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Paula Cardoso e Georgina Angélica
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    Cláudio Gonçalves: “Pessoas de sucesso nos bairros sociais há muitas, que conseguiram vencer e sair. Só que é necessário que voltem atrás e digam: vou ensinar, empoderar os outros para conseguirem também”

    19/03/2026 | 1h 8min
    Manequim com carreira internacional, que tem no currículo campanhas para gigantes da moda, como Dolce&Gabbana, Gucci, Prada e Louis Vuitton, Cláudio Gonçalves não esquece de onde veio. “Os bairros sociais e as comunidades imigrantes foram o planeta onde cresci e o princípio de tudo”, conta neste episódio de “O Tal Podcast”, em que recorda as privações da infância – transformada a partir da adoção –, e revela como o sucesso nas passerelles o inspira a transformar vidas.
    Nas ruas da Cova da Moura cabia todo o mundo de Cláudio Gonçalves, até ser retirado da família. Tinha cerca de seis anos, e dava nas vistas pela infância errante, denunciada pelos vizinhos à Segurança Social.
    “A minha mãe tinha três trabalhos e só a conseguia ver uma vez por semana, se tanto. Eu vivia com a minha avó, que era alcoólica”, recorda o manequim, que chegou a roubar para comer.
    Hoje manequim de sucesso, o convidado de Georgina Angélica e Paula Cardoso rejeita endeusamentos e romantizações.
    “Estou sempre a dizer: eu não sou especial, eu tive toda uma quantidade de recursos, uma educação diferente, que me meteram na posição em que estou. Isso é que mudou a minha vida: ter acesso a coisas que um jovem num bairro social não tem”.
    Com um início de história marcado pela separação da família, Tibunga, como também é conhecido, conta que antes de ser adotado pela sua antiga professora, agora mãe, chegou a um ponto em que “já nem sabia se estava melhor na rua ou na instituição”.
    Além das lutas diárias em que as crianças se envolviam, Claúdio revisita o sistema de abusos. “Tinha um trabalho de escravo, a descascar batatas de manhã à noite, a cavar campos e fazer 30 por uma linha. Coisas a que uma criança daquela idade [seis anos] não devia ser submetida”.
    O ambiente de violência, agravado pela austeridade religiosa que o regia, assemelhava-se a “um campo de concentração”, compara o manequim, lembrando que, ali, as vidas encolhiam.
    “Dormíamos num contexto de prisão, em camas individuais de ferro, em que cada um tinha uma gaveta, daquelas de mesa de cabeceira. Tinha lá dentro uma foto da minha mãe, uns berlindes, e pronto. A nossa existência era aquela gaveta”.
    Sem nunca perder de vista as marcas do passado, Cláudio constrói, no presente, um caminho para abrir novos futuros.
    “Há uma limitação nos sonhos dentro dos bairros sociais, em que os meninos querem sempre ser futebolistas ou aquele estereótipo que já se conhece”, nota o manequim, empenhado em transformar essa realidade.
    “Se não fosse a minha mãe a resgatar-me daquela instituição, provavelmente ficava lá até os 18 anos, nunca teria sido modelo, estava a trabalhar numa caixa registadora qualquer. Sabendo isto, é minha obrigação voltar para trás e dizer: vou mostrar a um Cláudio de agora que é possível, e vou lhe dizer como é possível”.
    O compromisso social ganha expressão em bairros das periferias de Lisboa, onde o manequim identifica um enorme potencial de mudança.
    “Pessoas de sucesso nos bairros sociais há muitas, que conseguiram vencer e sair. Só que é necessário que voltem atrás e digam: vou ensinar os outros para conseguirem também”.
    Enquanto inspira e influencia mudança, o manequim aponta igualmente para outros voos. “Um dos meus sonhos de vida é voltar para África, criar um império e empoderar as pessoas. Gostava muito que fosse em Cabo Verde”.
    Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
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    Kai Fernandes: “O contraste entre o meu corpo feminino, de mulher biológica, com esta expressão da masculinidade define-me muito bem”

    12/03/2026 | 56min
    Vislumbrou na Psicologia uma tábua de salvação da própria dor e acabou frustrado, admite Kai Fernandes, o convidado desta semana de “O Tal Podcast”. Entretanto reconciliado com a sua área de estudos, o psicólogo percebeu, a partir do início da prática clínica, que teria de se ajudar para conseguir ajudar. Das feridas da adoção, aos traumas do racismo, a que se junta o processo da transição de género, a identidade de Kai representa, para muitas pessoas, a única via de reconhecimento. “Existem poucos psicólogos como eu: negro, trans, jovem, e que vive as não monogamias”.
