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  • COP-17 termina sem acordo sobre seca: "Países africanos são dos mais afectados"

    31/08/2026
    A COP-17, que decorreu de 17 a 28 de agosto, em Ulaanbaator, capital da Mongólia terminou com a decisão de mobilizar 1,3 mil milhões de dólares para o restauro de terras e pastagens, mas, uma vez mais, os países participantes voltaram a adiar a adopção de um acordo global juridicamente viculativo sobre a seca. A decisão sobre este assunto será tomada apenas na próxima conferência, em 2028, no Egipto.
    Esta 17 ª conferência das Partes da convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação acontece numa altura em que cerca de 40% das terras aráveis utilizáveis do planeta estão, aos poucos, a transformar-se em desertos. Mais de 3 mil milhões de pessoas já estão a ser afectadas por este problema em todo o mundo, segundo dados da própria ONU. A desertificação foi um dos temas centrais da COP-17, esta conferência que contou com representantes governamentais de 197 países, investigadores e várias organizações internacionais.
    Em entrevista à RFI, Francisco Ferreira, presidente da ONG ambiental Zero, faz-nos um balanço sobre esta conferência, salientando que houve aspectos positivos relacionados com o financiamento, mas defende que a COP-17 falhou no ponto mais importante: conseguir um acordo vinculativo sobre a seca.
    RFI: Qual é o balanço que faz desta COP-17 ?
    Francisco Ferreira: Esta COP-17 sobre o combate à desertificação teve aspectos positivos em relação ao financiamento nalgumas vertentes, nomeadamente na mobilização de 1,3 mil milhões de dólares para o restauro de terras e de pastagens, mas falhou naquilo que era o mais essencial: a adopção de um acordo global juridicamente viculativo sobre a seca. Há dois anos, na anterior Conferência das Nações Unidas, em Riad, tentou-se chegar a um acordo global vinculativo, que seria um paralelo com aquilo que foi o Acordo de Paris em 2015 e com aquilo que foi o acordo relativo à biodiversidade, em 2022, em Montreal. Ou seja, algo que conseguisse trabalhar nas várias vertentes, na prevenção das secas e na acção e apoio aos países mais afectados, nomeadamente, os países africanos.
    Não se conseguiu chegar a esse acordo porque houve grandes obstáculos e divergências entre os Estados Unidos e a União Europeia, o Brasil e o chamado grupo Africano e, portanto, aquilo que nós gostaríamos de ter, que era um balanço claramente positivo de termos um programa, um planeamento, um conjunto de decisões e de um apoio financeiro muito significativo, não aconteceu porque nós precisamos praticamente de 1000 milhões de dólares por dia para enfrentar e prevenir as consequências da seca à escala global. Isto realmente não foi novamente conseguido. Vamos esperar mais dois anos. 
    RFI: Falou de um ponto muito importante, o facto de uma vez mais se ter falhado a adopção de um acordo global juridicamente vinculativo sobre a seca. O que é que significa este adiamento na prática e quem é que fica mais exposto com a ausência desse acordo ?
    Francisco Ferreira: Significa que nós não vamos ter obrigações da parte dos países desenvolvidos em apoiar os países em desenvolvimento, que estão com processos de desertificação significativos, com perda de solos, com incapacidade de apoiar um regime de pastagens para efectivamente garantirmos que esta questão iria ser ultrapassada. E entre os países mais prejudicados, estão, sem dúvida, alguns países da Ásia, mas também os países africanos.
    São eles que têm visto ao longo dos anos, por causa das alterações climáticas, por causa de determinadas práticas agrícolas e florestais, que não são as melhores... São eles que têm realmente necessidade, do ponto de vista técnico, científico e financeiro para reduzir aquilo que é o avanço da desertificação, da perda de solos e os solos são fundamentais para a sobrevivência das populações. Os solos demoram dezenas e dezenas de anos a serem construídos pela Natureza. E realmente são vários países de África, em particular, aqueles que mais sofrem pela incapacidade de não se ter chegado a este acordo.
    RFI: Temos desde logo, por exemplo, Cabo Verde, que é fortemente afectado pela seca e pela desertificação, tal como o sul de Angola. Moçambique também enfrenta a degradação dos solos e outras consequências das alterações climáticas. Que medidas concretas é que poderão ser tomadas, no fundo, para ajudar estes países a combater estes problemas e a proteger as populações mais vulneráveis ? 
