Guiné e Cabo Verde, ela relata-nos o ocorrido. "Embora seja uma coisa dolorosa, não gosto de falar sobre isso, mas eu estava presente. Ele já tinha recebido várias informações de vários serviços de espionagem de alguns dos nossos amigos na altura, eu é que não sabia de nada. Mas vi que ele estava muito preocupado nesse dia." Poderia ser com as divisões no seio do PAIGC, entre as várias alas? "Não, não havia divisão nenhuma e isso foi tudo criado pelos colonialistas. Estava já tudo preparado para proclamarmos o Estado, como foi feito depois da morte dele. Mas estava tudo preparado, as assembleias, etc." Lembra-se do que é que Amílcar Cabral fez ao longo desse dia?  "Havia uma recepção, se a memória não me falha, parece-me que era na embaixada da Polónia e fomos lá. Ele não era muito de recepções, mas excepcionalmente ele disse: “A Polónia, quase que não recebemos ajuda nenhuma da Polónia e vamos lá para lembrar-lhes que nós também precisamos da solidariedade deles” e, portanto, fomos. Vi que ele nunca mais queria sair, dizia que tinha o pressentimento de que era o último dia da vida dele e, então, falava, falava... falava com todos embaixadores, com todos os diplomatas... fiquei até admirada porque é que ele não queria sair. Só mais tarde é que me apercebi, porque quando chegamos a casa já estava toda cercada pelos traidores." É verdade que a senhora tinha pensado, de facto, por segurança, em levar uma pistola quando foi essa recepção à embaixada? "É verdade, é verdade."  Amílcar Cabral não permitiu que levassem essa pistola? "Não, não, não permitiu. Eu apercebi-me que algo se passava, não sabia o quê porque não tinha informações, mas ele não deixou e nem quis guarda nenhum. Nós fomos só os dois sozinhos, sem guarda, sem nada, sem pistola, sem nenhuma segurança.  Quando regressamos a casa, vivíamos ali no secretariado - uma parte da casa era residência, outra parte era secretariado do PAIGC, na altura - a casa estava toda cercada e, logo, quando saímos do carro eles vieram tentar amarrar Amílcar Cabral. Depois soubemos que tinham chegado a acordo com o Spínola e o acordo era entregar os principais dirigentes do PAIGC da altura, para que Spínola discutisse com eles uma espécie de autodeterminação da Guiné-Bissau, sob a bandeira de Portugal colonialista."  O que é que viram?  "Descemos do carro, eles tentaram amarrar [Amílcar] Cabral. O Cabral disse "não, não me amarrem. Nós estamos a lutar para acabar com essas faltas de respeito de amarrar as pessoas. Se há problemas, vamos sentar-nos e assim, no secretariado, vamos discutir os problemas que há". Então, ele disse: “Eu prefiro morrer”. Nunca mais me esqueci disso: “Eu prefiro morrer a ser amarrado”. Então o Inocêncio Cani disparou logo à queima-roupa sobre o baixo-ventre. [Amílcar Cabral] dobrou-se cheio de dores e eles pensavam que já o tinham morto e caiu, portanto caiu no chão."  Amílcar Cabral recebeu um primeiro disparo do revólver de Inocêncio Cani e depois, efectivamente, uma série de disparos de kalashnikov, não é?  "É verdade sim. O Inocêncio Cani conseguiu dominar Aristides Pereira, o conselheiro mais próximo de Cabral, na altura. O Cabral continuava deitado no chão, com camisa toda cheia de sangue, e ele disse: “Ainda estás a falar?” e diz a um qualquer que era para liquidá-lo de vez. E foi assim." Faleceu logo na hora?  "Não. Ainda ficou a falar. Ainda ficou a chamar por mim…. Foi uma coisa horrorosa." Todos eles estavam com o rosto descoberto? "Sim, com o rosto descoberto."  