Este episódio foi gravado ao vivo na Livraria Buchholz, em Lisboa, no dia 28 de abril de 2026.
É precedido de um concerto de 15 minutos DELA!
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Agradeço à Joana Stichini Vilela, que me convidou para fazer este episódio ao vivo.
Ao acolhimento da livraria Buchholz, em particular à pessoa que faz a comunicação, que foi sempre tão querida comigo. Um abraço também à pessoa que está no som.
À Mariana Ideias, a DELA, que escreveu o lindo jingle do meu podcast. O álbum DELA está aí à venda, comprem!
Obrigada ao André, o meu marido, que faz apoio à pesquisa e à edição de texto. Este podcast não se faria sem o apoio das minhas amigas, dos meus amigos e da minha comunidade.
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POEMAS LIDOS
Num só dia na solitária viajo
Por todos os mapas e apeadeiros.
O tempo pairando como uma núvem
Por não ter também por onde escapar.
Foi para sobreviver ao isolamento
Que Deus inventou a imaginação_
Também ele projetou na cabeça
O riso da avó e foi afinando os axónios
Até à coincidência exata
Do tom da gargalhada com o brilho do olhar
Em vez de morrer aproveito para visitar
As casas onde vivi.
Cubro o betão da cela com a alcatifa verde
Do quarto de criança onde me brincava urso
Para superar outra solidão.
Digo o nome dos meus colegas de escola
Como se olhasse para a foto de grupo,
E ao sinal do seu nome cada qual acendesse
Uma luz dentro da cabeça.
Tenho tempo que baste para inventar
Uma vida para toda a gente e é
Por estes instantes sem corpo
Que troco os dias da minha vida,
Lembrando cores que aqui não há:
Os ecos azuis da porcelana da China
O branco dos olhos de um amigo meu
Todos os calores de uma buganvília
E dou como Adão os nomes aos animais
Novos nomes para as girafas,
Para pulgas e mosquitos
Para sobreviver a dias cheios de nada
Para fintar o nada sem ir à loucura
Para ganhar as sobras da minha vida.
Que quem encontre o caminho para a liberdade
tenha a fortaleza de reviver o ponto de partida
tenha a fortaleza de regressar mil vezes para guiar o próximo.
André Tecedeiro, A Arte da Fuga