    Francisco Ferreira: Nós podemos ter algumas medidas independentes da conferência. Mesmo sem um acordo, não devemos ficar parados. Esta era a conferência da implementação e nós não devemos em qualquer país, incluindo, por exemplo, também em Portugal, não devemos esperar por uma nova conferência, que nem sabemos se terá êxito ou não.
    É necessário que cada um destes países realmente consiga ter uma política nacional de prevenção e de gestão proactiva da seca. Desde alertas precoces, desde capacidade de fazer obras em linha com a salvaguarda também dos valores naturais de retenção de água, trabalhar na recuperação dos solos, protegermos as pastagens e os sistemas agroflorestais.
    E é preciso aqui uma grande coerência entre a sustentabilidade na agricultura, no regadio, na gestão da água, da floresta, da biodiversidade, do clima e no ordenamento do território. Nós temos, sem dúvida, que fazer chegar os poucos financiamentos que se conseguiram acordar porque há agora o chamado Mecanismo de Investimento para a Resiliência à Seca, que tem como meta mobilizar até 400 milhões  de dólares. Temos também uma iniciativa emblemática para as pastagens, com 1,2 mil milhões de dólares, já envolvendo 45 projectos e 23 países. 
    RFI: Que acaba por ser aqui uma mudança de paradigma também esta questão de destinar este dinheiro às pastagens... 
    Francisco Ferreira: Sem dúvida. As pastagens, ao contrário do que se pode pensar, ajudam o combate à desertificação, desde que seja um regime de pastagem extensivo, com uma forma e um conjunto de cabeças de gado que não satura e degrada os solos. Portanto, é isto que é fundamental conseguir garantir. 
    RFI: Esta reflexão é muito importante também porque este ano não nos podemos esquecer que fica marcado por ondas de calor arrebatadoras. Por exemplo, aqui em França, as ondas de calor, aliadas à vegetação seca, provocaram incêndios de grandes dimensões. Esta reflexão sobre os fenómenos climáticos extremos torna-se mais premente do que nunca pelo facto de agora, infelizmente, se estarem a tornar também cada vez mais frequentes ?
    Francisco Ferreira: Sem dúvida alguma. Os incêndios são, aliás, uma causa dramática das alterações climáticas. São um factor a par, obviamente também do tipo de floresta que temos, da forma como gerimos os nossos sistemas florestais, como temos o ordenamento do território, mas o aquecimento global está a ter um papel dramático na Europa e noutras partes do mundo. Veja-se o Canadá, por exemplo, pondo em causa a sobrevivência de várias actividades, das próprias pessoas que foram afectadas com várias mortes e feridos em várias partes do mundo. E, obviamente, com uma perda de património enorme.
    Nós ainda temos duas conferências pela frente este ano: a da biodiversidade, em Outubro, na Arménia e depois na Turquia a Conferência sobre Alterações Climáticas.
    Um dos apelos desta conferência (COP-17) é que haja realmente esta interligação para termos resultados e, infelizmente, eles estão aquém do necessário porque o clima está a mudar muito mais rápido do que a velocidade a que estamos a tomar as decisões.
    E, portanto, este alerta e esta mobilização que se procurou e que só foi conseguido em parte agora na Mongólia, na COP-17, tem que ter uma maior pressão política e da sociedade civil para também nestes outros fóruns das Nações Unidas nós conseguirmos resultados mais consistentes e passarmos à acção e sermos ambiciosos porque realmente estamos a ficar longe de conseguir estancar aquilo que é um aumento de temperatura com recordes em 2024 e com as temperaturas depois de 2023 e 2025 a estarem aqui no top três. Em 2026, temos também a ameaça do El Niño e já sabemos que será dos mais fortes. Não sabemos ainda todas as consequências, mas as secas são, sem dúvida, uma das consequências mais dramáticas actualmente.
  • “A malária continua a ser um grande problema de saúde pública” em Moçambique

    24/08/2026
    Assinalou-se a 20 de Agosto o Dia Mundial do Mosquito. O insecto é o animal mais mortífero para o ser humano e, em Moçambique, continua a alimentar uma das maiores ameaças à saúde pública: a malária. O mosquito está a adaptar-se aos insecticidas e a alterar o seu comportamento. As alterações climáticas, a urbanização desordenada e a habitação precária dificultam o controlo da doença.
