41 episódios
- O cinema faz mal? Pôr uma criança de 12 anos, a idade de Brooke Shields em 1978, a fazer um papel altamente sexualizado como o que fez em Pretty Baby é difícil de aceitar hoje?
Neste episódio de No Escuro voltamos aos filmes "malditos" a pretexto do regresso algo tonitruante em terras de Sua Majestade de The Devils, filme de Ken Russell. Até hoje só tinham circulado cópias truncadas, e uma cena em particular, conhecida como a "violação de Cristo", tornou-se mítica precisamente porque nunca fora vista. Volta agora aos cinemas britânicos, esse filme com odor blasfemo, passados 50 anos da estreia (algum distribuidor em Portugal se interessará?). É a versão original, como o realizador a concebeu. Procede-se simultaneamente a uma revisão do lugar de Russell no cinema britânico e internacional, ele que foi sempre liminarmente recusado pela crítica que o recebia com mimos como "grotesco"; agora, depois de morto, está a ser bafejado pelo trabalho escultural do tempo.
Mas serão os espectadores de 2026 semelhantes aos da década de 70, ou seja, aventureiros e dispostos a serem violentados?
Partimos do The Devils — filme que teve Derek Jarman na equipa de direcção artística — para mais uma viagem (que já tínhamos iniciado no episódio anterior) por obras que causaram escândalo e fascínio, repulsa e admiração, simultaneamente. Obras que, pelo sexo, pela violência, pelo horror, pela denúncia de instituições como a Igreja, exploraram os limites do que pode ser mostrado e quiseram ir aonde nenhum filme tinha ido antes.
Recuamos até aos anos 1930, em que Freaks, de Tod Browning, expõe os "monstros" para dizer que, afinal, os monstros somos nós. Mas centramo-nos nos anos 70, a década que mais convenções desafiou. E terminamos em 2003, com The Brown Bunny, filme com uma famosa cena de sexo oral não simulada que, contra todas as previsões anunciadas, não destruiu a carreira de Clöe Sevigny.
Neste episódio, os filmes de que falamos são:
Freaks, de Tod Browning (1932)
The Devils, de Ken Russell (1971)
Cães de Palha, de Sam Peckinpah (1971)
Pink Flamingos, John Waters (1972)
O Exorcista, de William Friedkin (1973)
Pretty Baby, de Louis Malle (1978)
O Bebé de Mâcon, de Peter Greenaway (1993)
Kids, de Larry Clark (1995)
The Brown Bunny, de Vincent Gallo (2003)
No episódio anterior falámos de:
O Nascimento de Uma Nação, de D. W. Griffith (1915)
Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick (1971)
O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci (1972)
Emmanuelle, de Just Jaeckin (1975)
Saló, os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini (1975)
O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima (1976)
Je Vous Salue Marie, de Jean-Luc Godard (1985)
Veludo Azul, de David Lynch (1986)
A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese (1988)
No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso apelo é: #levantemoraboevaoaocinema.
See omnystudio.com/listener for privacy information. A manteiga, o ovo, os “malditos”: de "O Último Tango em Paris" a "O Império dos Sentidos"
09/10/2026 | 49minNão têm uma história na escola, quando, no recreio, entre miúdos como vocês, alguém se atreveu com "a cena da manteiga" por causa de um filme chamado O Último Tango em Paris, título aliás que não emitia nada de lascivo?
São mais novos do que isso...
E a "cena do ovo" de O Império dos Sentidos? E Singin' in the Rain e as violações, ou a violência e uma sinfonia de Beethoven, em Laranja Mecânica, mais as longas pestanas de Alex DeLarge e um medo que fechava as portas sempre que, a partir de então, se olhava para Malcolm McDowell?
E os distúrbios na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, por causa da programada exibição de Je Vous Salue Marie, de Godard? Levou à mobilização de grupos católicos conservadores no edifício da Rua Barata Salgueiro, fúria liderada pelo então presidente da câmara Nuno Abecassis, pretendendo "escaqueirar" tudo se a programação fosse avante (ele que já tinha escaqueirado o clássico cinema Monumental...).
A memória também é uma construção. Mesmo quem não esteve lá, mesmo quem não tenha testado os pais com "e o que é a cena da manteiga?", herdou um património. É sobre isso este episódio de No Escuro: a forma como os "filmes escandalosos" são parte das nossas vidas, constituem-nos. Por isso a deflagração de emoções quando ouvimos o saxofone de Gato Barbieri, que assombrava o genérico, com as pinturas de Francis Bacon, n'O Último Tango... , a carícia, que é a voz de Pierre Bachelet, no tema de Emmanuelle ou a insinuante melodia de Blue Velvet que Bobby Vinton transforma em garrote.
Foi com essas conquistas do cinema sobre os limites do que podia ser mostrado que nos tornámos novos espectadores. O "escândalo" é como o ginásio: provoca dores, rasga, e por isso o músculo cresce. Evocações deliciosas que raiam o mito: atravessava-se a fronteira para ir a França ver um filme, O Último Tango..., porque a censura, em Portugal ou em Espanha, não autorizara a estreia.
A matéria é vasta. Até porque os escândalos se reeditam: se a manteiga é velha, recente é a "descoberta" de que a actriz Maria Schneider não sabia que com ela iria ser barrada por Marlon Brando na sequência da violação, o que tornou O Último Tango em Paris, de novo, um símbolo. De sinal contrário, desta vez, ao da liberdade ou da quebra de tabus. Questiona-se agora os limites da criação: até onde pode ir um filme?
