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Enterrados no Jardim

Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho
Enterrados no Jardim
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  • Enterrados no Jardim

    Faz todo o mal que puderes e baza. Uma conversa com Eduardo Brito

    07/2/2026 | 3h 43min
    No ano da sua morte, 1988, António José Forte lembrava, numa entrevista que deu a Ernesto Sampaio para o “Diário de Lisboa”, a frase que por aqueles dias ainda podia ler-se num muro da Avenida de Berna: “Não vos inquieteis, é a realidade que se engana”. Tinha 57 anos feitos naquele mês de Fevereiro, dava-se como vivo a pouco mais de nove meses do fim, e garantia que não se inquietava. Tinha a confiança daqueles dois olhos grandes, que sabiam ler bem como só poucos alguma vez foram capazes. E não se inquietava porque há muito se apercebera de que a realidade não era senão outra aparência, um acordo de bestas que o poeta deve repudiar. Por isso mesmo, logo na sua primeira intervenção escrita – “Quase 3 Discursos Quase Veementes” –, no segundo número da revista “Pirâmide”, em Junho de 1959, vincava: “Não estranheis os sinais, não estranheis este povo que oculta a cabeça nas entranhas dos mortos. Fazei todo o mal que puderdes e passai depressa.” Hoje ainda vamos falando muito de realidade, das suas espécies ou diferentes níveis, mas isto não passa há muito de uma forma de jactância e soberba, pois há muito que vamos abrindo mão desses acentos mais agudos ou extremos que procuram engrenar aquela capacidade de nos devolver ao assombro inaugural dos efeitos de nomeação. Num mundo cada vez mais virtual, a pergunta que Baudrillard ia fazendo é: haverá um além do virtual? A gramática e o léxico deixaram de ser uma membrana viva e há muito se foram cristalizando a ponto de impedirem a intervenção de novas formas de sensibilidade, assim, e através da frequência dos clichés, dos símiles mecânicos e dos automatismos, condenamo-nos a um registo cada vez mais esclerosado desse plano onde os nossos sentidos e alcance se exprimem. Para nos servirmos da articulação de Steiner, tornamo-nos prisioneiros de um traçado linguístico que se volve cada vez mais inerte, emurchecido, incapaz de desposar a paisagem cambiante dos factos, servindo apenas para formalizar as reacções humanas ao invés de as estimular. Assim, na senda de Kraus, também aquele crítico literário indagou sobre a possibilidade de a língua recair num embolorecimento, sobrecarregando-se de uma fraseologia hierática e imutável, deixando de assegurar um modelo disponível e gerador de realidade. “As palavras, esses guardiões do sentido, não são imortais, do mesmo modo que não são também invulneráveis", escrevia Adamov nos seus cadernos, em 1938. Embora algumas vão sobrevivendo, outras são atingidas de um modo incurável. Quando a guerra rebentou, ele acrescentava: “Gastas, transparentes, corroídas, as palavras tornaram-se cadáveres de palavras, palavras-fantasma; mascamo-las, regurgitamos o seu som, sem convicção, entre os maxilares.” Há muito que Kraus havia pressagiado uma “era glacial para o espírito”, sendo que, para ele “o verdadeiro fim do mundo é o aniquilamento do espírito”. Em seu entender, o acto adâmico da nomeação tinha-se constituído por fidelidade a uma origem essencial em virtude da qual natureza e linguagem se entreteciam para constituir um livro da criação. E era em atenção a esta dignidade ontológica outorgada por ele à linguagem, que Kraus entendia como ao embrutecê-la era a própria vida que se embrutecia. Por isso dedicou todos os seus esforços a preservar a harmonia da palavra enquanto combate moral. Não concebia separação alguma entre o que um homem é e o que diz, nem entre o que diz e a sua forma de o dizer: se alguém pecasse contra a lei cristalizada na linguagem, pecava contra a verdade. Para ele, todo o erro transporta uma culpa: “a má arte e a vida degradada são espelhos uma da outra e comprovam uma identidade atroz”. Em seu entender, por efeito dos rituais que diariamente vulgarizam a linguagem, e sobretudo por acção da imprensa, o que passara a determinar o tempo presente eram os clichés, os quais trabalhavam já autonomamente. Assim, devia ser assumida pelos homens de espírito a tarefa sagrada de cuidar e proteger as palavras atingidas pela doença, procurando restaurar uma certa pureza originária, uma precisão etimológica. Desde o primeiro número de A Torcha (Die Fackel), o seu anti-jornal, Kraus dispôs-se a confrontar a realidade da sua época com uma “lei de fogo”, produzindo uma desesperada antítese a esse tempo presente consumido pelos “átomos da trivialidade” e que tanto o repugnava. Sabendo que toda a letra se pode transformar em catástrofe, ele quis submergir-se no “pântano da fraseologia” de modo a levar a cabo a sua dissecação. Steiner reforça a ideia de que a linguagem é o principal aparelho de apreensão da realidade, e nota como “no Livro de Isaías, a gramática dos profetas dá corpo a um profundo escândalo metafísico – a intervenção do tempo futuro que expande a linguagem no tempo”. Por sua vez, diz-nos ele, “a obra de Tucídides é habitada por