    Apesar dos avanços no combate à malária, a doença continua entre as principais causas de morte e internamento em Moçambique. “A malária continua sendo um grande problema de saúde pública, infelizmente, em Moçambique, até ao dia de hoje”, afirma Pedro Aide, investigador e director científico da área de Malária do Centro de Investigação em Saúde de Manhiça (CISM), no sul do país.
    O investigador alerta para a capacidade de adaptação do mosquito e do parasita, nomeadamente à pressão exercida pelos insecticidas: “Os mosquitos têm estado a adaptar-se à pressão que é exercida ao longo dos últimos anos pelos insecticidas”. Mas, o problema não se limita à resistência química. Alguns mosquitos estão também a alterar o seu comportamento, o que pode comprometer medidas de protecção concebidas para actuar dentro das casas. Alguns mosquitos estão a picar dentro das casas, mas a descansar no exterior, reduzindo a eficácia da pulverização intra-domiciliária e das redes mosquiteiras.
    As alterações climáticas acrescentam uma nova camada de complexidade. O aumento das temperaturas, os ciclones e as cheias podem criar condições favoráveis à reprodução dos mosquitos e alterar as áreas onde a transmissão da malária ocorre.
    Segundo Pedro Aide, já existem relatos de transmissão em algumas zonas onde a doença tinha diminuído ou deixado de ocorrer: “Começa a haver alguma ressurgência de casos de malária, o que é bastante preocupante”.
    O investigador considera que as alterações ambientais podem modificar a própria distribuição geográfica da doença. “As alterações climáticas que estão a ocorrer um pouco por todo o mundo põem em risco aquilo que é a geografia da malária ou a geografia do mosquito transmissor da malária”.
    A urbanização desordenada e as habitações precárias são outros factores de risco. Casas com falhas nas paredes, tectos, portas e janelas que facilitam a entrada dos mosquitos. “A maior parte das habitações são construídas de forma não conveniente para protecção contra os mosquitos”, afirma o director científico do CISM..
    A localização das habitações também conta. Construções em zonas pantanosas ou próximas de rios e outros lençóis de água podem favorecer a reprodução dos mosquitos.
    Por isso, Pedro Aide defende uma resposta que envolva vários sectores. “A questão da malária não é apenas uma questão que diz respeito ao ministério da Saúde. É uma questão que diz respeito a todo um país”. Agricultura, urbanização, transportes e planeamento das ruas, valas e valetas devem, na perspectiva do investigador, fazer parte de uma estratégia integrada de combate à doença.
    A vacina R21, administrada em quase todo o país, veio reforçar as medidas de prevenção, mas não constitui uma solução isolada. “A vacina contra a malária ainda não é a bala mágica que vai combater o problema da malária”.
    A vacinação veio acrescentar uma nova ferramenta ao combate à malária, mas está longe de resolver o problema isoladamente. Pedro Aide estima que as vacinas actualmente utilizadas apresentem uma eficácia de cerca de 40% a 50%.
    Mesmo com redes mosquiteiras, pulverização e vacinação, a adesão da população continua a ser determinante. Pedro Aide aponta a utilização correcta das redes e a aceitação da pulverização das habitações como medidas simples que nem sempre são cumpridas. Para o investigador, uma maior adesão às medidas de prevenção poderia reduzir significativamente o peso da doença e contribuir para interromper a transmissão.
    Moçambique continua, segundo Pedro Aide, entre os países com maior peso da malária a nível mundial. “Continuamos a ser o quinto país a nível mundial com maior peso da malária”, tanto em termos de casos clínicos como de mortalidade.
  • Cabo Verde: Organizações ambientais alertam para os impactos da iluminação LED na fauna nocturna

    18/08/2026
    Várias organizações ambientais cabo-verdianas alertam para os impactos da iluminação pública LED na fauna nocturna, apontando para casos de desorientação e mortalidade de aves marinhas e para uma redução da nidificação de tartarugas marinhas em algumas zonas do arquipélago.
    Em Santo Antão, a directora-executiva da Associação Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Terrimar), Silvana Roque, explica que a iluminação instalada na ilha está a afectar sobretudo as aves marinhas, que realizam voos nocturnos e podem ficar desorientadas pela intensidade da luz: “A iluminação LED que está sendo colocada aqui na ilha de Santo Antão afecta as aves marinhas, porque causa desorientação”.