    Estávamos em 2020, quando o assassinato de George Floyd confrontou Kai Fernandes com as próprias sombras. “Percebi que não havia mais espaço para ignorar o impacto que o racismo tinha na minha vida”, recorda o psicólogo, de volta ao facto marcante que o levou a criar a página “Quotidiano de uma negra”, no Instagram.
    “Era muito raro ter contacto com outras pessoas negras. Ter sido adotado por pessoas brancas, e ter crescido num espaço inteiramente branco se calhar atrasou o processo de encontrar a minha identidade”, conta o terapeuta.
    Noutro momento decisivo da sua história, vivido em 2023, numa viagem à Tailândia, o psicólogo começou a perceber em si uma desconformidade entre identidade de género e sexo biológico.
    “As pessoas falam muito do feminino e do masculino. E às vezes tenho dificuldade em encaixar-me nessa ideia binária. Daí a não binariedade, daí a ideia de transgénero”.
    Hoje, e já depois de outro 'voo de reconhecimento' em direcção a Banguecoque, Kai não tem dúvidas sobre a sua afirmação.
    "Sinto uma liberdade muito grande quando me expresso de uma forma masculina, porque me permite criar uma masculinidade que acredito que possa realmente ser uma mudança no mundo".
    Distanciado dos modelos de masculinidade que se habitou a observar enquanto crescia, o psicólogo sublinha a importância de quebrar padrões tóxicos.
    "Há momentos em que sinto saudades de meter uma maquilhagem ou usar uma roupa mais feminina”, diz, libertando-se da necessidade de encaixar em normatividades.
    "O contraste entre o meu corpo feminino, de mulher biológica, com esta expressão da masculinidade define-me muito bem”.
    Negro, trans, jovem, e muito interessado no território das relações não-monogâmicas, Kai encontra nas suas expressões identitárias a explicação para a diversidade de pertenças e geografias que recebe em consultório.
    "Muitas pessoas querem ter alguém do outro lado, na terapia, que tenha uma semelhança com elas. Há muitas coisas na minha identidade que são a representação dos meus clientes", assinala, sem romantizações.
    "A minha experiência não é representativa da maior parte das pessoas trans. As pessoas que me são próximas, no geral, acompanharam a minha transição. Senti muito acolhimento”.
    Além do papel desempenhado por quem o rodeia, Kai destaca a influência dos lugares.
    “Banguecoque foi o sítio onde eu passei a ser quem eu era e ninguém me questionou. Nem por ser negro, nem por me vestir de uma forma masculina. Ninguém me estranhou. Isso teve um poder gigantesco”, reconhece.
    Ouça aqui a conversa completa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
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    Amina Bawa: “Falo, brincando e com muita humildade, que nós brasileiros viemos do futuro. Tudo o que Portugal vai passar [politicamente], a gente já viu”

    05/03/2026 | 1h 3min
    Enquanto o Brasil vivia o conturbado processo de afastamento da então Presidente Dilma Rousseff, Amina Bawa encontrava, em Portugal, uma espécie de “oásis” político. Estávamos em 2016, e o mestrado em Cultura e Comunicação abria as portas para uma nova casa. Dez anos depois da mudança, a jornalista e produtora cultural partilha, neste episódio de “O Tal Podcast”, o seu olhar sobre as transformações políticas em curso em Portugal, além de refletir sobre fronteiras raciais, familiares e académicas.
    Apresenta-se como “100% brasileira e carioca”, mas faz questão de acrescentar ao cartão-de-visita genético 50% de herança nigeriana. “O meu pai deixou o Brasil quando eu era muito nova. Fez a licenciatura, mestrado, doutoramento, e voltou para a Nigéria, [o seu país]”, adianta Amina Bawa, que, já depois dos 20 anos, recuperou a ligação ao lado paterno.
    O contacto, desde o falecimento do pai transferido para os tios, ‘alimenta-se’ com comunicações regulares, prelúdio de uma viagem – ainda por concretizar – ao encontro das origens africanas.
    Para já, porém, os planos de voo cumprem-se, com crescente intensidade, entre Portugal e o Brasil.
    Habituada a transitar entre os dois lados do Atlântico, a jornalista e produtora cultural tornou-se uma inesperada conselheira de viagens.
