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    Afinal, isto (também) é o Bangladesh

    04/09/2026 | 29min
    Rubaiyat Hossain é do Bangladesh e esteve em Portugal para a pós-produção do seu mais recente filme, A Noiva Difícil, que tem fotografia da portuguesa Leonor Teles, e que será apresentado no Festival de Veneza, que acaba de começar. Nessa passagem por Lisboa, encontrou uma comunidade triste e "de cabeça baixa" quando passeou pela Rua do Benformoso e percebeu que é com desconfiança que se olha para quem chega do Bangladesh - a indignação do Chega e de André Ventura, proclamando que "Isto Não É o Bangladesh" terá tido o seu efeito.
    Mas em Rubaiyat, cujo cinema denuncia desequilíbrios sociais, de género e de classe (veja-se Made In Bangladesh sobre um grupo de operárias de uma fábrica de roupa que querem fazer um sindicato), a campanha do Chega teve um efeito certamente contrário ao pretendido: a realizadora decidiu fazer um filme passado em Portugal. Quer mostrar como a história dos dois países se cruza desde há muito e, para isso, criou a personagem de uma empregada de limpeza de um museu de Lisboa que se confronta com esse passado comum.
    O Vasco Câmara já está em Veneza e vai ver como A Noiva Difícil será recebido, mas, para já, a notícia que deixou o festival em alvoroço foi dada à última hora (e não terá sido por acaso): Veneza vai mostrar NAZA, o novo filme de Yuval Abraham e Rachel Szor, a metade israelita do quarteto israelo-palestiniano (com Basel Adra e Hamdan Ballal) que realizou No Other Land, o documentário que venceu um Óscar no ano passado. NAZA é um acrónimo usado pelos serviços secretos israelitas que se refere aos civis mortos em operações militares - baixas que são assumidas como parte da estratégia adoptada contra a população palestiniana na sequência dos ataques de 7 de Outubro de 2023.
    É o Festival de Veneza a tomar uma clara posição política, mostrando que há vida mesmo quando os mais mediáticos filmes americanos não comparecem - primam pela ausência Digger, de Alejandro González Iñarritu ou The Adventures of Cliff Booth, de David Fincher, e os respectivos actores, Tom Cruise e Brad Pitt. Neste episódio vamos falar disto - e do Bangladesh em Portugal.
    No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinema.
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  • No escuro

    A doçura da Reboleira de Basil da Cunha — nem o jacaré mete medo

    28/08/2026 | 35min
    Isto não é um spoiler (e um dia destes temos de falar sobre spoilers): o jacaré é mesmo um jacaré, não é a alcunha de alguém. Falamos de O Jacaré, filme de Basil da Cunha, ainda (mas não sempre, porque ele diz que será o último nestes moldes) na Reboleira, o bairro onde escolheu viver com a comunidade que se tornou parte integrante da sua obra cinematográfica até hoje. Para quem viu os filmes anteriores deste cineasta luso-suíço — falamos de Até Ver a Luz (2013), O Fim do Mundo (2019), Manga d'Terra (2023) — é o regresso a rostos conhecidos, numa mistura entre identidades reais e personagens. São, na verdade, grandes actores, nesta mistura de vida e cinema.
    É a periferia, sim, mas Basil da Cunha não é o Pedro Costa de No Quarto da Vanda, nem o Pedro Cabeleira de Entroncamento, é outra coisa, um olhar sobre a Reboleira que parte de dentro e que, mesmo atravessado pela dureza das vidas, nunca vai pela escuridão, mas sim pela música, pela festa, pelo inusitado que pode ser — e, neste caso, é — um jacaré numa piscina.
    Há gangsters, gangues rivais, o dinheiro de um roubo que desaparece e que todos querem encontrar, há mulheres que não se deixam ficar, discussões, ciúmes, traições. Há ecos da Nova Iorque de Martin Scorsese, do Bronx, da Brooklyn de Spike Lee em Não Dês Bronca. E há um bairro, a Reboleira, que foi desaparecendo à medida que Basil o ia filmando — muitos dos lugares dos seus filmes já não existem e com eles desaparecem também ligações, histórias, cumplicidades, solidariedades.
    Os filmes têm ido ao Festival de Locarno, mas os prémios ainda não chegaram — sinal de que há ainda ideias demasiado rígidas sobre o que deve ser o cinema português? É uma pergunta que fazemos neste episódio do No Escuro.
    No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinema.
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    Que belos desastres, os de Hitchcock, Kubrick, Spielberg, Coppola ou Cimino