uma descoberta contrária – Tucídides é o primeiro a compreender bem que o passado é uma construção linguística, que a única garantia da história é o tempo passado dos versos. A vivacidade prodigiosa dos diálogos platónicos, a adopção da dialéctica como método de investigação intelectual, é inseparável da descoberta de que as palavras, uma vez postas à prova, e podendo afrontar-se numa batalha ou articular-se numa dança, abrem caminho a novas formas do entendimento.” Por sua vez, Eduardo Brito em “Procura Nada” vem interrogar a estrutura da verdade como ficção, celebrando a teoria da relatividade e, ao mesmo tempo, fornecendo também “uma espécie de loa ao mais elegante tempo verbal, o futur antérieur, que em português tem o nome de futuro composto e perde, na poesia, o que ganha em rigor terminológico: o futuro do verbo auxiliar avoir ou être e o particípio passado do verbo principal, a anterioridade em relação a um momento determinado de algo indeterminado, como se fosse tudo assim tão relativo como o tempo: quando partir, já terei voltado.” Trata-se, portanto, de investigar os processos que nos alertam para a heterogeneidade neste mundo, contra a homogeneização e a uni-dimensionalidade. Corroendo as lógicas unívocas, esta narrativa mostra-se capaz de infectar o próprio decurso da história, como se a vontade fosse capaz de lhe alterar o desfecho, atingindo o sentido de fatalidade que associamos ao passado. A certa altura, e num dos momentos mais instigantes deste livro, Brito fala-nos de alguns velejadores que, em 1968, participaram na mítica regata promovida pelo jornal inglês The Sunday Times. Os oito marinheiros foram desafiados a circum-navegarem o globo, partindo de Inglaterra, e seguindo o caminho que quisessem, desde que o fizessem solitariamente. Se, dos oito, quatro desistiram pouco depois do começo, e um quinto abandonou a prova a meio, por naufrágio, Brito não perde tempo com aquele que ganhou, mas foca-se nos dois que poderiam ter ganhado a corrida, mas que por razões diferentes não o fizeram: o velejador francês Bernard Moitessier e Donald Crowhurst. Este engenheiro eletrotécnico embarcara na prova sem qualquer experiência enquanto navegador, e depois de forjar uma rota que não chegou a percorrer, veio a aportar secretamente o seu trimarã na Argentina, onde deixou passar o tempo que julgou suficiente para ficar em último lugar, acabando por retomar a corrida numa altura em que estava a caminho de se tornar vencedor, mas, receando ser exposto pela sua fraude, acabou por enlouquecer e se suicidar. Quem também ficou cativada por Crowhurst foi a artista visual Tacita Dean, que reconstituiu aquele período final da sua vida, as semanas em que já não sabia onde se encontrava. “Tinha perdido completamente a noção do tempo e desenvolvido uma relação obsessiva com o seu cronómetro avariado, o instrumento que mede o Tempo Médio de Greenwich a bordo. Começou a sofrer de ‘loucura do tempo’, um problema familiar aos marinheiros cuja única forma de localizar a sua posição depende de uma observância rigorosa do tempo. Quando o seu sentido do tempo se distorceu, deixou de ter qualquer ponto de referência na massa mutável do oceano cinzento. Oprimido pela enormidade do seu engano e pela ofensa ao princípio sagrado da verdade — aquilo que acreditava ser o seu ‘Pecado da Ocultação’ — Crowhurst ‘abandonou o jogo’ e tudo indica que se terá lançado ao mar com o seu cronómetro, a apenas algumas centenas de milhas da costa da Grã-Bretanha.” Hoje, muitos de nós estamos também devastados por esta incapacidade de nos situarmos, incapazes de nos reconhecermos nos elementos cada vez mais deslassados e inconstantes da crónica que vamos fazendo, e, por essa razão, estamos a sofrer também os sintomas de uma loucura do tempo. A linguagem adoecida serve-nos cada vez de menos, e se considerarmos, como anota Steiner, que mesmo a história não passa de um acto de discurso, um uso selectivo do tempo passado, e que, sem essa ficção verdadeira da história, sem a animação ininterrupta de um passado escolhido, não passamos de sombras vazias, começa a ficar claro como nos destinamos a uma deriva na massa mutável do oceano cinzento, desses desertos nos quais não somos capazes de nos guiar por nenhum elemento constante. “Os vestígios, como os monumentos e lugares históricos, por mais concretos que sejam”, lembra Steiner, “têm também de ser ‘lidos’, quer dizer, situados num contexto de reconhecimento verbal, a fim de adquirirem uma presença real”… Então, a pergunta que Steiner formula é: “de que realidade palpável dispõe a história fora da linguagem e da nossa crença reflexiva em testemunhos que são de ordem fundamentalmente linguística?” E entre os principais elementos de erosão do sentido, além das pragas, dos vermes e dos incêndios que são capazes de danar parcialmente os arquivos, há ainda a pressão dos regimes totalitário, que trabalham para destruir não apenas esses testemunhos, mas degradar a consciência do passado e até aquilo que nos permite a todo deslocarmo-nos na dimensão temporal, esse livro da criação, essa linguagem que visa a ressonância da construção de um passado.