    “Dou muitas orientações a pessoas que querem vir para Portugal estudar”, diz a carioca, que, a partir da sua experiência de mestrado, começou a facilitar aprendizagens.
    As recomendações não se restringem, contudo, ao mundo académico, embora ele seja palco de muitas vivências.
    “Tive professores dizendo: ‘hoje, vocês, investigadores, usam de uma vertente muito pessoal para falar e trazem isso para a academia. E eu pensava: que ótimo! É maravilhoso quando eu falo de mim, não do outro”.
    Atenta às fronteiras que comprimem os trabalhos de pesquisa, Amina recorda, nesta conversa, o desconforto de querer “falar de pessoas pretas que estão sendo felizes, e que são bem-sucedidas dentro dos seus negócios”.
    Ainda no domínio da academia, a carioca assinala que “há uma diferença muito grande entre o Brasil e Portugal”. Desde logo, nota a jornalista, “a gente fala muito da negritude, mas como é que a gente estuda quem criou esse conceito?”.
    Para já, a resposta vem apenas do outro lado do Atlântico, onde se criou o Observatório da Branquitude.
    Por cá, seguimos com as observações da convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso, também voltadas para as relações afro-brasileiras.
    “No Brasil, tudo está muito conectado com África, mas a gente não conhece, é uma África que está muito no imaginário. E quando venho para Portugal, tenho um embate com as realidades africanas, o que é maravilhoso”.
    Noutros “choques” de realidade, partilhados neste episódio, Amina revisita eleições de má memória – “Falo, brincando e com muita humildade, que nós brasileiros viemos do futuro. Tudo o que Portugal vai passar [politicamente], a gente já viu” – , e traumas de viagem.
    “Não tenho medo de viajar sozinha, mas na Hungria já fui perseguida, quase sequestrada. Eles sequestram muitas mulheres para o tráfico sexual”.
    Ouça a conversa completa aqui.


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    Ana Josefa Cardoso: “Na escola, não aprendemos só a ler, a escrever e a contar, porque o professor não ensina só o que sabe, também ensina o que é”

    26/02/2026 | 59min
    Aos cinco anos, na pré-primária, em Cabo Verde, Ana Josefa Cardoso tinha dores de barriga só de pensar em falar português. Hoje faz do ensino da ‘língua de Camões” profissão, enquanto mantém vivo o idioma materno. “A língua que une efetivamente todos os cabo-verdianos é o crioulo”, sublinha neste episódio de “O Tal Podcast”, em que reflete sobre o papel da escola e do professor, num contexto cada vez mais desafiante.
    O ano de 1993 marca o início da carreira docente de Ana Josefa Cardoso, caminho que, mais de três décadas depois, continua a percorrer com o mesmo sentido de missão. “A tarefa do professor é inacabada. Um professor a sério é um eterno aprendiz”, destaca nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, lembrando que cada aluno é único.
    Desde sempre empenhada em valorizar e acolher a diversidade humana, a professora revela como forjou o seu compromisso com a inclusão a partir dos próprios processos de exclusão.
    “Fui para a pré-primária com 5 anos, em Cabo Verde, e foi o meu primeiro contacto com o português. Os alunos eram castigados por não falarem uma língua que não sabiam, e não tinham tido a oportunidade de aprender”.
    A experiência deixou marcas, indissociáveis da consciência pedagógica entretanto formada, igualmente moldada no ‘apagão’ que esvaziou as lembranças do primeiro ano de escolarização em Portugal.
    “Enquanto não falava português, entrava muda e saía calada [da escola]”, recorda a também investigadora, hoje consciente de que talvez o silêncio tenha sido o meio que encontrou para passar despercebida, e não se tornar alvo de chacota por causa do sotaque.
    Com ou sem memórias desse período, Ana Josefa nota que a escola pode ser o primeiro local de confronto com “o conflito, o desânimo, as frustrações”. Aliás, acrescenta a professora, talvez venha desse reconhecimento – e da vontade de oferecer a proteção que não teve –, uma das motivações para ter escolhido o ensino.
    A opção, iniciada no ensino da Língua Portuguesa, estendeu-se ao ensino e investigação da Língua Cabo-Verdiana, mais recentemente alargado a lições de português como língua não-materna.
    “Os tempos vão mudando, o público é mais diverso, os desafios são maiores a todos os níveis. Se a escola não estiver aberta à mudança, não consegue ser hospitaleira”, defende, atenta ao impacto dos novos fluxos migratórios e linguísticos, bem como às transformações tecnológicas.