    21/08/2026 | 50min
    Que lindos que são, estes desastres, que objectos fascinantes. E tão magoados!
    Para o espectador, é como o fenómeno do acidente na auto-estrada: é despertado o voyeurismo de quem passa e também o desejo salvífico, de socorrer o ferido.
    Hoje, curioso o destino do flop comercial — é disso que tratamos neste episódio de No Escuro —, aquele filme que destruiu ou mudou carreiras, que levou companhias à falência, tornou-se um objecto de culto, amado e preservado com carinho.
    Desprezados na altura, são hoje tratados com desvelo. Filmes de culto, é como lhes chamam. Revisitamos as suas histórias neste episódio de No Escuro, começando pelo emblemático As Portas do Céu, de Michael Cimino, que não só fez do realizador praticamente um pária como pôs fim ao mais autoral período da indústria norte-americana. Ou, numa perspectiva da indústria, que em consequência disso se fechou, que se tornou mais conservadora: acabou com a arrogância dos realizadores!
    São estes "falhanços" que contamos, do insucesso de bilheteira ao verdadeiro desastre. É mais do que um vol d'oiseau, portanto, tendo em estúdio os sons e as histórias de Vertigo e de Do Céu Caiu uma Estrela, hoje objectos canónicos, mas na sua época ignorados pelos espectadores; de um clássico, A Noite do Caçador, que hoje vemos prostrados de admiração, mas que na sua época tornou Charles Laughton realizador de um só filme; de 1941-Ano Louco em Hollywood, que primeiro pôs à prova a fama de Spielberg como o realizador que transformava tudo em ouro; das derrocadas que varreram do centro da indústria Cimino, Bogdanovich ou o hoje esquecido John Byrum, que nos anos 80 chegou a ser um boy wonder; do primeiro fracasso que humilhou o até então sempre vencedor Schwarzenegger...; do odiado casal, porque visto como arrogante, Cybill Shepherd/Peter Bogdanovich.
    Por ordem de antiguidade, não pela ordem em que são referidos no podcast, eis os feridos:
    Queen Kelly (1928/29) Erich von Stroheim
    Do Céu Caiu uma Estrela (1946) Frank Capra
    A Noite do Caçador (1955) Charles Laughton
    Vertigo (1958) Alfred Hitchcock
    2001 Odisseia no Espaço (1968) Stanley Kubrick
    Daisy Miller (1974) Peter Bogdanovich
    Barry Lyndon (1975) Stanley Kubrick
    New York, New York (1977) Martin Scorsese
    1941 Ano Louco em Hollywood (1979) Steven Spielberg
    As Portas do Céu (1980) Michael Cimino
    The Shining (1980) Stanley Kubrick
    Do Fundo do Coração (1981) Francis Ford Coppola
    Blade Runner (1982) Ridley Scott
    O Fio da Navalha (1984) John Byrum
    Ishtar (1987) Elaine May
    O Último Grande Herói (1993) John McTiernan
    No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano). A sonoplastia é do Tiago Orato. #levantemoraboevaoaocinema
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    Há 100 novos títulos na Filmin. Excepção! Sem levantar o rabo, grande cinema