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    O devir meloso da arte portuguesa. Outra conversa com Miguel Faria Ferreira

    31/1/2026 | 4h 17min
    Considerando o adiantado da hora, seria bom ouvir alguém dizer-nos que as horas passadas e presentes partiram dum mal-entendido. Se fosse ainda importante fazermo-nos entender, deveríamos virar-nos de costas a esta contemporaneidade lorpa, em que um tipo se vê forçado a tamanhos desvios, que se torna estranho até para si mesmo. A pestilência do tempo e do lugar é o que nos leva a tanto. Corpos solteiros, devolvidos a contragosto uma e outra vez a dias e circunstâncias apontadas à destruição dos homens. A criação exerce-se, por isso, como uma defesa contra aquilo que nos esmaga, um modo de se ir subtraindo a esta pesada tempestade triste. Sublinhamos frases, produzimos instante a instante um filme dessas camaradagens aventurosas que nos faltam. Há um filme íntimo que cada um vai montando… “Criar é estar vivo, é demonstrar a si próprio e a tudo o que o ameaça um inesgotável recomeço, uma vitória que não finda”. Esta surge escrita com a letra de César Monteiro, atribuída a Vergílio Ferreira. O canhenho era essa cobra infindável, de tanto palmilhar longas extensões para se encontrar como ser, como outra razão que não essa miragem que alguns vão vomitando. Se lhe pedissem as horas, o que diria ele? Que estão a dar corda aos loucos. Que estamos por aí numa hora suspensa de revólveres indecisos, hora terrível de luas amarelas… nesta hora proposta pela angústia dos relógios, nesta mesma hora aniquiladora das consciências burguesas. Porque contrariamente ao que se diz, a loucura não vem de dentro, ela existe como um peso para nos fazer desistir. Deitar a toalha ao chão. Ela “existe quotidianamente na desagregação do homem de hoje”. Mas como não nos falamos, estas coisas são cada vez menos claras. Se não pedimos as horas também não assistimos quando alguns se põem a ordenar ao sol que vá pelos subterrâneos e pelos caixotes do lixo, que nos poupe à experiência do ódio. Antes tínhamos esses intervalos semeados, esses alívios, subterfúgios ou fugas. Caíamos em pleno olho da rua, batíamos aqueles suspeitos cafés tristes a ver quem mais. Mas isso das ruas, dos cafés onde é que isso já vai? Ou antes: não vai. Não há hipóteses. E o que é feito daquela condição ontológica de vadio e pedinte que Vitor Silva Tavares identificou no amigo? E aquilo do amor, aquele mais louco, que começava sempre por ser gratuito, mas, hoje, ou se paga à cabeça ou então sai mesmo caro. Estamos realmente sem saídas, e, perante uma geração que só pensa a sua arte como entradas, como modo de vir nas listas, de serem contados, as melhores esperanças parecem goradas à partida. Que é desses que eram vistos a apodrecer eternamente nos bancos da Avenida, cabeça a ferver? Como era isso de ter cábulas, o destino todo anotado, leituras de tantos ângulos. E o que é dos filmes que fazíamos contados, o cinema oral, essas ondulações do espírito de tal modo ritmadas, em que um se punha a fazer todos os papéis, revirando tudo, em busca dos tais, desses almejados instantes de graça? E se tínhamos uma boca e um corpo isso não era já aquele pedaço de fita, e não era um modo de celebrar uma separação face a nós mesmos, aplicar cortes, um modo de sermos capazes no decorrer ordinário das nossas vidas de irmos dando frutos, emprestarmos órgãos ao tempo? Um apuro, alguma lei ou razão a partir desse movimento oscilatório ou de viagem deambulante entre tradições? Mas se temos receio de “pagar o preço da fealdade, da ruína e da decrepitude, dos desastres e da maldição da esperança” (Manuel Gusmão), então que criações se esperar de nós, de uma geração tão submetida aos cálculos impiedosos, a esta sovinice das almas. Querem-nos ainda às gerações. Mas vamos ficando cansados de lhes explicar que já não dá para tanto. Nem aquelas audácias de se trazer a si mesmo à frente, como obra impura e misturada, como registo exaltado, como critério e, nalguns casos, até como uma furiosa síntese. Não se tinha mais nada senão essa disponibilidade assombrosa. Um artista começava por aí, por não se poupar tanto como os demais, por defender que a voracidade deve ser absoluta. “Filmar implica a consciência de uma transgressão. Filmas