148 episódios
Orlando Piedade: “A muitas das pessoas que se vangloriam de pertencer a uma raça pura, diria que por volta de 1500, 10% da população de Lisboa era africana. Essa população não desapareceu, misturou-se”
05/11/2026 | 52minOrlando Piedade é um engenheiro informático com alma de historiador. Nascido em 1974, em São Tomé e Príncipe, é através da escrita que procura concretizar o seu propósito: amplificar a voz dos marginalizados, recuperando histórias muitas vezes apagadas. Distinguido no início do ano com o Prémio Almada Negreiros pelo livro “Oeiras, Algés e Dafundo, Memórias de uma Geografia Negra”, o convidado deste episódio d’ “O Tal Podcast” acaba de publicar a epopeia “Portugal Preto - o Trilho dos Invisíveis”, um dos temas da conversa.
Depois de lançar “O Amor Proibido”, “Os Meninos Judeus Desterrados” e “Escravos e Homens Livres”, Orlando Piedade prepara-se para publicar o seu quarto romance histórico, guiado pelo fascínio por episódios pouco conhecidos do passado. “Fico obcecado à procura de qualquer coisa que nunca ouvi e nunca vi ninguém falar”.
A Área Metropolitana de Lisboa faz parte dessa busca, recentemente vertida para a obra “Oeiras, Algés e Dafundo, Memórias de uma Geografia Negra”, que no início do ano foi distinguida com o Prémio Literário INCM – Almada Negreiros, da Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
“Oeiras e Algés Dafundo, há um século, eram consideradas terras de pretos, porque tinham grandes quintas e propriedades de senhores que empregavam fileiras de africanos”, conta o escritor, que começou por explorar episódios pouco conhecidos do seu país natal.
“Ao aperceber-me de que a história de São Tomé e Príncipe era a menos divulgada entre os países africanos de expressão portuguesa, vi uma oportunidade. Pesquisei desde o século XV ao século XVIII, e procurei saber como é que aquele xadrez foi montado”.
Curioso confesso, e obcecado por aquilo que ninguém conhece, Orlando Piedade não esconde que a descoberta de episódios históricos também traz consigo emoções difíceis de gerir.
Ao longo da conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, fala não só do trabalho de investigação, mas também da forma como aquilo que encontra acaba por moldar a sua própria visão: “O mesmo facto recolhe várias sensibilidades. Eles moldam a minha posição. Às vezes vou sentir-me horrorizado com aquilo com que me deparo ao longo da minha pesquisa”.
Um desses encontros com o passado teve um impacto particularmente profundo. Durante a escrita do romance “Os Meninos Judeus Desterrados” - que conta a história de como 2000 crianças judias castelhanas foram separadas dos pais e enviadas para São Tomé e Príncipe para povoar as ilhas - Orlando Piedade percebeu que a filha tinha a mesma idade daquelas crianças. A constatação provocou-lhe um “ataque de choro” que o deixou bloqueado na escrita durante três meses.
Acabou por recuperar, sem nunca perder a vontade de dar voz aos que não tiveram poder para contar a sua própria história, algo que considera essencial para compreender os guetos e as comunidades marginalizadas de hoje.
“Estamos perante uma parte dos invisíveis, pessoas remetidas para os guetos pelas suas condições sociais. Podemos começar a contar esta história em 1444 até chegar aos nossos dias, e conseguimos definir o perfil de quem foi parar às Covas da Moura, aos 6 de Maio, às Jamaicas”.
Reivindicando a importância de questionarmos o que aprendemos, e de conhecermos a nossa história para sabermos quem somos e para onde vamos, Orlando Piedade relembra os mitos à volta da pureza racial que, nos dias de hoje, voltam a ganhar adeptos. “A muitas das pessoas que hoje se vangloriam de pertencer a uma raça pura, dir-lhes-ia que por volta de 1500, segundo os cronistas da época, 10% da população de Lisboa era africana. Essa população não desapareceu: misturou-se, está entre nós”.
