O Tal Podcast

Paula Cardoso e Georgina Angélica
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    Raquel Lima: “Tendo um filho, é importante ele sentir que estou bem. Não dá para reproduzir a mãe estressada. Quero muito estar bem e feliz à volta dele”

    14/05/2026 | 53min
    Poeta, investigadora, arte-educadora e ativista, Raquel Lima é a primeira intelectual portuguesa, angolana e são-tomense galardoada com o Prémio Emma Goldman, recebido no último mês de março, em Viena de Áustria. A experiência, conta neste episódio de “O Tal Podcast”, permitiu-lhe refletir sobre merecimento, autocuidado e literacia financeira, e constatar como, independentemente de geografias, as mulheres partilham uma espécie de “síndrome da impostora coletivo”.
    Nascida em Lisboa, filha de mãe angolana e pai são-tomense, cresceu na margem sul do Tejo, entre uma infância marcada por precariedade, ruturas familiares e perdas precoces, que viriam a tornar-se matéria viva da sua escrita.
    A sua assinatura literária tem passado por vários formatos, tanto no spoken word, como através da academia. Publicou livros como “Ingenuidade, Inocência e Ignorância” e “Ululu”, e hoje trabalha também a partir da oratura, ligada às tradições africanas de transmissão oral.
    Fundadora da União Negra das Artes, tem vindo a pensar o coletivo como espaço de criação, mas também de desgaste. “Perceber o que o coletivo quer dizer é isto: não pode recair sobre uma, duas ou três pessoas que ficam sobrecarregadas”, nota, ao refletir sobre os limites do trabalho partilhado e a necessidade de abrandar sem abandonar a comunidade.
    Neste episódio, a conquista recente do Prémio Emma Goldman surge como ponto de inflexão. Distinção internacional atribuída em Viena, o prémio chega num momento de transição pessoal e abre espaço para uma reflexão sobre merecimento e autocuidado. Entre outras oito mulheres de geografias diversas, Raquel reconhece um “síndrome da impostora coletivo”, como se a dúvida sobre o lugar de cada uma fosse menos individual do que estrutural.
    “Ainda estou a processar”, diz, ao falar de uma distinção que mexe com a autoestima e com a forma como o trabalho é validado.
    Ao mesmo tempo, a artista revela que os 50 mil euros correspondentes ao prémio a fizeram questionar a relação com o dinheiro, e a importância da literacia financeira.Tudo de um lugar onde defende que aprender a receber é tão importante quanto aprender a cuidar.
    Raquel partilha também como a espiritualidade atravessa o seu percurso de forma central. “Eu acho que a nossa revolução só vai acontecer se a gente puser o espiritual aí dentro. Acho que a nossa batalha mesmo antirracista, feminista, é espiritual”, assinala, ao falar de práticas de espiritualidade de matriz africana que recuperou em adulta.
    Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
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    Ângelo Delgado: “A nacionalidade não vale por si só. Tens que ir provando que tens os mesmos hábitos. É aí que está a validação. Não é o bilhete de identidade”

    07/05/2026 | 54min
    Nascido em Portugal em 1981, ano em que a Lei da Nacionalidade entrou em vigor, o escritor Ângelo Delgado reflecte, neste episódio de “O Tal Podcast”, sobre a relação entre documentos e acolhimento. “Cresci num país que me via como alguém diferente”, diz o autor do romance “Foi o Preto”, obra lançada no início do ano, que espelha bem as fraturas raciais que continuam a dividir o país. “A nacionalidade não vale por si só”, sublinha.

    Escritor, leitor compulsivo e voz ativa na reflexão sobre identidade e racismo, Ângelo Delgado abre espaço, entre memórias, feridas e reconstruções, para uma conversa onde a escrita surge como refúgio, mas também como confronto. “É onde vomito aquilo que me vai na alma”, confessa, revelando um processo criativo profundamente íntimo e, muitas vezes, doloroso.