é uma violência do olhar, uma profanação do real que tem por objectivo a restituição de uma imagem do sagrado”… Mas ao dizer isto, ele sabia como estava difícil para a espécie defender esse talento de atracção-repulsão: “Sou capaz de ser o último dos crentes…” Sabia também da importância que é manter um discurso capaz de “avivar todos esses jazigos esparsos, ignorados e flutuantes” (Mallarmé). De resto, a pior forma de se referir ao tempo, é achar que não nos falta, que o melhor é guardarmos as nossas energias.” Amanhã estou morto e, com um cigarro na beiça, não devo nada a ninguém. Para além do honrado sorriso, dito de parvo, onde é que já se encontrou o espólio de um espoliado? É pedir muito que não me doem nada? Poderá parecer absurdo, mas de facto não me dói nada. Nunca há-de doer nada o nada de ninguém. Amanhã estou morto.” Ficamos assim, com meias palavras, que é o que ainda vai restando depois de as limparmos do bolor. E isto foi um tomar balanço ou ir bebendo o resto dos copos e captando alguns desabafos. Neste episódio quisemos tentar reaver um mapa das artes por cá a partir do contorno a giz dessas ausências que conseguem fazer deste um país extremamente assombrado. Puxamos pelo cinema, numa altura em que entre nós este se tomou de uma mania, e não faltam acólitos para esse culto. Mas, e para nos ajudar a sentir que tínhamos algum chão sob os pés, recorremos aos préstimos do Miguel Faria Ferreira que é um compulsivo do cinema, que vive de ouvido encostado ao chão, e compõe um atlas que cruza distâncias e essas expansões da intimidade através do olhar, do hábito que têm uns tantos de ir dando forma a fantasmas de uma visão eterna.
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    As cenas do ódio. Outra conversa com Luís Bernardo

    23/1/2026 | 3h 53min
    Por toda a parte os mesmos sinais, frases, cadências, até as moscas estão a ler o mesmo que nós, esta literatura imunda que tomou conta de cada ruído, mastigamos lendo, como se a nossa falta de carácter ou convicção fosse compensada pela persistência implacável de tudo o que nos cerca, esta doença do que todos sabemos, esta acusação que nos é dirigida, fartos das sórdidas intrigas que parecem repugnar a própria existência. “O apocalipse não nos vem do exterior. Somos nós quem o transporta”, escreveu Eduardo Lourenço. O pior é darmo-nos conta de que toda esta devastação corresponde fielmente à nossa intimidade. De tanto dirigirmos para o mundo um olhar que não quer nada, que é incapaz de obter qualquer tipo de satisfação, de nos aferrarmos ao que não está nem aqui nem em lado nenhum, os nossos desejos vão cada vez mais no sentido de ausências, de abstracções. E isso de comprar barato aqui para ir vender caro ali, essa ganância metida em tudo, que, já em 1758, levou Rousseau a falar de “homens tão odiosos, que se atrevem a ter mais do que é necessário quando outros morrem de fome”, como se explica? E todos esses que se dizem herdeiros dos ideais iluministas e não vivem senão para distorcer a moral e justificar seja o que for... De tal modo o instinto burguês da propriedade se tornou uma força motriz, que não aceita ser questionado. Foi ocupando o lugar de todos os outros instintos e ideais, e quem quer que tenha conseguido agarrar-se a alguma coisa e reclamá-la fá-lo com uma tenacidade desesperada, levando a que a ideia da redistribuição lhe cause um medo de morte. Em todos os lugares constatamos como a vida está identicamente ausente, a humanidade degradou-se por essa submissão a uma ideia de riqueza que se exprime neste mundo como uma coisa grotesca, uma forma carregada de miséria. Esta é uma realidade tão destituída de qualquer razão de ser, de um sentido de equilíbrio, de inteireza, que, por falta justamente dessa interioridade, se viu obrigada a virar-se do avesso. “É uma sociedade que incansavelmente faz a sua própria apologia, ou que se justifica perpetuamente por existir”, diz-nos Baudrillard. “Tudo deve ser tornado público, aquilo que se vale, aquilo que se ganha, a forma como se vive – não há espaço para subtilezas.” As condições existencial e estética confundem-se a um mesmo nível, só podendo ser definidas como autopublicitárias. Tudo só adquire alguma importância a partir do momento em que lhe possa ser atribuído um valor de