    “Temos que ter propostas para que as nossas aulas sejam aliciantes para todos. Por isso digo que o professor tem de ser um eterno estudante, porque precisa de se atualizar para dar resposta aos novos desafios”.
    Às vezes, assinala a docente, basta ativar a empatia. “Lembro-me da professora que tive a partir do 2.º ano: a dona Benvinda. Eu ia de lenço [na cabeça] para a escola, e ela levava o seu lenço ao pescoço e, várias vezes, pedia-me para lhe pôr como punha o meu”.
    O episódio é partilhado como um exemplo concreto do papel que a Educação deve assumir. “Na escola, não aprendemos só a ler, a escrever e a contar, porque o professor não ensina só o que sabe, também ensina o que é”.
    Ouça a conversa completa aqui.
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    ROD: “O futuro é queer. Queer é esse confronto, esse contraste, essa luta sem fim, essa tentativa de desencaixar de expectativas, de ter 50 anos, mas parecer ter 20”

    19/02/2026 | 1h 1min
    Saiu de casa dos pais ainda criança, para estudar numa cidade maior, onde morou com os tios até começar a viver sozinho, quando tinha apenas 14 anos. Hoje com cinco décadas de história, Rodrigo Saturnino, ou simplesmente ROD, conta, neste episódio de O Tal Podcast, como os seus primeiros anos de vida se inscrevem numa trajetória “mais comum do que parece”. Mas se o passado do pesquisador e artista visual encontra eco noutras narrativas oriundas do interior do Brasil, o presente solta-se de expetativas alheias, e o futuro apresenta-se ainda mais livre. Assumidamente queer.
    A história de vida de Rodrigo Saturno começou a cerca de 7.600 quilómetros de Lisboa, na pequena localidade de Jequitibá, localizada no estado brasileiro de Minas Gerais.
    Desde 2007 em Portugal, o convidado de Georgina Angélica e Paula Cardoso soma cerca de 16 anos de academia portuguesa – entre estudos de mestrado, doutoramento e pós-doutoramento –, percurso marcado por várias investigações sobre o mundo digital.
    É a partir dele que conserva, há quase duas décadas, os afetos familiares, ainda hoje fortemente enraizados na sua terra de nascimento, que descreve, afetuosamente, como uma “cidadezinha minúscula”.
    “Jequi, como a gente fala, tem 5 mil habitantes”, aponta o pesquisador e artista visual, precocemente habituado a gerir distâncias: “O meu senso de independência foi muito prematuro”.
    Desde os 10 anos longe da casa dos pais, de onde se mudou para morar com os tios e “poder receber melhor educação”, o cofundador do Coletivo Afrontosas e da União Negras das Artes, revela que embora tenha começado a desbravar caminho sozinho muito cedo, contou sempre com a supervisão parental.
    Além de revisitar, com assumido orgulho, algumas das principais etapas do seu percurso – onde se inclui a criação de uma faixa com a polémica frase “Não foi descobrimento, foi matança” –, ROD aborda, nesta conversa, como está a lidar com o avançar da idade.
    “Todo o mundo fala ‘você não parece que tem 50’. Aí pergunto: o que é parecer ter 50 anos? Ser velho, barrigudo, que desistiu da vida, entregou tudo?”.
    Contrariando eventuais expetativas, o convidado deste episódio de O Tal Podcast adianta que, nesta fase, se sente “mais livre” de qualquer pressão para encaixar dentro dos comportamentos associados à idade.
    Talvez resida aí um jeito queer de ser e de estar?
    “O queer tem essa característica de ser diferente. É outra coisa, outro universo, outra leitura do mundo. É outra explicação das coisas”, defende, perentório na antevisão de que “o futuro é queer”.
    Em que sentido?
    “Queer é esse confronto, esse contraste, essa luta sem fim, essa tentativa de desencaixar de expectativas, de ter 50 anos, mas parecer ter 20”, explica, sem nunca perder de vista as múltiplas camadas que o atravessam.
    Das provações da imigração, que põem em choque processos de integração e assimilação, passando pelas expressões de racismo na academia, nos algoritmos e outras tecnologias, a conversa termina com um breve olhar sobre as lições que ficam de um passado de estudos religiosos.
    “Tenho aprendido que a espiritualidade não tem que ser doutrina, não tem que ser litúrgica. Mas tem que existir nessa relação com o mundo invisível”.
    Ouça aqui a conversa completa.
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Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião, com autoria de Georgina Angélica e Paula Cardoso.
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