    No centro da conversa está “Foi o Preto”, obra construída a partir de vivências reais — suas, da família e de pessoas próximas. Mais do que um livro, é um exercício de exposição e catarse.

    “Tive de remexer nas minhas entranhas”, admite. O resultado é uma narrativa provocadora, que coloca o leitor diante do desconforto e o deixa, tal como o racismo faz, “num beco sem saída”.

    O autor revisitou uma infância marcada pela sensação de diferença. “Cresci num país que me via como alguém diferente”, recorda, apontando a escola como o primeiro espaço onde essa perceção se impõe, muitas vezes sem explicação, sem espaço para questionar.

    “A nacionalidade não vale por si só”, diz, sublinhando que o verdadeiro reconhecimento continua a depender de códigos invisíveis — hábitos, comportamentos, formas de estar.

    A conversa atravessa também as dinâmicas familiares e culturais que moldam o seu olhar sobre o mundo. Das mulheres cabo-verdianas, fortes, resilientes, frequentemente sobrecarregadas, às estruturas comunitárias que contrastam com o isolamento vivido na diáspora, há um constante movimento entre geografias e significados. “É como colorir memórias a preto e branco”, descreve, num processo de redescoberta da própria identidade.

    Pelo caminho, há ainda espaço para pensar o racismo para lá do discurso imediato, questionando a forma como ele é abordado publicamente, e defendendo a literatura como lugar essencial dessa reflexão. Porque, no fim, escrever não é apenas contar histórias: é dar sentido ao passado, reorganizar o presente e, talvez, encontrar alguma forma de liberdade.

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  • O Tal Podcast

    Cirila Bossuet: “O meu trabalho é emprestar o meu corpo. Tudo que eu tenho, eu dou”

    30/04/2026 | 54min
    Nomeada para os Prémios Sophia 2026, marcados para o próximo dia 15 de maio, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, Cirila Bossuet vai disputar a categoria de Melhor Atriz Coadjuvante, pela interpretação no filme “Banzo”, de Margarida Cardoso. A indicação, logo na sua primeira experiência no cinema português, evidencia a importância das oportunidades, um dos temas em destaque neste episódio de “O Tal Podcast”.
    Desde cedo habituada a um ambiente familiar intenso e cheio de vida, foi no silêncio que encontrou o seu lugar. Antes de subir a palco, Cirila Bossuet era a criança que observava e apreciava o silêncio. Hoje, é nesse mesmo equilíbrio, entre interioridade e exposição, que constrói uma carreira marcada pela entrega total à arte de representar.
    Neste episódio de “O Tal Podcast”, a atriz revisita um percurso que começou quase por acaso: seguiu uma amiga para o teatro sem imaginar que ali encontraria a sua voz. “Não fazia ideia do meu tom, do que o meu corpo era capaz”, conta, descrevendo o teatro como um portal de autoconhecimento que lhe permitiu ocupar espaço, falar mais alto e sentir que a sua opinião importa.
    Se a descoberta artística foi inesperada, as raízes estavam lá desde sempre. Filha de bailarinos fundadores do Ballet Nacional de Angola, Cirila cresceu rodeada de expressão artística, embora só mais tarde tenha feito essa ligação. A história familiar, marcada pela migração forçada e pela reconstrução em Portugal, trouxe consigo uma palavra-chave: responsabilidade. E com ela, o desejo profundo de honrar o percurso dos pais.
    Entre múltiplos projetos simultâneos, exaustão física e a instabilidade da profissão, Cirila fala abertamente sobre os desafios de viver da arte em Portugal. Do “veneno da comparação” ao ritmo avassalador de Lisboa, a atriz descreve um meio onde “há sempre a sensação de que se deveria estar a fazer mais”. Ainda assim, resiste, criando distância ao viver fora da cidade, em Sintra, onde encontra o seu “ninho” e o silêncio necessário para se reconstruir.
    A conversa abre ainda espaço para uma reflexão crítica sobre a falta de oportunidades no cinema e na televisão portugueses, onde, lamenta a atriz, “vemos sempre as mesmas caras”. Deixa, por isso, um apelo por processos mais justos e inclusivos.
    Ouça a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso aqui.
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    Rita Évora dos Santos: “Uma coisa que as mulheres têm é empatia. A minha mentora, que me trouxe às finanças sistémicas, diz: cada mulher que encontro traz-me notícias de mim”