    Desorientadas as aves podem cair ao chão, podendo assim ficar feridas ou expostas a predadores. “Muitas vezes acabam por se tornar um alvo fácil para predadores, por exemplo, os gatos”, refere Silvana Roque, acrescentando que têm sido registados vários casos na zona de Ribeira das Pombas.
    A responsável alerta igualmente para os efeitos da iluminação sobre as tartarugas marinhas, particularmente na Praia Grande, na zona do Tarrafal. Apesar de não existir iluminação directamente na praia, a luz proveniente das habitações próximas acaba por incidir sobre a faixa costeira: “A praia fica toda iluminada durante toda a noite”.
    A exposição à luz artificial pode, segundo Silvana Roque, inibir a saída das tartarugas para a desova. “Quando há uma luz muito forte, elas ficam inibidas e acabam procurando outras praias para desovar”. Durante a actual campanha de monitorização, a Terrimar observou “uma diminuição significativa na quantidade de saídas e ninhos nessa praia comparado a anos anteriores”, situação que a organização associa também à iluminação existente nas proximidades.
    Para reduzir estes impactos, a organização defende que a iluminação deve ser direccionada para o chão, evitando a dispersão da luz para o céu e para zonas laterais: “A intenção da iluminação é iluminar a via onde as pessoas passam. Não é necessário iluminar para cima nem para os lados numa longa distância”.
    Silvana Roque sublinha que a Terrimar não se opõe à iluminação pública, reconhecendo a sua importância para a segurança das comunidades. “Porém, há que se pesar os impactos que isso pode causar na biodiversidade”, afirma, defendendo que as questões ambientais sejam consideradas desde a fase de instalação.
    Na ilha do Sal, o director-executivo do Projeto Biodiversidade, Albert Taxonera, alerta igualmente para os efeitos da poluição luminosa sobre tartarugas e aves marinhas. Segundo o responsável, as tartarugas adultas tendem a evitar zonas muito iluminadas, enquanto as crias recém-nascidas se orientam naturalmente em direcção à luz, o que as pode conduzir para locais inadequados.
    “Não é uma questão de distância, é uma questão de intensidade e de visibilidade”, explica, sublinhando que mesmo fontes luminosas localizadas a alguma distância podem afectar a fauna.
    Para Albert Taxonera, o problema não se limita à substituição das antigas lâmpadas de vapor de sódio por LED, mas à expansão da iluminação artificial em geral. No Sal, uma ilha com forte desenvolvimento turístico, existem já diversos focos de iluminação pública e privada, incluindo iluminação de segurança, obras e estaleiros.
    Embora reconheça que a tecnologia LED permite reduzir o consumo energético, Albert Taxonera considera que não deve ser automaticamente classificada como amiga do ambiente: “A luz LED, embora durante muitos anos se vendeu como ‘ecofriendly’ (amiga do ambiente), não é uma luz amiga do ambiente, no sentido de que tem impacto grande na vida selvagem”.
    O responsável defende, por isso, uma planificação mais rigorosa da iluminação pública, avaliando onde a instalação é realmente necessária. Em estradas com pouca circulação, por exemplo, poderão ser consideradas alternativas como pinturas reflectoras ou pequenos dispositivos de sinalização, em vez de iluminação permanente.
    Nas zonas próximas de colónias de aves marinhas ou de praias de desova, o director-executivo do Projeto Biodiversidade aponta para a utilização de luzes com tonalidades vermelha ou laranja e para uma instalação que limite a visibilidade da luz a partir das áreas sensíveis. “Colocar as luzes mais baixas, mais perto do chão, para evitar que seja visível desde a praia”, exemplifica.
    Todavia a organização ambiental alerta que a simples colocação de filtros sobre as lâmpadas não resolve necessariamente o problema. “Temos que ser muito mais técnicos e pesquisar muito melhor”, defende, salientando a necessidade de avaliar as características espectrais, a intensidade e o posicionamento das fontes luminosas.