Dedicaremos duas jornadas ao assunto. Neste episódio evocamos:
O Nascimento de uma Nação, de D. W. Griffith (1915)
Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick (1971)
O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci (1972)
Emmanuelle, de Just Jaeckin (1975)
Saló, os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini (1975)
O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima (1976)
Je Vous Salue Marie, de Jean Luc Godard (1985)
Veludo Azul, de David Lynch (1986)
A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese (1988)
No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso apelo é: #levantemoraboevaoaocinema.
See omnystudio.com/listener for privacy information.- Uma pergunta e uma incontida melancolia: porque é que Tom Cruise não é um actor de "filmes normais", de comédias românticas ou de pequenos, serenos melodramas?
Porque é que cada projecto tem de equivaler a uma proeza, como se fosse um mergulho no Grand Canyon ou um voo planado a partir do Empire State Building?
Porque é que um filme com Tom Cruise se reconduz sempre à exibição de um solo? (saudades de A Cor do Dinheiro).
Porque é que está sempre em causa a salvação do cinema?
É o que nos perguntamos neste episódio de No Escuro, na semana em que estreia Digger, o filme que à fome (de Cruise) junta a vontade de comer (de Alejandro González Iñárritu): o sublinhado, o sentencioso, o grotesco.
E eis como Digger, em que o actor interpreta um milionário e o mundo está a braços com a catástrofe climática, está já a dividir. Talvez por essa Tom não esperasse, ele que, entre outras coisas, é um salteador da arca perdida do consenso.
Depois de verem o filme e de ouvirem este episódio do podcast, digam se concordam connosco neste, mas também pode ser noutro, ponto: "Viva Riz Ahmed!"
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See omnystudio.com/listener for privacy information. - Um homem mata uma ex-namorada. Uma amiga da vítima pede que se averigue o que falhou, uma vez que ele já antes matara uma ex-namorada, cumprira pena de prisão e estava ainda em liberdade condicional. O que falhou?
O Homem Que Matou Duas Vezes é uma investigação de Ana Cristina Pereira, que escreveu os guiões e faz a narração, com produção de Inês Rocha, revisão de Inês Rocha e Sara de Melo Rocha, sonoplastia de Margarida Adão, música do genérico de Tiago Orato, ilustrações de José Carvalheiro e produção executiva de Amílcar Correia.
A série narrativa, de sete episódios, vai além da reconstrução dos crimes cometidos por João Pedro Oliveira. Recupera a história das vítimas e do homem que as matou ao mesmo tempo que escrutina o sistema.
Para conhecer a história toda, ouça os próximos seis episódios.
Se precisa de ajuda, ligue para o Serviço de Informação às Vítimas de Violência Doméstica da CIG: 800 202 148. Ou para a linha de Apoio à Vítima da APAV: 116 006.
Outros créditos: som recolhido em manifestação em Lisboa, em 2024, de grupo de mulheres a cantar Canción Sin Miedo, com música e letra de Vivir Quintana; trailer Retrato de Dorian Gray, filme de 2009, realizado por Oliver Parker, com guião de Toby Finlay, a partir da obra homónima de Oscar Wilde.
See omnystudio.com/listener for privacy information. Entre o sexo de "... Acampamento Miasma" e a cabeça de Almodovar, preferimos o sexo
25/09/2026 | 39minAdolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma é título de filme de terror. O cartaz, com as duas protagonistas cobertas de sangue, também aponta nessa direcção. Mas não nos precipitemos, porque quem não gosta de terror pode ter a tentação de o evitar e seria uma pena. Há sangue a jorrar e algumas cabeças a voar apenas porque Jane Schoenbrun, cineasta, presta aqui homenagem ao género slasher. Mas depois transcende-o para fazer um filme que é, afinal, muito mais sobre sexo e como encontrar um lugar seguro no medo, por paradoxal que possa parecer.
A personagem principal, Kris (Hannah Einbinder, que não anda longe de ser um alter ego de Schoenbrun), foi convidada a recuperar a série de filmes sobre o Acampamento Miasma, voltando ao espírito original depois de várias tentativas para manter o entusiasmo dos fãs vivo. Para isso, quer ter no filme a "última rapariga" do episódio original. Ela é Billy (Gillian Anderson) e vive, reclusa, no acampamento isolado onde foi filmado o primeiro Miasma. É uma espécie de Norma Desmond, a diva de Sunset Boulevard, a olhar para o passado, mas leva-se bastante menos a sério. Até porque aprendeu — e esse será o segredo que fascina Kris — que "se as coisas forem demasiado reais, podem-se sempre desligar".
O medo e o prazer são aqui uma aprendizagem, com a ajuda da Pequena Morte (não é por acaso que assim se chama ao orgasmo), jovem vítima de transfobia, que quando quer matar de novo sai do fundo do lago onde vive. O lago, esse sítio "de onde vêm os filmes" — leia-se o lugar dos traumas passados — para fazer jorrar o sangue. Mas, afinal, é no meio de frango frito e de gomas cheias de açúcar que Kris se reconcilia com o sexo e o desejo, e é tudo isto que faz deste filme queer um objecto vindo mais do corpo do que da cabeça.
Ao contrário do que acontece com outra estreia da semana, Natal Amargo, de Pedro Almodóvar, que já foi, ele também, mais sensual e menos cerebral. Agora, a urgência de filmar transforma-se numa obra que se perde na teia (demasiado) intricada da auto-ficção.
Andamos por aqui, entre o corpo e a cabeça, neste episódio do No Escuro, onde até cabem Clint Eastwood e Nanni Moretti (ouçam, para perceber porquê) e o Psico de Hitchcock, referência fundamental para as questões de identidade de género centrais na obra de Jane Schoenbrun. Aliás, quando ainda não tinha abandonado as suas preocupações woke, Kris, a personagem da realizadora, fizera "o Psico do ponto de vista da cortina do chuveiro". Mas isso, claro, foi antes de experimentar o orgasmo.
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