Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação
Ana Isabel Ramos

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52 episódios
- Olá!
Dou-vos as boas-vindas a este episódio do podcast "Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação".
Este ano lectivo foi exigente.
Hmmm, não, acho que “exigente” não é suficiente para descrever o que foi este ano lectivo que terminou há um par de semanas. Foi mesmo, mesmo muito exigente.
Neste episódio mencionamos:
“Crecer con Placer”, da Nayla Norryh
Desenhamos Juntas, a sessão semanal em que desenhamos em diário gráfico, umas com as outras.
Conectar para Liderar(-me)
Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação é um podcast de Ana Isabel Ramos, designer, ilustradora, autora de livros e mentora de criatividade em www.airdesignstudio.com e no Instagram como @air_billy.
Se não queres perder nenhum episódio, poderás subscrever a newsletter para os receberes semanalmente na tua caixa de correio.
E se algo neste episódio vibrou dentro de ti, partilha-o com as pessoas da tua vida que poderão também encontrar um eco nestas confissões. Um passo de cada vez, recuperaremos do perfeccionismo e abraçaremos a fluidez para trazermos à superfície o melhor de nós.
Créditos: “Cover Girl” de Beat Mekanik
Podcast
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Dou-te as boas-vindas a mais uma confissão de uma super-perfeccionista em recuperação, um podcast sobre perfeccionismo, criatividade e empoderamento.
Nestas confissões, vou partilhar contigo os altos e baixos do meu longo caminho de recuperação do super-perfeccionismo.
Se também tu tens vontade de deixar para trás a excessiva exigência contigo própria, soltar o perfeccionismo e abraçar a criatividade que tens dentro de ti, quer te consideres uma pessoa artística, quer não, então fica aqui nas “Confissões”.
Olá e sejam bem-vindas a este episódio de “Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação”.
Este ano lectivo foi exigente.
Hmmm, não, acho que “exigente” não é suficiente para descrever o que foi este ano lectivo que terminou há um par de semanas. Foi mesmo, mesmo muito exigente.
Olho para trás e vejo que foi um ano com muitas coisas positivas, e até pareço mal agradecida por dizer que foi um ano exigente. Na verdade, não tivemos problemas de saúde, nem tivemos mortes na família, felizmente. Mas foi um ano muito exigente ao nível da sobrecarga, entre responsabilidades profissionais e familiares. Foi mesmo pesado.
E porque é que vos quero contar isto? Porque esta sobrecarga nos levou a operar no limite, enquanto família, e me levou ao limite, a nível pessoal. E o limite não é terreno seguro para operar, nem para crescer, nem muito menos para tomar decisões.
Este ano, dei conta que a minha capacidade tinha limites concretos, que antes intuía que existiam, mas que este ano me senti a tocar. A agenda não estica, a minha energia também não. Por causa desta questão de operar no limite, creio ter cometido mais erros que nunca, ou pelo menos assim pareceu. Entre pequenas gralhas e alguns embaraços, percebi que estava tão cansada que precisava do dobro do tempo para fazer a mesma coisa que antes: para a fazer, e depois para a rever, com o máximo de cuidado, para ter a certeza de que não deixava passar nada. Mas deixei, e nem vos conto a quantidade de gralhas e de erros, felizmente inconsequentes, que cometi. Mas adiante.
Nesta forma de operar no limite, acontece-me depois ser ainda mais difícil desligar. Sei que preciso de descansar, sei que tenho de criar bolsas de oxigénio para o fazer, mas mesmo assim, custa-me. E então o que acontece é que invento mais um projecto ou outro para fazer ao fim-de-semana, quando deveria tirar pelo menos um par de horas para cultivar o nada e desfrutar do vazio. Este ano, ao fim-de-semana, para além das domesticidades habituais de Sábado e Domingo, ainda consegui inventar mais um projecto: a “batalha da mulher contra a humidade”! Não sei se é o vosso caso, mas sei que deve ser o caso de muitas de nós, a avaliar pela quantidade de publicidade a produtos anti-bolores, mas a minha casa este inverno ficou coberta de manchas de humidade, por muito que a arejasse todos os dias. E a mim, as manchas de humidade encanitam-me os nervos. Vai daí, como não andava já com muita ocupação e exausta, ainda por cima, vai de ainda me pôr a limpar tectos e paredes nesta tentativa inglória de combater o bolor.