Eram, de facto, todos eles militantes activos do PAIGC em Conacri? "Sim, gente que tinha tido problemas com a direcção do partido, problemas de disciplina. Para eles a luta já estava a durar há muito tempo, se calhar. Foram facilmente mobilizados, para esse grande esquema, esse grande complot que foi urdido por Portugal colonialista." A senhora fala de Spínola, portanto não tem sombra de dúvida que por detrás do assassínio de Cabral estava Portugal? "Sim, sim. Estava Portugal e estava o Spínola, de certeza absoluta." A tese de que haveria descontentamento no seio do PAIGC não a convence? "Não, não. Não me convence. Isto foi mesmo um golpe bem preparado e muito bem estudado. O PAIGC ultimamente estava a receber inúmeros fugitivos que vinham da Guiné-Bissau, da Guiné colonial, gente já preparada para vir fazer o golpe. O Spínola preparou-os aqui em Cabo Verde, no campo do Tarrafal, e mandou para lá como desertores. Tudo falácias."  O que é que aconteceu quando o comando matou Amílcar Cabral? “Ele continuou a falar deitado no chão, sangue na barriga, no abdómen…. e continuou a falar: “Mas o que é isto? Os colonialistas ainda estão na nossa terra, a nossa terra ainda não é independente?”, coisas deste tipo.  Ele era um grande mobilizador!  Eu comecei a gritar, a chamar os vizinhos que eram guineenses de Conacri e moravam em frente, mas apanharam-me, amarraram-me e levaram-me para um sítio a que chamávamos de montanha.  Uma casa afastada onde estavam prisioneiros portugueses. Eles libertaram os prisioneiros portugueses - eram soldados, sobretudo - e nós ficamos lá, mais tarde apareceu a secretária Rosete Vieira, toda ferida e outros… Vasco Cabral, José Araújo, já não me recordo mais! Mais tarde fomos libertados pelo exército de  Sékou Touré, que enviou o ministro da guerra ou das forças armadas - já não me recordo - nos libertar e fomos levados para o Palácio de Sékou Touré. Lá é que eu soube que Cabral já não [estava vivo]. Tinha levado tantas balas… a minha preocupação era essa: saber se as tropas de Sékou Touré teriam conseguido salvar [Amílcar] Cabral… mas depois o ministro da Saúde veio dizer-me que não, foram oito ou nove balas, que tinha sido impossível [salvá-lo]."  Amílcar Cabral tinha sido avisado por vários interlocutores por riscos de assassínio? Porque é que ele não se protegeu mais? Porque é que estavam sós, os dois, nessa noite? "Ele era assim, achava que os amigos estavam a preocupar-se demasiado e de qualquer maneira a nossa luta estava de tal maneira avançada que mesmo que ele morresse, tinha a certeza absoluta de que a luta iria continuar até à vitória final, como realmente aconteceu." Ele evocava consigo a possibilidade de vir a ser assassinado?  "Evocava muito ao de leve, mas evocava. Dizia: continua e educa bem os nossos filhos… com princípios…" Mas acha que houve responsáveis da Guiné Conacri ou mesmo Sékou Touré, que pudessem ter tido um papel neste assassíno?  "Não, do Sékou Touré não acredito, mas é possível que tenha havido de alguns responsáveis da Guiné Conacri. Do próprio Sékou Touré não acredito.  Depois de eles terem morto Amílcar Cabral e terem prendido Aristides Pereira e outros dirigentes, foram para o Palácio [de Sékou Touré]. Foram esses que facilitaram a entrada desse grupo de assassinos no gabinete de Sékou Touré." Quanto tempo é que ficou detida? "Só essa noite, até a notícia chegar até Sékou Touré.  O país ficou em prevenção. Na altura, felizmente, havia lá umas ‘vedetas’ (embarcações) da antiga União Soviética nas quais eles levaram o Aristides [Pereira] e outros… para Bissau, caso Spínola estivesse à espera deles.  A mim levaram-me e fiquei presa no quarto onde estava preso o Momo Touré - que já morreu também, foi condenado, tinha-se descoberto que teria pertencido quando vivia em Bissau o PAIGC da clandestinidade, mas teria aderido, nao sei por que razão, a esse golpe. Ele e os outros tinham sempre tido simpatia por essas propostas de Spínola, que era a autodeterminação da Guiné, sem os cabo-verdianos.  