    Os dados recolhidos pelo Projeto Biodiversidade no Sal apontam já para impactos significativos sobre as crias de tartarugas. Segundo Albert Taxonera, em algumas praias, a poluição luminosa poderá já afectar “até 50%” dos ninhos, mesmo em zonas relativamente afastadas e inseridas numa reserva natural. Em áreas mais turísticas, o impacto poderá atingir a totalidade dos ninhos: “Aí podemos dizer que provavelmente 100% dos ninhos. É por isso que muitos desses ninhos foram transferidos para viveiros de incubação”.
    As organizações defendem, assim, que a modernização da iluminação pública seja acompanhada por estudos e medidas de mitigação destinados a proteger a biodiversidade e dizem estar disponíveis para trabalhar com a empresa de electricidade e outras entidades na procura de soluções que conciliem a iluminação necessária às comunidades com a conservação da fauna.
    A substituição da iluminação pública por tecnologia LED começou formalmente em Fevereiro de 2025. A Brava foi a primeira ilha do arquipélago a ter iluminação LED em toda a sua extensão, no início de 2026.
    A modernização integra a estratégia de transição energética de Cabo Verde e pretende aumentar a eficiência energética. O país estabeleceu como meta atingir 50% de produção de electricidade a partir de fontes renováveis até 2030.
  • Eclipse total do Sol acontece esta quarta-feira

    10/08/2026
    Contagem decrescente para o eclipse total do Sol, esta quarta-feira, 12 de Agosto. O fenómeno acontece quando a Lua passa exactamente entre a Terra e o Sol e projecta a sua sombra sobre a superfície terrestre. Em Portugal, será um eclipse parcial muito profundo, com mais de 90% do disco solar tapado pela Lua em todo o território. A totalidade será visível apenas numa pequena zona do Norte, a norte de Bragança, no Parque Natural de Montesinho.
    Em entrevista à RFI, Pedro Mota Machado, astrofísico do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, ligado à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e Comissário Nacional para o Eclipse Solar 2026, explica que a raridade do fenómeno está na precisão do alinhamento entre a Lua, a Terra e o Sol.
    “Como a Lua é relativamente pequena comparada com a Terra e com o Sol, este cone de sombra tem um diâmetro de à volta de 300 quilómetros”, explica o astrofísico. É essa faixa estreita que define onde é possível assistir ao eclipse total. Fora dela, o eclipse é parcial, ainda que muito profundo.
    Durante o eclipse total a Lua bloqueia completamente a fotosfera, a camada visível do Sol, permitindo a observação da coroa solar, uma região muito menos luminosa que se estende em torno da estrela, “só é passível de ser vista durante um eclipse total do Sol”, sublinha Pedro Mota Machado.
    A discrepância entre a temperatura da superfície e a da coroa continua a ser uma das questões em aberto da ciência solar. O eclipse total constitui, por isso, não apenas um espectáculo para o público, mas também uma oportunidade para a ciência.
    A experiência pode ser impressionante, mas exige cuidados. Observar o Sol sem a protecção adequada pode provocar lesões permanentes na visão. A observação do eclipse deve ser feita com óculos próprios, com filtros certificados. Óculos de sol convencionais, mesmo muito escuros, não protegem os olhos da radiação solar. Também não devem ser utilizadas radiografias antigas, CDs, DVDs ou vidros fumados. Binóculos e telescópios só podem ser usados com filtros solares adequados e sob condições de observação seguras.
    O perigo é particularmente elevado porque a retina não possui receptores de dor. “Nós não nos apercebemos logo que estamos a danificar os nossos olhos”, alerta o cientista.
    É também, por isso, que o momento de retirar os óculos exige cuidado: primeiro deve desviar-se o olhar do Sol e só depois retirar a protecção.
    Para as crianças mais pequenas, Pedro Mota Machado recomenda uma alternativa simples: a projecção por “câmara de buraco de agulha”. Um pequeno orifício numa cartolina ou caixa de cartão permite projectar a imagem do Sol numa superfície, possibilitando acompanhar a evolução do eclipse sem olhar directamente para o astro.
    Em Portugal, em Bragança espera-se uma concentração particularmente elevada de espectadores. O aeródromo da cidade será palco de um programa dedicado ao eclipse, num território que deverá receber “muitos milhares de pessoas” atraídas pelo fenómeno.