Enfim, não é fácil contrariar a minha natureza de formiguinha trabalhadeira e simplesmente parar para descansar.
Até que um dia, por acaso um sábado, vou de me sentar na cama para me levantar e… o mundo parecia rodar sem parar. Cansada como estou, pus-me a fazer uma revisão mental de possíveis causas para aquela tonteira sem parar. Estaria bêbada, sem saber? Não estava. Teria comido alguma coisa com glúten, sem saber? Não me doía a barriga. O que se estaria a passar?
Quando me levantei, senti que dentro da minha cabeça havia qualquer coisa que não parava de girar. O que me ocorreu imediatamente é que a minha cabeça parecia uma bola de petanca. Sabem aquele jogo tipo “malha”, jogado com bolas? Em que jogamos as bolas para o mais próximo possível de uma bola mais pequena que serve de referência? Sentia a minha cabeça assim, como se dentro dela estivesse uma outra bola mais pequena, a flutuar nos sucos do meu cérebro, uma bola que não parava de rodar em sentido contrário ao meu movimento.
Confesso-vos: ainda que completamente inofensivo, foi uma sensação muito desconcertante. Nesse dia, não me apeteceu comer e só me sentia bem de cabeça apoiada e olhos fechados. Não tinha dores, mas tinha um desconforto geral digno de ser arrumado na pasta dos desconfortos que não matam, mas moem.
Fui ao médico e fiz uma série de exames que mostraram que não passa de síndrome vertiginoso, cristais e cenas no ouvido, etc e tal, e que é espoletado, pelo menos no meu caso, por exaustão.
Com cada dia que passa, sinto mais e mais que cada uma de nós veio ensinar aquilo que precisa de aprender, e é curioso como quando eu não percebo estas mensagens de forma subtil, elas vêm e esfregam-me a sua realidade na cara. Felizmente, desta vez esta aprendizagem foi na forma de tonturas, o que, convenhamos, sendo chato, também não é o fim do mundo.
Mas felizmente foi suficiente para perceber o que preciso de perceber, e que ensino em todas as minhas formações, do Desenhamos Juntas ao Conectar para Liderar(-me): que devemos cuidar de nós sem que seja preciso ficarmos doentes.
No Desenhamos Juntas, cultivamos o momento de pausa consciente: às segundas-feiras à hora de almoço, soltamos uma respiração colectiva e fazemos exercícios de desenho, que é como quem diz, brincamos com os pincéis e as cores da aguarela. E mantemos essa prática regular, porque é fundamental manter estes hábitos higiénicos de forma consistente. E sim, tal como temos de lavar os dentes depois das refeições, de forma consistente, para manter a saúde oral, também nos dedicamos uma sessão semanal de desenho em conjunto, num círculo protegido, para tratarmos da nossa higiene mental. No caso, a de regularmos a voz do crítico interno para fazer espaço e abrir largura de banda para nos reconectarmos com a nossa criança interior.
No Conectar para Liderar(-me), o meu programa principal, com doze semanas de duração e que terá início no último trimestre do ano, fazemos um mergulho mais profundo para dentro de nós, para melhorar a relação com o nosso crítico interno, cuja voz muitas vezes nos impede de ouvir a nossa criança interior.
E porque é que é importante ouvirmos a nossa criança interior? Porque ela é a guardiã de todos os nossos sonhos e desejos, e é a guardiã da nossa criatividade. E porque uma vida com maior conexão com a nossa criança interior é uma vida mais satisfatória, mais alegre, mais colorida, mais plena.
O que eu aprendi com este ano é que o que me trouxe até aqui já não resulta para a próxima etapa da minha vida. A minha energia já não é a mesma, a minha capacidade cognitiva também não, e por isso sei que tenho de descansar muito mais do que o que precisava até aqui. Sei também que preciso de criar mais bolsas de oxigénio na minha vida, pausas conscientes que me façam cortar com o ramerrame do dia-a-dia, para poder descansar, por um lado, e para poder ganhar distância e perspectiva e poder tomar decisões mais estratégicas para poder trabalhar menos, mas melhor. E preciso de optimizar processos, tanto a nível profissional como a nível pessoal e familiar, para que consiga obter o mesmo resultado de uma forma um pouco mais eficaz, ou com menos passos.