    14/08/2026 | 39min
    Há plataformas de streaming e plataformas de streaming. Algumas transformaram-nos em consumidores (sabem de quem se fala). Outras permitem que sejamos espectadores mesmo, curadores da nossa aventura.
    Vamos directos ao assunto. A Filmin renovou no início de Julho o seu catálogo com mais de 100 filmes. Estão lá títulos aclamados como Amadeus e Voando Sobre um Ninho de Cucos, de Miloš Forman, cineasta que vai ser objecto de uma retrospectiva no Batalha Centro de Cinema, no Porto, A Insustentável Leveza do Ser, de Philip Kaufman, A Costa do Mosquito, de Peter Weir, Ran, de Akira Kurosawa, O Último Ano em Marienbad, de Alain Resnais, Ser ou Não Ser, de Lubitsch, Cais das Brumas, de Marcel Carné ("t'as d'beaux yeux, tu sais"), O Relojoeiro de Saint-Paul, de Bertrand Tavernier, um dos seus mais belos mas razoavelmente desconhecido, ou Um Homem e Uma Mulher, de Claude Lelouch.
    Mas também os chamados "clássicos modernos", como Ghost Dog: O Método do Samurai, de Jarmusch, Virgens Suicidas, de Sofia Coppola, Um Coração no Inverno, de Claude Sautet, autor de uma "música" delicada que em surdina influenciou o cinema francês, Abril e Quarto do Filho de Nanni Moretti, o David Lynch de Mulholland Drive, O Homem Elefante e Uma História Simples, o Godard de O Acossado, Pedro, o Louco, Alphaville e O Desprezo, o John Carpenter de Eles Vivem, O Nevoeiro e O Príncipe das Trevas.​
    Começamos, No Escuro, por aqui: por um cineasta que pode ser simultaneamente glacial e comovente, Jean-Pierre Melville (O Círculo Vermelho, O Exército das Sombras, Bob, o Jogador e Cai a Noite Sobre a Cidade); pelo sortilégio do cinema de Luis Buñuel, realizador que, como quem não quer a coisa, derruba as resistências e descrenças do espectador, algo que se aproxima do verdadeiro hipnotismo (A Bela de Dia, O Charme Discreto da Burguesia e Este Obscuro Objecto do Desejo); por todo o Tati, o eterno e eternamente lúcido Sr. Hulot; pela passagem de Francis Ford Coppola para o "outro lado", One From The Heart e Apocalypse Now (e Os Marginais em versão integral); por Alain Delon, o actor com as mais belas mortes no cinema, e Patrick Dewaere, que talvez tenha morrido por causa do cinema.
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    Carlos Paião voltou! Trouxe os nossos fantasmas

    07/08/2026 | 40min
    Seguimos neste episódio o rasto de um cometa: Carlos Paião.
    Figuras da política ou do espectáculo como Mário Soares, Álvaro Cunhal, Snu Abecassis e Sá Carneiro, Doce e António Variações tiveram o seu biopic ou foram objecto de interesse de realizadores portugueses. Mas os anos 80 do século XX português nunca foram mostrados assim, como em Playback, de Sérgio Graciano. Tão tristes e melancólicos que nós (ainda) éramos.
    Comovente, isto: não é um filme sobre Carlos Paião (1957-1988); é um filme com Carlos Paião. Como uma presença que nunca desapareceu, que existe muito no fundo de nós, mas que talvez não soubéssemos que ainda vivia. Ou a nossa memória fez das suas, exerceu o seu capricho e imprimiu, antes, a "modernidade", a noite, a "movida", Portugal longe do Estado Novo e despedindo-se também da época revolucionária. A Lisboa de António Variações, por exemplo.
    Assim, existiu um de um lado e outro no extremo oposto. Mas só os dois formam o retrato completo.
    Porque é que uma figura tão provocadora, tão extravagante como Variações (1944-1984) foi entronizada depois da sua morte e Paião — que escreveu para Herman José e passou 12 canções a Amália (que só gravou O senhor extraterrestre), que venceu o Festival da Canção, que teve até aos seus 30 anos 300 canções na cabeça — permanece subterrâneo? Ou terá finalmente chegado a sua hora?
    Legendary Tigerman/Paulo Furtado acompanha-nos nestes pensamentos. Foi ele que trabalhou a banda sonora do filme — de que consta um inédito, Lisboa, Lisboa — e formou uma banda que tem como vocalista Rafael Ferreira, o intérprete de Paião no filme, que se apresentará em concertos no final do ano.
    Tão melancólicos, até sombrios, tão trapalhões e tímidos e tão desconfortáveis na nossa pele que nós éramos. Os nossos fantasmas: vemo-los em Playback.
    No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinema.
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