    Há meses que as entidades locais se preparam para a chegada de visitantes. Mas o eclipse não é o único acontecimento astronómico do dia. Antes do nascer do Sol, será possível observar um alinhamento de vários planetas, incluindo Mercúrio, Vénus, Júpiter, Saturno e Marte. Com binóculos ou telescópios adequados, poderão ainda ser observados Urano e Neptuno.
    E, já durante a noite, depois do eclipse, o céu reserva outro espectáculo: uma chuva de meteoros, das Perseidas.
    Para quem ainda hesita em sair de casa ou procurar um local com boa visibilidade, Pedro Mota Machado recorda um eclipse profundo que observou no Texas, nos Estados Unidos. Diz esquecer-se de muitas coisas, mas “Eu nunca me esqueço do eclipse que tive a sorte de observar no Texas”. “É tão especial que deixa memórias inesquecíveis”.
  • Mega incêndios vão ser a norma em França e no sul da Europa?

    03/08/2026
    Em França, milhares de pessoas foram autorizadas a regressar, esta segunda-feira, às localidades mais afectadas pelo mega incêndio que lavrou durante cerca de dez dias na província de Gironde, no sudoeste de França. As autoridades anunciaram que o fogo está controlado, depois de ter obrigado à retirada de cerca de 220 mil pessoas e consumido cerca de 42 mil hectares. Este é o incêndio florestal mais grave em França desde 1949, num verão que está a ser marcado por outros mega incêndios noutras regiões de França e também noutros países, especialmente no sul da Europa. O que fazer perante um cenário que se pode tornar norma e que tem vindo a ser antecipado pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas? Para conversarmos sobre o tema convidámos Francisco Ferreira, presidente da ONG ambiental ZERO e director do Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade da Universidade Nova de Lisboa.
    RFI: Por que é que os incêndios em França têm sido tão intensos este verão?
    Francisco Ferreira, Presidente da ONG ambiental “ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável” e director do Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade da Universidade Nova de Lisboa: “Não podemos atribuir apenas a uma causa, mas sim a um conjunto de circunstâncias, um pouco como tiveram lugar em Junho e em Outubro de 2017 em Portugal, com uma enorme área ardida. Do ponto de vista da meteorologia, estamos a falar de umas características muito próprias que habitualmente são identificadas como 30-30-30, ou seja, 30% ou menos de humidade relativa, mais de 30 graus Celsius e velocidades de ventos superiores a 30 quilómetros por hora. São realmente circunstâncias que levam a uma enorme secura da vegetação, vegetação essa que com um historial de um clima que teve fases em que levou ao desenvolvimento de vegetação, nomeadamente rasteira, e depois a períodos de seca, com as ondas de calor que tiveram lugar, proporcionaram uma extensão muito rápida dos incêndios. Por outro lado, também, sem dúvida alguma, o local em causa. Estamos a falar de florestas de pinhal, de uma monocultura com uma enorme quantidade de combustível que, face às circunstâncias meteorológicas e climáticas, entraram naquilo que nós chamamos um ciclo positivo, em que um incêndio passa para um mega incêndio que se propaga com grandes velocidades, onde o vento também acaba depois, pela dinâmica do próprio incêndio, a ter um comportamento irregular e incontrolável do ponto de vista da previsão, com uma extensão e um impacto absolutamente brutais e incontroláveis.”
    Este “mega incêndio” na região de Gironde está a durar há mais de dez dias e só agora é que estão a deixar a população voltar para casa. O que é que explica que este mega incêndio tenha durado tanto tempo?
    “O problema é que quando nós temos esta mistura de muito combustível presente, circunstâncias meteorológicas que levam a que o incêndio possa ter um desenvolvimento muito maior que o normal, questões de ordenamento do território também a ajudar e quando se sabe também que tudo isto é resultado de um agravamento causado pelas alterações climáticas, ou seja, as alterações climáticas não são o aspecto decisivo, mas são sim uma agravante destes incêndios, que estamos a ter na Europa um conjunto de circunstâncias que levam a que estejamos com temperaturas muito elevadas e baixa humidade relativa, obviamente, estes incêndios tornam-se incontroláveis e a própria noção de criação de cumulonimbus que são nuvens de desenvolvimento vertical, ou seja, quando nós temos o ar a subir muito rapidamente, uma enorme deslocação vertical, se eu tiver também neste movimento da formação destas nuvens um incêndio no seu interior, digamos assim, isso leva àquelas línguas de fogo que são visíveis e que obviamente representam ainda um maior factor de descontrolo do incêndio em termos de previsibilidade e de extensão daquilo que pode vir a acontecer. O que é facto é que estes incêndios que temos assistido em vários locais, na proximidade de Madrid, na proximidade de Bordéus, também aconteceram em Portugal, no Pinhal de Leiria, em Setembro de 2017, na zona de Pedrógão Grande, em Junho de 2017, são resultado de um conjunto de circunstâncias. As ignições também são importantes. Em França, sabemos que nove em cada dez incêndios têm a ver com uma origem humana directa, seja ela por negligência ou criminosa.”