    23/04/2026 | 59min
    Licenciada em Gestão, e empresária há mais de uma década, Rita Évora dos Santos transformou as aprendizagens num programa de mentoria exclusivo para mulheres, e focado em finanças sistémicas. Uma abordagem que desenvolve a partir do entendimento de que “o dinheiro é emoção”, conforme partilha neste episódio de “O Tal Podcast”, em que sublinha a importância das crenças e padrões familiares na relação com a área financeira, e partilha como Cabo Verde lhe devolveu o sorriso.
    Todos os cêntimos contam, por isso, mesmo a moeda mais pequena deve ser valorizada, defende Rita Évora dos Santos. “Não vim de um sítio com dinheiro, tive que o ganhar. E hoje respeito todo o tostão. Se vejo um cêntimo, apanho”, diz a convidada desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso.
    Filha de uma empregada de limpeza e de um trabalhador da construção civil, a gestora conta que aprendeu com os pais o sentido de sacrifício.
    “Vou fazer o que tiver que ser feito para me manter intacta”, garante, dando como exemplo a forma como conduz o seu negócio.
    “Tenho uma empresa de gestão de alojamentos, mas o nosso core também são limpezas. Se tiver que limpar um apartamento, sou a primeira”.
    Além das lições que traz da infância, nomeadamente que pobreza não é sinónimo de indignidade, e que o básico é o essencial, Rita partilha como a experiência empresarial tem sido formativa.
    “Limpámos as nossas poupanças para empreender”, revela, recuando aos primórdios da sua aventura empresarial, iniciada com o ex-companheiro, há mais de 10 anos.
    Hoje mentora de finanças sistémicas, a empresária conta que chegou a ter a conta ordenado a negativo – “Então, muitas vezes saía à meia-noite do trabalho, e às sete da manhã estava a limpar um escritório” – antes de encontrar a sua ‘fórmula’ de poupança.
    “Há pessoas que com aquilo que têm fazem uma vida digna, e há pessoas que estão enrascadas, porque somos influenciados por muitos viciozinhos. Vivemos num mundo de consumismo”.
    Sem ceder às inúmeras pressões de compra, Rita explica como se foi ‘libertando’.
    “Quando acabei de comprar o carro, continuei a pôr [dinheiro] de parte. Quando aluguei a casa, tinha o Porta 65, e aquilo que me deram pus de lado, como se estivesse a pagar a renda por completo. E ganhei este hábito”.
    A partir do que tem vivido, a empresária pretende apoiar outras mulheres na sua gestão financeira. “Quando conheço as finanças sistémicas, percebo que o dinheiro é emoção”, afirma, convicta da importância de manter o foco feminino do seu trabalho.
    “Uma coisa que as mulheres têm é empatia. A minha mentora, que me trouxe às finanças sistémicas, diz: cada mulher que encontro traz-me notícias de mim”, partilha a empresária neste episódio de “O Tal Podcast”, em que revê as próprias reconstruções emocionais.
    “Vim de Cabo Verde super apaixonada por mim, porque conheci uma Rita que não via há mais de 20 anos, que sorri só porque sim. O meu sorriso estava apagado e voltou”.
    O processo de transformação, revela a empresária, implicou uma mudança de vida completa.
    “Saí da relação em que estava, e vi-me sozinha pela primeira vez. Na altura até isolei-me um bocadinho, passei por uma tristeza, até perceber que a tristeza também é boa. E comecei a abraçá-la, e a abraçar-me”.
    Mais do que isso, Rita garante que renasceu: “Passei a olhar para mim e a gostar, a perceber que não são os outros que me veem. Sou eu que tenho de me ver primeiro. Isso tornou-me ainda mais bonita”.
    Ouça a conversa na íntegra aqui.
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    Marco Aurélio Mendes: “As lideranças estratégicas cada vez mais serão entregues a mulheres. Isto é uma revolução que África irá viver nos próximos anos”