Já sobre a relevância de dar visibilidade a estas histórias, o escritor defende que “muitas vezes o grito não é falar mais alto, é procurar o local certo para falar”.
Crente na bondade das pessoas, na camaradagem e na força das ideias para a criação e a partilha, Orlando Piedade vê nessas manifestações a verdadeira “intervenção divina”, em oposição ao Deus contado na Bíblia: “Se esse Deus existe, ele anda muito distraído”, nota.
Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
See omnystudio.com/listener for privacy information.Yara B. Chidiamassamba: “Uma pessoa pode fazer a diferença, mas se todos nos unirmos, podemos amplificar cada vez mais o impacto que queremos causar nas nossas comunidades”
29/10/2026 | 48minDesde cedo habituada a quebrar barreiras, Yara Benedito Chidiamassamba aprendeu com os pais que pode ser o que quiser. Foi assim que, aos 10 anos, ousou aventurar-se no desporto, mundo que, na sua infância, ainda era profundamente masculino. Pouco mais de uma década depois, sagrou-se campeã mundial de Tang Soo Do por Moçambique, o seu país de nascimento, onde coloca a formação em Arquitetura ao serviço de uma cidade para viver e partilhar, ao mesmo tempo que leva consciência humana ao conflito em Cabo Delgado. De passagem por Portugal, no âmbito do projeto GirlMove Academy, conversou com “O Tal Podcast”.
Incapaz de ficar quieta, Yara Benedito Chidiamassamba encontrou no desporto uma forma de se manter em movimento e no Tang Soo Do mais do que uma arte marcial, um modo de vida, que “associa treino físico, espiritual e mental”. Uma combinação que, defende a moçambicana, é uma via de autoconhecimento e de ignição da consciência coletiva.
“O Tang Soo Do não é sobre violência. É sobre te poderes defender, estares seguro de ti, daquilo que tu és, defender a tua família, a tua sociedade e país”.
Incentivada desde cedo a superar expectativas, Yara conta que em Moçambique, o seu país de nascimento, “as raparigas não são tão incentivadas a praticar desporto quanto os rapazes”.
Apesar das barreiras de género, a convidada deste episódio d’ “O Tal Podcast” não só conseguiu sagrar-se campeã mundial de Tang Soo Do, em 2012, como foi a única da delegação moçambicana a levar uma taça para casa, nesse ano.
Cerca de 15 anos depois do título, a mentalidade vencedora de Yara está consolidada como um dos seus principais cartões de visita.
Arquiteta de formação, ainda durante a faculdade criou a plataforma Maquetheia, com a qual dinamiza workshops para crianças, usando maquetes para promover o direito à cidade e estimular uma consciência urbana.
Empenhada na intervenção cívica, Yara acabou por ser selecionada para o programa da GirlMove Academy, dedicado à liderança feminina e empreendedorismo social, etapa fundamental para assumir o desafio que se seguiu: trabalhar em ajuda humanitária.
Foi assim que, em 2021, trocou Maputo por Cabo Delgado, região que enfrenta, desde 2017, um conflito armado que provocou milhares de mortes e deslocou mais de um milhão de pessoas. Através do VAMOZ — Voluntários Anónimos de Moçambique —, tem escutado e apoiado pessoas afetadas por este conflito: “As comunidades sentem-se esquecidas por estarem tão longe. O mais marcante para mim é podermos chegar lá, e apoiar as pessoas com o pouco que temos”.
Também em Cabo Delgado, Yara está envolvida num projeto que aposta no bambu para abrir novos caminhos aos agricultores locais. A ideia é transformar esta planta numa fonte de rendimento, criando oportunidades económicas para as comunidades enquanto se promove uma relação mais sustentável com o ambiente.
Na liderança de várias frentes, a convidada deste episódio d’”O Tal Podcast” considera que “a liderança é poder ser uma referência para alguém que também quer ser líder”. É esta visão que leva para o movimento Manas, que reúne mais de 300 jovens mulheres moçambicanas ligadas à educação, ao desporto e ao empreendedorismo. “Uma pessoa pode fazer a diferença, mas se todos nos unirmos, podemos amplificar cada vez mais o impacto que queremos causar nas nossas comunidades”.