    Falou na monocultura do pinheiro, que é um tipo de vegetação mais inflamável. Como é que agora deve ser feita a reflorestação para não cometer os mesmos erros?
    “Talvez aqui o Pinhal de Leiria seja um exemplo que Portugal pode apresentar para França e para o resto da Europa porque nós tivemos realmente mais de 500.000 hectares ardidos, no total, no país em 2017 e no ano passado ainda tivemos 250.000 hectares de área ardida. Ora bem, como é que a recuperação ou reabilitação ou reflorestação tem sido feita? Acima de tudo, através da diversidade que nós conseguimos impor à paisagem, ou seja, não é retirar o pinheiro, mas é olhar para o ordenamento do território como um mosaico, um mosaico que tem diferentes espécies, umas que podem ser muito importantes do ponto de vista da sua produção - árvores para madeira, para outros fins - mas também com vegetação autóctone com maior resistência ao fogo, zonas agrícolas, ou seja, o truque está em eu não ter uma ocupação com base numa única espécie e contínua - mesmo que tenha alguns espaços para corredores para permitir atrasar a propagação do fogo e o seu combate, mas que se têm revelado insuficientes. Portanto, o truque está realmente na gestão florestal, nesta lógica de diversidade e de mosaico que poderão permitir atrasar a propagação, permitir o controlo da parte dos bombeiros e, acima de tudo, até garantir uma paisagem mais resiliente. O fogo faz parte das características do Mediterrâneo e de zonas de França, como Bordéus e outras, mas o problema é que nós temos uma paisagem que foi fortemente humanizada, assumindo um risco de incêndio que nos últimos anos tem vindo a aumentar e, portanto, nos obriga também a repensar a paisagem.”
    Tendo em conta as ondas de calor, as alterações climáticas, a sobreocupação humana da própria paisagem, os incêndios extremos vão tornar-se uma norma em França e no Sul da Europa?
    “É isso que o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas tem vindo a dizer nos seus últimos relatórios, claramente identificando Península Ibérica, a França, a Grécia, a Turquia e a Itália como países onde os incêndios farão parte, infelizmente, de uma realidade com um clima diferente, mas onde as alterações climáticas são um dos factores e não apenas o único. O que é facto é que é um drama enorme para o próprio clima porque o clima está a aquecer porque temos mais dióxido de carbono na atmosfera e as florestas são precisamente onde nós conseguimos captar e armazenar este dióxido de carbono. Cada vez que temos um incêndio, nós estamos a recolocar esse dióxido de carbono, que estava armazenado, na atmosfera, para além, obviamente, de todos os prejuízos, sejam eles directamente em vidas humanas, seja para os bens, seja para a poluição do ar, que afecta também não apenas as zonas circundantes, mas zonas bem distantes, como vimos há poucas semanas no caso dos grandes incêndios rurais do Canadá.”
    Falámos na prevenção, mas no que toca à gestão da crise, a França teve de recorrer a meios aéreos europeus, incluindo de Portugal, para combater o mega incêndio do distrito de Gironde. A França está preparada para este tipo de incêndios?
    “Eu acho que nenhum país da Europa está preparado para este tipo de incêndios e nem deve estar, entre aspas, porque nós temos que ter um equilíbrio, eu diria até uma predominância dos investimentos na prevenção e não tanto no combate. O que é facto é que o mecanismo europeu procura dar esta resposta para que cada país - às vezes, alguns com dimensão pequena, como Portugal - não tenha que ter um conjunto de meios que tem custos enormes, como são os meios aéreos, e que possamos usar entre os vários países europeus - e também no caso de Portugal, recorrendo a Marrocos - este tipo de resposta coordenada.”
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