Mas atenção: acho que estas mudanças são boas, são ambiciosas, mas não pensem que são fáceis ou automáticas. Conto com muito apoio, de várias frentes, e às vezes preciso de aprender com quem já sabe. E nada como aprender com quem já atravessou o mesmo terreno. Nesse sentido, este ano fiz uma formação maravilhosa com a minha mentora de negócios, a Nayla Norryh, chamada “Crecer con Placer”. Nesta formação, aprendi uma série de coisas sobre trabalhar menos, mas melhor, com mais foco e com mais presença, cuidando sempre a minha energia. No fundo, a formação veio mesmo em pleno furacão – e pergunto-me como teria sido este ano lectivo se não a tivesse feito. Provavelmente, muito mais cansativo e desgastante.
Também quero poder criar um espaço para ajudar outras mulheres cansadas, e é nesse espírito que nascem as minhas formações. O Conectar para Liderar(-me), que terá inscrições abertas em Outubro, é esse espaço de eleição para mulheres cansadas que desejam viver a próxima etapa da sua vida de maneira diferente, com menos desgaste e mais desfrute, com uma relação melhor consigo mesmas (e com o seu crítico interno) e com mais espaço para conhecerem os seus verdadeiros sonhos e desejos. Estou desejosa de partilhar este programa convosco – as novidades vão chegar depois da pausa estival do mês de Agosto.
Até lá, contem-me: como foi este ano lectivo para vocês?
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Dou-vos as boas-vindas a este episódio do podcast "Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação".
No episódio anterior, um episódio de celebração por ser a quinquagésima Confissão e o primeiro aniversário deste podcast, já vos dei um lamiré do tema de que hoje vos quero falar. Lá no meio de todas as celebrações, contava-vos que uma das coisas que adoro sobre ter um podcast é que estou mais atenta às pequenas coisas da vivência do dia-a-dia.
Neste episódio mencionamos:
O Guia passo-a-passo para começar (e continuar!) a desenhar todos os dias
Desenhamos Juntas, a sessão semanal em que desenhamos em diário gráfico, umas com as outras.
Conectar para Liderar, o meu programa de grupo para mulheres que desejam voltar a reconectar-se com a sua criatividade, quer tenham inclinação artística, quer não.
Onde podem subscrever o podcast para serem as primeiras a saber quando há novos episódios.
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Créditos: “Cover Girl” de Beat Mekanik
Podcast
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Nestas confissões, vou partilhar contigo os altos e baixos do meu longo caminho de recuperação do super-perfeccionismo.
Se também tu tens vontade de deixar para trás a excessiva exigência contigo própria, soltar o perfeccionismo e abraçar a criatividade que tens dentro de ti, quer te consideres uma pessoa artística, quer não, então fica aqui nas “Confissões”.
Olá e sejam bem-vindas a este episódio de “Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação”.
No episódio anterior, um episódio de celebração por ser a quinquagésima Confissão e o primeiro aniversário deste podcast, já vos dei um lamiré do tema de que hoje vos quero falar. Lá no meio de todas as celebrações, contava-vos que uma das coisas que adoro sobre ter um podcast é que estou mais atenta às pequenas coisas da vivência do dia-a-dia. As coisas grandes são relativamente fáceis de identificar: acabar uma formação e certificar-me como coach de equipas foi uma grande coisa do mês de Junho. Mas a vida faz-se mais com as pequenas coisas do que com as grandes coisas, e estar atenta aos detalhes, dar-lhes espaço para ser, é um dos aspectos mais interessantes, para mim, de escrever um blog, digo, de ter um podcast.
Quando em 2006 abri o meu primeiro blog, o “Entre Lisboa e Buenos Aires”, estava a mudar-me de cidade, e chegar a uma cidade nova, num país novo, num continente novo para mim, era material mais que suficiente para escrever. À medida que os posts e os anos se foram acumulando, fui puxando da lupa e observando cada vez mais os detalhes. Reparar em pequenas coisas, sensações, ocorrências, e depois passa-las ao papel, que no caso era um computador, passou a ser um dos meus passatempos favoritos. E, com a repetição da escrita, fui afinando a minha voz e o meu olhar.