Ouça aqui a conversa com Paula Cardoso e Georgina Angélica.
See omnystudio.com/listener for privacy information.Yonara Mateus: "Achava que tinha medo de errar, mas percebi que o que me assustava era acertar e não saber lidar com o sucesso”
22/10/2026 | 51minNa infância fez do dicionário companheiro de brincadeiras e acabou por se tornar a menina das palavras bonitas. Mais tarde, a vontade de cantar as músicas de Whitney Houston deu-lhe o impulso para aprender inglês, língua que se tornou ferramenta de trabalho. Hoje, Yonara Mateus desenvolve o projeto The English Affair, inicialmente focado no ensino do idioma de Shakespeare, e entretanto alargado a aulas de português para estrangeiros. Mais recentemente, aventurou-se na publicação do livro “Da boniteza das coisas”, com o qual iniciou uma trilogia em homenagem à sua ancestralidade feminina, em particular à sua avó Rosa.
Nascida em Angola, em 1983, Yonara mudou-se aos nove anos para Portugal, para fugir à guerra civil que assolava o seu país. Ao “O Tal Podcast”, revela uma infância marcada por um sentimento de não pertença, que a acompanhou até à idade adulta. De tal forma que a pergunta sobre onde seria, afinal, a sua terra nunca a abandonou: em Portugal, sentia-se rejeitada por ser negra; em Angola, para onde regressou aos 29 anos e viveu durante cinco, deparou-se com olhares moldados pelo colorismo, a partir da sua condição de “mulata”.
Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, Yonara conta que alimentava a expectativa de contribuir para a mudança e melhoria das condições de vida em Angola, quando decidiu voltar, mas acabou por perceber que as soluções para os desafios locais teriam de ser construídas por quem os vivia mais de perto.
A experiência angolana também lhe permitiu desconstruir novas camadas da sua identidade, num caminho que culminou na capacidade de encontrar morada dentro de si. “Demorou quase 43 anos para chegar a esta conclusão de que a casa que eu procuro não é um lugar externo, um edifício, um país ou a minha dupla nacionalidade. É um mundo que tenho cá dentro e ao qual pertenço”.
Em pequena, conta Yonara, era a criança que estudava o dicionário. Conhecida como a menina das palavras bonitas, foi através da tentativa de compreender o significado das letras das músicas de Whitney Houston que despertou a sua paixão pelo inglês. Essa relação com as línguas viria também a definir o seu percurso profissional: em 2013, fundou a The English Affair, uma escola dedicada ao ensino personalizado de inglês e português, onde procura criar experiências de aprendizagem mais humanas, flexíveis e ajustadas a cada pessoa: “Este gosto que tenho pelas línguas não era partilhado por toda a gente. Pelo contrário, para algumas pessoas era um sofrimento. É para essas pessoas que eu trabalho”.
Entre a comunicação, o ensino e a escrita, há um fio condutor no seu percurso: a vontade de compreender o que nos torna humanos, e de encontrar formas mais autênticas de estar no mundo. Embora olhe muitas vezes para a vida e para o estado do mundo com desesperança, é na boniteza de ser que Yonara tem aprendido a encontrar o seu lugar, procurando sempre superar-se, mesmo perante os obstáculos que encontra pelo caminho.
Foi também a escuta da sua intuição e a valorização da sua voz interior que a guiaram na criação do seu podcast ‘A Dor da Borboleta', projeto que reflete o seu próprio processo de transformação e a sua busca por uma maior humanidade e beleza, numa metamorfose constante, como a das borboletas.“Tudo o que tenho feito nos últimos anos para colocar a minha voz no mundo e sair do meu casulo tem nascido de um pedido cheio de amor, e de que é necessário dar voz àquilo que trago dentro de mim. Há pessoas que precisam de ouvir e eu própria preciso de o fazer para me transformar”.
Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
See omnystudio.com/listener for privacy information.Bia Ferreira: “O amor, o afeto e a gentileza me curaram. A alegria é a maior forma de subversão num mundo que naturaliza o ódio”
15/10/2026 | 1h 5minEm Portugal, para apresentar o álbum “Améfrica”, que a 31 de outubro sobe ao palco do Centro Cultural de Paredes, a cantora e compositora brasileira Bia Ferreira partilha, neste episódio d’ “O Tal Podcast”, a alegria que marca esta fase da sua carreira, depois de um início marcado pela dor. Hoje dona do próprio selo discográfico, a também ativista está nomeada para um Grammy Latino, mas faz questão de sublinhar que não corre atrás de prémios. “A minha meta é construir um legado que daqui a 100 anos inspire meninas negras do Brasil, através da minha arte”.
Ouça a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
See omnystudio.com/listener for privacy information.Welket Bungué: “Cresci a ouvir do meu pai que, para ter uma oportunidade igual à dos meus pares, teria de trabalhar a 300%. Isto diz muito sobre a ideia de meritocracia”
08/10/2026 | 1h 14minAtor, realizador e artista multidisciplinar, o guineense-português Welket Bungué é o convidado deste episódio d’ “O Tal Podcast”, no qual se cruzam as diferentes geografias, linguagens artísticas e cinematografias que marcam o seu percurso. Profissionalmente dividido entre Portugal, a Alemanha e o Brasil, Welket tem integrado várias produções internacionais, destacando-se o papel em “Crimes of the Future”, de David Cronenberg, que chegou à competição oficial do Festival de Cannes, mas não o projetou junto da imprensa portuguesa.
A espiritualidade e a procura de um maior conhecimento de si próprio ganharam um lugar central na sua vida. Depois de uma experiência traumática vivida em 2023, no Rio de Janeiro, Welket iniciou um processo mais profundo de autoconhecimento, aproximando-se de diferentes tradições filosóficas, espirituais e conhecimentos ancestrais.
Ao “O Tal Podcast”, fala sobre a reprogramação da mente, a intuição, a oração, a gratidão e a importância de reconhecer tanto a luz como a sombra que existem em cada pessoa. “Quando se trabalha para ascender espiritualmente, isso implica agir conscientemente, praticar atos de bondade, às vezes sacrificando-te pelos outros, e isolares-te para meditar e ouvir o teu coração, o teu Eu Superior - essa mente universal e cósmica que pode dialogar connosco quando estamos em silêncio.”
Para o convidado desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso, “o tempo é espiralar, circular e multidimensional”, e a forma como o vivemos não pode ser dissociada da cultura, do lugar, e da nossa própria compreensão de identidade. Questionando a lógica da produtividade associada às oito horas de trabalho, Welket defende a necessidade de recuperar tempo para cuidarmos de nós.
É também a partir do seu próprio percurso que olha para o mundo artístico português. O esforço necessário para conquistar as oportunidades que lhe chegaram, a entrada no Conservatório e, mais tarde, a chegada a Cannes fizeram-no repensar a ideia de meritocracia e aquilo que está, ou não, ao alcance de um artista negro em Portugal. “Para ter uma oportunidade igual à dos meus pares, teria de trabalhar a 300% e não apenas a 100%”, afiança.
Aliás, mesmo depois de integrar o elenco principal de um filme de David Cronenberg em competição oficial em Cannes, sentiu que o reconhecimento em Portugal ficou aquém do que esperava. Hoje, aponta que um dos problemas do país é “a incapacidade de absorção do talento dos filhos e das filhas que são produzidos neste território.”
Entre a experiência e a transformação, Welket encontra na arte uma forma de transmutar o que viveu e de o devolver aos outros, ao mesmo tempo que vai demarcando o ofício de ator, da sua missão de vida. “A missão é perceber como, através do teu ofício, alavancas o que há de melhor nos outros.”
Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
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