    16/04/2026 | 1h 12min
    O convite para pisar o palco da TEDxLuanda deu um novo rumo à vida de Marco Aurélio Mendes. Filho de angolanos, nascido no Algarve, o gestor e empreendedor conta, neste episódio de “O Tal Podcast”, o que o levou a trocar Portugal por Angola, há quase 15 anos. Nesta conversa, recorda também como sobreviveu a uma malária muito grave, encontrou na adoção uma nova forma de olhar o mundo, e se tornou aprendiz e mestre de liderança.
    O título do livro é provisório – “Sonhalidade” – e, antecipa Marco Aurélio Mendes, nele caberão os primeiros 50 anos da sua história de vida, demarcada pela “linha que separa o sonho da realidade”. Ainda em fase de “rabisco-sarrabisco”, conforme o gestor pré-cinquentão faz questão de assinalar, a autobiografia apresenta 2016 como um ano de renascimento.
    De volta a esse período, o convidado desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso recorda os efeitos de uma malária muito grave. “Estive três meses no hospital, perdi um pouco da audição, cabelo, 18 quilos, e toda a massa muscular. Acho que só fiquei a 100% dois anos depois”.
    A experiência, com passagem por 10 dias de coma induzido e sessões de hemodiálise, impulsionou velhos planos familiares.
    “Se Deus me deu uma segunda oportunidade de cá estar, achei que devia dar corpo a este sonho: entrámos no processo de adoção”.
    Juntamente com a mulher, Nancy, Marco, à época já pai de Francisca, tornou-se também pai de Alexandre, e, mais recentemente, de David.
    “Vou no terceiro filho, e todos me fizeram mudar”, nota o empreendedor, lembrando uma das primeiras lições que recebeu quando decidiu adotar.
    “Uma coisa que a psicóloga nos disse é que não se escolhe. Escolhe-se uma mercadoria, as crianças sinalizam-se”.
    É também ao círculo familiar que o convidado deste episódio de “O Tal Podcast” vai buscar uma das aprendizagens mais estruturantes da sua liderança.
    “Mal cheguei [a Luanda], estava a criticar a equipa e o meu pai disse: ‘não te esqueças que, quando chove, a rua de boa parte destas pessoas vira um rio. Se calhar algumas meninas tiveram que ir buscar água para tomar banho. É importante que penses nisso”.
    Mais do que refletir, Marco começou a questionar quem são os trabalhadores que tem a responsabilidade de gerir.
    “Onde e como vivem? Porque se vivem oito pessoas dentro de um quarto, o sono não é tranquilo”, diz, por um lado; enquanto, por outro, observa: “Comecei a perceber que era complicado desenhar um caminho a três anos, quando a pessoa ao meu lado só está a pensar em como consegue 200 Kwanzas para ir para casa”.
    Cada vez mais atento a quem o rodeia, o gestor transforma as experiências de liderança em conversas, integradas no podcast “Performance 360”.
    “Muitas empresas acham que construir ADN é ir buscar os quadros da concorrência que já trabalham bem”, aponta, questionando a estratégia: “Vais trazer o ADN da concorrência, e não constróis o teu?”.
    Confiante no potencial do denominado continente-berço, que apresenta como “o diamante da Humanidade”, Marco Aurélio Mendes considera que “as lideranças estratégicas cada vez mais serão entregues a mulheres”, num movimento que vê como “uma revolução que África irá viver nos próximos anos”.
    Qual será o papel de Angola nesta transformação?
    Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
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Sobre O Tal Podcast
Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião, com autoria de Georgina Angélica e Paula Cardoso.
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