Hoje, com este podcast, sinto o mesmo prazer de escrever e de reparar nas coisas pequenas que me ocorrem e que me rodeiam. E hoje, quero falar-vos de uma dessas pequenas coisas que sucedeu bem dentro da minha cabeça e do meu corpo, e apesar de aparentemente pequena, para mim significa um enorme progresso neste caminho de recuperação do super-perfeccionismo.
Confesso-vos: o processo criativo costumava ser sofrido. Para fazer o “Livro do Não”, por exemplo, levei anos, sendo que uma parte desses anos foi com o projecto parado, dentro da gaveta e a ocupar largura de banda, sempre a pesar dentro da minha cabeça. Dei por mim muitas vezes completamente paralisada: por um lado, com um desejo enorme de avançar com o livro, quase a sentir uma comichão na ponta dos dedos, tal a vontade de o fazer. E, ao mesmo tempo, com um enorme peso na barriga, um enjoo físico de cada vez que pensava em sentar-me à mesa para o continuar. Nessa altura, para superar este impasse, defini para mim uma meta: a primeira meia hora de cada dia de trabalho seria dedicada ao livro. Se o processo estivesse a ser aflitivo, só teria de o aguentar durante meia hora, e depois podia deixá-lo até ao dia seguinte.
Muitos dias houve em que essa meia hora pareceu três anos; outros dias houve em que a meia hora passou num sopro, e em vez de meia hora trabalhei duas ou três, sem sequer reparar.
Mas lembro-me bem da sensação de paralisia provocada pela pressão do perfeccionismo. Por alguma razão, achava que tinha de optimizar o tempo e isso significava que tinha de ficar bem à primeira tentativa.
Ora quem trabalha em áreas artísticas sabe que a primeira tentativa é só uma primeira tentativa, e que às vezes as coisas se deslindam num instante, e outras vezes há em que temos de tentar duas, três, ou mais vezes, fazendo e desfazendo, até encontrar a linguagem visual que desejamos.
Entretanto, em Abril de 2024 o “Livro do Não” ficou acabado, avançou para a gráfica e no final de Maio desse ano finalmente segurei esse bebé metafórico nas minhas mãos. Foi um processo que me ensinou muito e tenho imenso carinho por este meu primeiro livro.
Entretanto, também em 2024, comecei a facilitar as sessões de Desenhamos Juntas. Nessa altura, com o nome de Diário Gráfico Vibrante, estas sessões semanais num círculo protegido começaram a ser um momento muito importante para mim. Com a passagem do tempo, dei por mim a relacionar-me de maneira diferente com o meu crítico interno. Primeiro, comecei a observar mudanças subtis nas coisas que o meu crítico me dizia. Depois, comecei a notar que essas coisas que me dizia tinham menos impacto em mim. Fiquei atenta e curiosa: não sabia que esse seria um benefício de desenhar em conjunto com outras mulheres. Na verdade, pensei que iríamos praticar o desenho, que iríamos desfrutar do momento de brincadeira e de jogo com as cores, pensei até que iríamos praticar soltar o controlo e o perfeccionismo usando pincéis, cujo resultado é mais difícil de controlar do que, por exemplo, o de um lápis de cor.
Pensei tudo isso, mas não pensei que a voz do crítico interno cada vez me afectaria menos. Não desaparece por completo, aliás até já baptizei essa voz dentro da minha cabeça com o nome de “Dona Rosete”, mas faço-lhe menos caso. Sinto-me infinitamente mais livre para a ouvir e não ligar do que antigamente.
E isso traz-nos à nossa conversa de hoje: estava eu em grande azáfama a preparar um conjunto de ilustrações para submeter a um concurso, sentindo que provavelmente o tempo seria curto para fazer todas as ilustrações que gostaria, mas desfrutando de cada um dos detalhes, quando dei por mim não em stresse nem em agonia, mas sim a divertir-me.