troca. Assim, a publicidade define inteiramente o teatro das relações sociais. Comprar barato e vender caro, diz-nos Robert Owen, é uma ocupação que deteriora as melhores e mais refinadas capacidades da nossa natureza, acabando por as destruir. O filósofo galês relata como depois de um período de largos anos em que passou por todos os graus de ofícios, das fábricas e do comércio, ficara com a certeza absoluta de que nenhum carácter superior se pode formar neste sistema totalmente egoísta. “Neste sistema não pode haver verdadeira civilização, visto que todos são incentivados pela sociedade ao confronto e muitas vezes também à destruição mútua, através de uma oposição de interesses artificial. É um modo baixo, reles, ignorante e inferior de conduzir os assuntos da sociedade, e nenhuma melhoria permanente, geral e significativa será possível se não surgir uma melhor solução para a formação de carácter e a criação de riqueza.” Como fazem notar os curadores da exposição Complexo Brasil, a palavra portuguesa feitiço foi contrabandeada de uma forma muito curiosa entre tantos idiomas por meio desse subtil desvio do fetiche e do fetichismo, um conceito que, hoje, como sabemos tem apelo e uma força de irradiação e significado tão importante em disciplinas como a economia e a psicanálise. Uma breve nota logo à entrada daquela mostra na Gulbenkian refere como, no século XVI, esta palavra foi usada para “rebaixar as culturas animistas, seus sujeitos periféricos, objectos de escravização”. Tanto tempo depois, o feitiço revela a sua plena maturação, e vemos como carregámos todo este tempo uma maldição, pois éramos nós quem tínhamos chegado ao novo mundo dominados por uma ganância absurda, esse fetiche da mercadoria, que é incapaz de ver seja o que for, de encontrar o mundo na sua riqueza, preferindo extrair algum lucro obsceno e que reduz tudo a uma ausência cuja acção hoje devasta todo o planeta. No fundo, o deserto somos nós. O apocalipse somos nós. Aquilo que fomos perdendo ao atravessar o mundo, tudo aquilo que desprezámos e destruímos enquanto buscávamos alguma fonte de valor para ser levada de volta, tentando aplacar a nossa miséria, isso mesmo significava a nossa indisponibilidade face ao mundo. Os nossos valores nunca foram outro sinal do que esse terror que nos consome, esse vazio. Outra das notas que se podia ler naquela exposição, fala da antropofagia, algo que sempre inquietou as nossas imaginações tão frágeis, sempre representada como um acto de maldade voraz, “um canibalismo glutão”. Mas os curadores esclarecem que a antropofagia, vivida por populações indígenas do século XVI, era um paradoxal rito de reconhecimento da humanidade do inimigo. “Os cativos de guerra, tomados geralmente de povos de mesma língua e costumes, viviam longo tempo em liberdade vigiada na tribo de seus captores, recebiam mulheres como esposas, transformavam-se em parentes afins e eram executados num ato solene de valor iniciatório para o oficiante (que não participava do banquete e entrava em um período de luto no qual se entregava a um processo de identificação com o ‘contrário’).” Ainda hoje o canibalismo é usado para instigar em nós esse terror face aos bárbaros, mas já no século XVI Montaigne reconhecia que a antropofagia empalidecia se comparada com a crueldade com que os seus contemporâneos europeus, vendo-se consumidos por guerras religiosas atrozes, “e sem grandeza espiritual para comer do inimigo morto, torturavam e estraçalhavam o inimigo vivo em nome da piedade e da religião”. Aquela estupenda nota termina lembrando o génio do poeta brasileiro Oswald de Andrade, que “tomou a antropofagia como uma arma criativa de combate contra a sujeição cultural do colonizado, e como uma instigação à capacidade de ser outro ao reconhecer o outro em si”. “Tupi or not tupi, that is the question”, escreveu ele. Neste episódio, e com o intuito de levarmos um pouco mais longe as nossas explorações e indagações no confronto com esta terra devastada que parece servir apenas de pasto a fantasmas, contámos novamente com Luís Bernardo, um desses tipos que tem a decência de responder às suas inquietações fazendo um sério trabalho de pesquisa de fontes e análises que escapam inteiramente às intrigas paroquiais em que refocila o nosso enredo mediático.