Portanto, acho que eles sentiram com certa simpatia por esse projecto e, portanto, a ideia era amarrarem Amílcar Cabral, levarem-no para o porto, meteram-no numa daquelas ‘vedetas’ e levá-los para Bissau, ainda, colónia."  Os seus filhos não estavam consigo na altura? "Os filhos não estavam comigo na altura. O meu filho mais velho estava na Escola Piloto que era uma escola lá. A minha mãe, por acaso, na altura estava em Conacri e tinha a minha filha menor." Presenciaram o que aconteceu ao pai? "Não, eles não presenciaram. Era noite escura, portanto eles não presenciaram nada." Cabral sabia que havia um plano de infiltração do PAIGC por serviços portugueses. Ele não desconfiou mais de alguns elementos, não tomou providências? "É possível que tenha desconfiado, mas ele tinha já tanta confiança na vitória do PAIGC, que dizia que mesmo que ele falecesse, a luta estava já tão avançada que iria continuar, como realmente aconteceu." Para que os ouvintes percebam bem as circunstâncias deste assassínio, na altura Conacri era a capital do PAIGC em luta. Qual é a lembrança que mantém da dimensão desta presença do PAIGC em Conacri?  "A lembrança que eu mantenho é que eles, a Guiné Conacri também ganhou. Já era um país independente, tinha sido uma colónia da França. Eles aprenderam muito connosco também, porque eles fizeram sobretudo luta política em relação aos franceses. Foi uma das poucas ex-colónias francesas que respondeu ‘não’ ao referendo de De Gaulle e, portanto, foi muito interessante, eles aprenderam connosco. Já voltei a Conacri depois, umas duas ou três vezes, e fui muito bem recebida. Eu acho que eles aprenderam connosco também." Havia ali lugares emblemáticos onde as pessoas do PAIGC podiam conviver com os moradores do bairro? "Sim, sim. Nós tínhamos as melhores relações com os nossos vizinhos. Havia um bairro que se chamava Bonfi onde tínhamos a nossa escola, depois ao lado havia o bairro dos combatentes… mantivemos sempre umas óptimas relações com os nossos vizinhos guineenses." E também com o próprio poder da Guiné Conacri, com o regime de Sekou Touré? "Sim, exactamente. Aquando da invasão de 1970, o PAIGC ajudou-os quando as tropas colonialistas portuguesas entraram por aí fora. O PAIGC foi um dos defensores da rádio, não permitindo que eles tomassem a rádio, que os invasores tomassem a rádio de Conacri e isso foi à custa dos nossos combatentes." Com a morte de Amílcar Cabral, a 20 de Janeiro de 1973, o PAIGC decide mesmo avançar para a declaração unilateral da independência em Madina do Boé.  "Sim, sim, sim." Portanto, logo no mês de Setembro, a questão da independência vai-se intensificar e o PAIGC já não espera mais? "Sim, já estava tudo preparado. Já tínhamos feito as eleições. Já tínhamos escolhido os conselheiros regionais, etc… Áreas libertadas… Havia todo um processo que já estava em andamento. Portanto, foi seguir esse processo e em Setembro proclamou-se unilateralmente a independência da Guiné-Bissau, em Madina do Boé."  A senhora esteve presente ao lado do Nino Vieira que proclamou precisamente a independência?  "A independência sim. Eu fui escolhida como deputada de Bafatá. Amílcar Cabral, embora filho de cabo-verdianos, tinha nascido e vivido os primeiros anos em Bafatá. Portanto eu fui eleita também deputada por Bafatá. Estive em Madina do Boé." Foi o fiasco da operação Mar Verde que acabou por levar então a que o poder colonial português da altura equacionasse a eliminação física do líder do PAIGC?  "Ah, eu acho que sim! Felizmente, a maior parte dos capitães Abril lutou na Guiné. Acabaram por compreender que era uma luta injusta, que não fazia sentido. Otelo Saraiva de Carvalho esteve na Guiné e outros cujo nome agora não me recordo, reconheceram que não fazia sentido numa terra tão pequenina e tão longe de Portugal, ser considerada território português. Foram eles que organizaram o 25 de Abril [de 1974]. Portanto, o nosso processo seguiu, tudo tinha sido idealizado por Amílcar Cabral e os seus companheiros, de maneira que foi só continuar o processo e chegou-se então à proclamação da independência numa assembleia em Madina do Boé. Proclamou-se o Estado da Guiné-Bissau." Logo após, o 25 de Abril em Portugal no ano seguinte, 1974, Mário Soares, pelo lado português, avança com negociações em Argel, nomeadamente, em Londres e nesse mesmo ano - 1974 - um ano depois da proclamação [unilateral do estado da Guiné-Bissau], Portugal reconhece a independência de Bissau. É o primeiro país africano a ser reconhecido pela antiga potência colonial!  "Exactamente. A Guiné foi a primeira que Portugal acabou por reconhecer, mas isso devido ao 25 de Abril, à revolução que os capitães de Abril fizeram e que criaram essas condições para termos um bom entendimento como Portugal. Sentaram-se à  mesa das negociações, Mário Soares, Aristides Pereira… Pedro Pires, José Araújo - que também já morreu - as conversações começaram em Londres e depois em Argel até ao reconhecimento de Portugal, como potência colonizadora, [da independência da Guiné-Bissau]." Tem o sentimento de que se faz o suficiente em torno da memória dele? O que é que acha que seria importante que se fizesse - museu, monumentos, arquivos - para manter viva a memória de Amílcar Cabral? "Temos a Fundação Amílcar Cabral, criada por nós, os nossos companheiros de Amílcar Cabral, que agora está a ser dirigida pelo antigo combatente Pedro Pires. E um dos problemas é precisamente preservar a História, a nossa História." Mas essa fundação está sediada em Cabo Verde, na cidade da Praia. Acha que na Guiné-Bissau seria importante que houvesse também um organismo idêntico?  "Sim, eu acho que sim, porque foi lá que se realizou a luta armada. Aqui em Campo Verde foi só luta política, a luta clandestina, digamos assim." Porventura a memória é mantida mais em Cabo Verde do que propriamente na Guiné-Bissau? "Sim, em certos aspectos. O corpo está lá, no mausoléu [na Fortaleza de São José de Amura, no centro de Bissau], portanto as pessoas em certas datas como 20 de Janeiro ou 24 de Setembro as pessoas - crianças, escolas, adultos - vão todos ao mausoléu render homenagem." Cinquenta anos após a morte de Cabral, qual é que acha que é a lição que Amílcar Cabral deixa às jovens gerações?  "A lição que ele deixa é que temos de preservar a nossa com a nossa independência, dignidade, que as pessoas devem procurar tudo para se tornarem dignas e cultas e defenderem-se. Defender a nossa terra, não permitir que ninguém nos venha meter outras ideias." Julius Nyerere, Kwame Nkrumah e Amílcar Cabral são um dos maiores nomes do pan-africanismo. O seu marido acreditava muito no pan-africanismo.  Cinquenta anos depois, qual é a visão que a senhora tem sobre o legado que ele deixou e sobre se vale a pena ainda lutar em prol do pan-africanismo? “Sim. O mundo já deu tanta volta, está tão estranho e já não tem nada a ver com o mundo daquela altura. Mas acho que vale sempre a pena lutar pelo pan-africanismo, porque há muitos tabus ainda a vencer.  Foram muitos anos de colonização em África, há muitos preconceitos ainda sobre África, de maneira que é preciso lutar contra tudo isso, contra todos esses preconceitos, essas alienações, digamos assim, das quais os africanos ainda não consigam libertar-se. Das alienações todas que nos foram impostas. De maneira que tem que se lutar, sim, tem que se lutar."
    1/20/2023
    20:05

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