Partindo da máxima que diz que é pecado matar uma cotovia, Francisco Mota Saraiva e João Dinis põem de lado as armas e a sua genial pontaria, propondo-se, contudo, a serem precisos a derrubar o preconceito e a salvarem todas essas aves que têm apenas por propósito cantarem-nos belas melodias.
Narrado com a singularidade da voz de uma criança, “Mataram a Cotovia” (1960), de Harper Lee, livro frequentemente alvo de censura, seja pela sua abordagem ao racismo e aos direitos civis, à violência sexual, à desigualdades sociais, ou pelo uso de calão e expressões cruéis, faz-nos regressar ao tempo anterior à formação do conceito – à infância, à inocência, à pureza; ao que está precisamente no início do caminho percorrido desde o conceito até ao preconceito.
Infelizmente, quando a injustiça acontece – quando essas coisas más acontecem! – parece que só as crianças é que choram e que os adjectivos não são suficientes para amenizar a dureza dos substantivos.
De chorar por mais é também o pipiar inadjectivável do espumante servido neste episódio: um Murganheira, Grande Reserva, bruto, de 2006, impossível de qualquer juízo de censura.