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    Na cama com um, a sonhar com outro, apaixonada por um terceiro. Uma conversa com Carmo Afonso

    17/1/2026 | 4h 18min
    Ao longo dos séculos quantos terão contemplado as possibilidades de se livrarem dos seus perversos corpos? Eles mais pelo desejo de que se sentiam adoecer, elas por se verem encurraladas, sendo-lhes dito que os seus corpos carregavam esse ambíguo poder (graça e maldição), enfeitiçando-os a eles. Talvez muito pudesse ter sido diferente se em vez de interrogar o que as mulheres querem, a pergunta fosse feita na negativa: o que não querem? Mas acatar de vez uma recusa é desde logo mais doloroso, e a insistência, o cerco, o acosso, fundou esse prestígio de um sedutor rapace, daquele que entende que é sempre possível negociar um não, criar condições para que este se torne um sim. “Falar, narrar, fabular, assim como lamber, chupar e sugar exigem uma aprendizagem subtil e interminável” (Eliane Robert Moraes), e falar delas é o primeiro dos privilégios do macho, a possibilidade do assalto que começa por pô-lo em palavras, descrevê-las e o que lhes faria, a fazer as rondas, a tocar com os passos esse instrumento chuvoso, para que a língua dê uma volta na fechadura de uma beleza hermética, começando pelo contorno, por alguns traços, da melena lisa com todos os matizes do negro, a “uma pele que é como o fim de uma raça ou o princípio de outra”, “um corpo de criada filipina e adolescente que saiu estilizada dos cruzamentos de raças, de sangue, de toda essa cultura dos sexos, que ignoramos”… Não faltam mitos sobre as fazedoras de chuva, essas figuras cheias de uma deliciosa intimidade feminina, daquele maternal cansaço de amante. Não se livram desse olhar, dessa avaliação, e também por isso Maria Galíndo insiste em fazer notar como há uma continuidade fundadora entre puta e não puta. Mas reivindica esta palavra: “A palavra puta é essencial e representa-nos, abrange do trabalho sexual até à liberdade sexual; a expressão trabalho sexual é também essencial porque obriga-nos a colocar a prostituição na análise histórica dos trabalhos das mulheres”… “Sem trabalhadoras do sexo não há feminismo”, adianta. “Não estou a falar de uma forma de inclusão ‘caridosa’, para as ‘salvar’, mas sim precisamente o contrário: ela, a puta, tem o bastão para remover sexualidades, quebrar mitos, diluir as estruturas de todas as mulheres e é, por isto, um sujeito imprescindível." Explica ainda que, “tal como em qualquer actividade de subsistência, neste trabalho desenvolve-se um conjunto de saberes; a cozinheira, a padeira, a peixeira, a vendedora ambulante, todas desenvolvem saberes próprios do seu ofício, a trabalhadora do sexo faz o mesmo. O negócio não é simplesmente cobrar por sexo”. E prossegue: “A perigosidade e a importância dos seus saberes, o lugar que ocupam na sua relação com o universo masculino, é o que realmente não se quer discutir quando se fala de trabalho sexual. Os saberes das trabalhadoras do sexo têm um carácter explosivo.” Ora, é isto que, segundo Galíndo, faz da puta a “anfitriã da mudança social e uma protagonista central do questionamento da norma patriarcal em torno do corpo e da sexualidade”. Considerando que está em processo uma guerra contra as mulheres, com o aumento da violência machista, sendo que “as trabalhadoras sexuais estão a funcionar como dique, como parede de primeiro impacto dessas violências, como lugar onde essas violências se apresentam como legítimas”, para esta anarco-feminista boliviana a puta é uma peça chave uma vez que “ela acumula, mais do que qualquer outra mulher, mais que a esposa, mais que a amante, uma quantidade de conhecimentos sobre a afectividade, a sexualidade, o corpo, as dolências e os complexos do macho”. Seria um desperdício tentar usar da galanteria e do latim para intrujar ou converter uma puta numa amante solícita. Ela já ouviu tudo, e, a qualquer combinação de palavras formulada por um príncipe a cavalo no próprio tesão, prefere antes que lhe paguem o preço acordado. Em vez de um elogio, mais vale outra nota. Talvez seja mesmo de preferir que ele se cale. Uma puta dispensa o homem de todo aquele teatro, de toda a falsificação amorosa. Se isso for importante, se ajudar a que se venha de uma vez, fingirá, e, por um preço, fará todos os papéis, irá bater texto, dar-lhe-á as deixas, contribuirá no que for preciso para que ele se comova consigo mesmo, com os seus sentimentos e intenções, com a imagem que julga que pinta. Tem infinitos recursos, a puta. E podemos mesmo antecipar que a tal ficção da “mulher”, dentro de mais uns anos, só venha a ser sustentada pelas prostitutas, isto num momento em que o capitalismo já reconheceu que, para os seus fins, interessa mais uma força de trabalho sem género. Como assinala Silvia Federici, “as áreas de trabalho em que o modelo da feminilidade celebrado (por exemplo) na década de 1950 ainda é requerido estão rapidamente a desaparecer. Do ponto de vista do trabalho, já vivemos num mundo de género fluído, em que se espera que sejamos femininas e masculinas em simultâneo.” Há uma urgência em diluir os géneros por questões de eficácia, e, em breve, a nostalgia do macho possante de outrora será uma dessas fantasias que apenas as putas satisfarão. Mas, por agora, e como assinala Federici, o mais importante é reconhecer que há maneiras de ganhar um salário bem mais degradantes do que a prostituição. “Vender os nossos cérebros poderá ser mais perigoso e degradante do que vender o acesso às nossas vaginas.” Mas para esta como para outras noções, a audiência prefere ainda agarrar-se ao efeito moral, representando para si mesma, e ignorando o que nos foi dizendo Merteuil, a marquesa que teve a morte de uma prostituta, sobre como isso da mulher como esta sociedade a faz foi sempre o pior dos papéis, a mais sufocante das prisões. “Abrirei as minhas veias como um livro que não foi lido. Haveis de aprender a lê-lo, Valmont, depois de mim. Farei isso como uma tesoura, porque sou mulher. Cada profissão tem o seu jeito. Podeis com o meu sangue renovar a vossa maquilhagem. Procurarei um caminho para o meu coração através da minha carne que não haveis encontrado, Valmont, porque sois um homem, porque vazio é o vosso peito e dentre de vós cresce o nada. O vosso corpo é o corpo da vossa morte, Valmont. Uma mulher tem muitos corpos. Se quiserdes ver sangue, tereis que o tirar vós próprio. Ou então uns aos outros. Tendes inveja do leite do nosso peito, o que vos torna carniceiros. Se pudésseis parir. Lamento, Valmont, que devido a uma lei da natureza difícil de compreender vos seja inacessível esta experiência, proibido este jardim. Daríeis a melhor parte de vós mesmo se soubésseis o que vos escapa e a natureza vos desse razão. (…) É bom ser mulher, Valmont, e não um vencedor. (…) Quereis saber mais. Sou uma enciclopédia agonizante, cada palavra um coágulo de sangue.” Neste episódio, parecendo que não, nunca nos afastámos muito da actualidade, mas para escapar aos convulsivos desarranjos e equívocos para os quais nos empurra a mediocracia, quisemos assaltar aquela margem abandonada dos discursos que não abriram mão de um verdadeiro projecto de transformação social. E para irmos seguindo esse fio de lã e não ficarmos perdidos no labirinto, contámos desta vez com a inteligência e graça de Carmo Afonso, advogada que tem empenhado o seu tempo e os seus conhecimentos para defender mulheres que são alvo da perseguição e enxovalhamento do enredo patriarcal.
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    O ponto fraco da realidade. Uma conversa com Rui Cardoso Martins

    10/1/2026 | 3h 56min
    Os mortos não gostam de estar sós. Alguém tem de lhes encher os comedouros, aplacar minimamente os seus apetites. De outro modo a única coisa que o luto pede é vingança, e o sangue só quer beber mais sangue. Contamos histórias também para consolar os mortos. De resto, história e elegia são modos afins, como assinala Anne Carson. A palavra “história” vem de um verbo do grego antigo, que significa “perguntar”, adianta a poeta norte-americana conhecida pela indisciplinada erudição com que revolve a antiguidade clássica. Assim, aquele que pergunta pelas coisas – pelas suas dimensões, peso, localização, humores, nomes, santidade, cheiro – é um historiador. Mas esse perguntar, vinca Carson, não é ocioso. “É quando perguntas por algo que te apercebes de que tu próprio lhe sobreviveste e que, por isso, tens de o carregar contigo, ou de o moldar numa coisa que se sustente por si mesma.” E se Heródoto é tido como o autor dessa função, este refere como tantos objectos e monumentos foram criados de modo a corporizar uma “memória”. O pior em relação aos mortos talvez seja tentar convencê-los de que há um sentido na sua morte, de que devem resignar-se. De algum modo, toda a consciência, mesmo aquela que está já para lá desta vida, continua inconformada, incapaz de aceitar os termos que lhe foram colocados. Poucos são aqueles que aceitam se lhes dissermos que estavam acabados, pois faz parte do impulso dos homens sentirem-se inacabados, e, tantas vezes, a morte só serve para refrescar certos impulsos, expressos em tantas obras, as quais parecem exigir uma vida sem fim. É claro que os mortos, no seu perpétuo desassossego, são reflexos nossos, e escavam em nós esse gosto pela persistência que nalguns momentos consegue ser mais forte do que qualquer perigo. Empreendemos o diálogo com os mortos de modo a criar uma rede de relações tão apertadamente tecida que nenhum desses momentos em que mais nos esforçamos por nos enraizarmos no tempo possa cair do mundo por completo. Os vivos incomodam os mortos no seu sono porque de algum modo não chegam a acreditar em si mesmos. Em épocas de mesquinha depressão, como alguém notou, proliferam esses ruidosos pregadores que se substituem à consciência dos mais fracos, que assim vão anestesiando os seus receios interiores com esse grasnar dos gansos. Outros, vagueiam buscando esses ecos caídos do ar só respirável pelos mortos, só permitindo exageros de imaginação que encontrem algum tipo de ressonância ou correspondência com o passado, como se temessem acima de tudo serem arrancados ao embalo da história. De um modo ou de outro, o presente parece-nos demasiado incerto, como uma hipótese remota, um sonho ou pesadelo meio imbecil, formulado em termos demasiado precários. Há um efeito de perda da espessura, de incapacidade de se situar face à tradição, num tempo em que ninguém reconhece propriamente uma língua-mãe. Estamos capturados numa espécie de orfandade da linguagem, uma vez que, como assinalava Elias Canetti, “a maioria das pessoas, actualmente, já mal domina a fala. Exprimem-se com as frases dos jornais e dos meios de comunicação social e dizem – sem, realmente, serem o mesmo – cada vez mais o mesmo.” A falta de uma experiência obtida dentro de um universo de referências que nos sejam úteis, manejáveis, essa espécie de exílio face a um ambiente propriamente cultural, a uma consequência do lugar e a uma proximidade justificada com os outros, faz de nós seres incapazes de se situarem numa época, esta ou outra qualquer. Daí essa ansiedade que leva tantos a procurarem vincular-se ao poder, mesmo que só seja possível fazê-lo da forma mais degradante, que é ser arrastado, deixar-se subjugar inteiramente, até nas suas crenças e disposições mais íntimas, nos humores, e, particularmente, na mobilização odiosa que este sempre constrói. É uma questão de todos os tempos, mas que, hoje, nos assola constantemente… “O poder sempre conquistou as massas, precisamente porque era poder. E as massas gritavam ‘hurra!’ e ‘viva’, cantavam, gritavam, matavam, deixavam-se matar, e afundavam-se no anonimato. Era uma história velha como a morte. Se as massas conquistassem o poder e – finalmente, por uma vez – o mantivessem, o poder perderia a sua essência e o seu nome, as massas o seu anonimato, a sua falta de humanidade” (Jonathan Sperber). O que rareia por estes dias são o género de figuras que, de um modo quase instintual, rejeitam o poder. “É muito curioso que todos os pensadores, na História da humanidade, que entendem alguma coisa do poder efectivo o aprovam”, nota Elias Canetti. “Os pensadores que são contra o poder mal penetram na sua essência. A sua aversão por ele é tão grande que não gostam de se ocupar com ele, pois temem ficar manchados por ele. A sua atitude tem algo de religioso.” Em sentido contrário, e isto é uma evidência num tempo em que os jornais e todos os pontos de articulação onde antes nos era dado a sentir o tempo, onde havia um esforço de ir preparando aquele esboço da história, da crónica desta época, caíram nas mãos de seres embevecidos pelo poder, uma classe ansiosa de sabujos, serviçais, canalhas, falsários, propagandistas, que ocupam todas as posições de evidência e desgastam qualquer possibilidade de escaparmos aos enredos do poder. Querem por todos os meios degradar a realidade, rebaixa-la às suas fixações, aos seus anseios e aspirações. “Uma ciência do poder só foi desenvolvida por aqueles pensadores que o aprovam e se comprazem como seus conselheiros”, diz-nos Canetti. E por isso a história, a crónica que nos servem estes seres apenas responde a este tipo de perguntas: “Qual é a melhor maneira de conquistar e manter o poder? A que se tem de estar atento, para o conservar? Que escrúpulos se tem de pôr de parte por prejudicarem o seu exercício?”. Neste episódio, se não escapámos inteiramente às nossas fragilidades, tivemos a sorte de contar com o embalo de um cronista de outra estirpe, um faz-tudo, que viu muito, ouviu tanto, e que tem sabido rebentar com a moldura, deixando-se desafiar e comover com outros sinais, com essas figuras quase sempre condenadas ao anonimato e, em muitos casos, à invisibilidade. Rui Cardoso Martins veio ajudar-nos a enxotar esse tempo mais imediato, ruidoso, de moscas moles, e a contrariarmos a fuga ao concreto, essa tendência para nos enrodilharmos em leituras abstractas ou em ambições de conquistar o que nos é mais distante, precisamente para evitarmos o confronto com aquilo que está mais próximo, por receio, por sentirmos a sua perigosidade e preferirmos antes apontar a esses outros perigos de consistência desconhecida.

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Sobre Enterrados no Jardim

Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho à conversa, leve ou mais pesarosamente, fundidos na bruma da época, dançando com fantasmas e aparições no nevoeiro sem fim que nos cerca, tentando caçar essas ideias brilhantes que cintilam no escuro, ou descobrir a origem do odor a cadáver adiado, aquela tensão que subtilmente conduz ao silêncio, a censura que persiste neste ambiente que, afinal, continua a sua experiência para instilar em nós o medo puro. Vamos desenterrar, perfumar e puxar para o baile os nossos amigos enterrados no jardim, e deixar as covas abertas para empurrar lá para dentro aqueles que só aí andam a causar pavor e fazer da vida uma austera, apagada e vil tristeza.
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