Foi muito divertido criar as personagens, atribuir-lhe características visuais, dar-lhes cor e forma. Foi muito divertido pôr as personagens nas diferentes circunstâncias e dotar cada desenho de pequenos detalhes aqui e ali que traziam surpresa e contavam mais um pedacinho da história, quase como um segredo dentro da história. Dei por mim a sentir aquela fluidez que tantas vezes desejamos, e poucas vezes conseguimos, sobretudo se somos perfeccionistas.
No seu todo, e apesar do muito trabalho que tive, foi um processo de muita alegria, leveza, deleite. Foi uma maravilha.
O mais surpreendente para mim foi constatar isto: que me estava a divertir, que cada tentativa era um prazer, que cada caminho que experimentava era feito com curiosidade, quase que numa brincadeira. Não senti pressão, e não me pus pressão a mim própria. Pensei para mim que apresentaria as ilustrações que tivesse prontas e com as quais estivesse satisfeita, e mergulhei em cada uma delas para fazer de cada uma a melhor ilustração possível.
Isto, em 2023, ou ainda antes, quando tinha o “Livro do Não” entre mãos, era impensável para mim. Esta ideia de fazer da exploração das formas e das cores um jogo, uma brincadeira, uma tentativa, era um conceito que eu conhecia com a cabeça, mas não conhecia na prática, com o corpo.
E a que é que atribuo esta mudança? A tanta coisa, mas quero destacar duas práticas que acho que marcam um antes e um depois: por um lado, a prática consistente de desenho acompanhada, no Desenhamos Juntas. Por uma qualquer razão mágica que não sei exactamente descrever, quando partilho com o grupo aquilo que a minha Dona Rosete me está a dizer, as suas palavras perdem força. No fundo, sinto que perdem o impacto que têm em mim.
O outro ponto que quero destacar é a importância de chamar a minha criança interior para vir brincar, sempre que é altura de criar algo de novo. No fundo, a minha criança interior está cheia de vontade de criar algo do nada, de fazer desenhos, escrever textos, enfim, de brincar. E então eu convido-a a vir, e digo-lhe, digo-me, para retirar a pressão, que vamos brincar e que vamos fazer o primeiro rascunho. Não vamos fazer a versão final, vamos só fazer o primeiro rascunho, e depois logo se vê aonde iremos a partir dali.
Então, olhem, constatar esta leveza, esta alegria no processo, é das coisas mais valiosas que me levo de todo este caminho de recuperação do super-perfeccionismo. Transformar a agonia em prazer é algo que muito aprecio, e que espero poder continuar a reproduzir nos processos criativos do futuro.
Se ainda não conhecem o Desenhamos Juntas, a sessão de desenho às 13h de segunda-feira, para a melhor pausa de almoço do mundo mundial, então deixar-vos-ei o respectivo link nas notas deste episódio. Ah, e se acharem que precisam de uma ajuda para começar a desenhar, deixo-vos também o link para o guia gratuito para começar (e continuar!) a desenhar todos dias.
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Dou-vos as boas-vindas a este episódio do podcast "Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação".
Esta semana, quero fazer uma mini pausa para celebrar duas coisas: coisa “número A”, como dizia um amigo meu, é que este é o episódio número 50. Mal posso acreditar que já vamos no episódio 50. Claramente, o tempo voa, e o tempo voou em matéria “podcastiana”. A coisa “número B” que temos para celebrar é que este episódio faz um ano!
Neste episódio mencionamos:
Level Up, formação da mentora de negócios Nayla Norryh
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Olá e sejam bem-vindas a este episódio de “Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação”.
Esta semana, quero fazer uma mini pausa para celebrar duas coisas: coisa “número A”, como dizia um amigo meu, é que este é o episódio número 50. Mal posso acreditar que já vamos no episódio 50. Claramente, o tempo voa, e o tempo voou em matéria “podcastiana”.
A coisa “número B” que temos para celebrar é que este episódio faz um ano! Mais uma coisa que me custa a encaixar e a assimilar, mas é mesmo assim. Há um ano e uns pozinhos atrás, na Primavera de 2025, estava a fazer uma formação maravilhosa dada pela minha mentora de negócios favorita, a Nayla Norryh, e nessa formação, que se chama Level Up e cujo link vou pôr nas notas de episódio, tivemos o maravilhoso módulo de comunicação.
Neste módulo, a Nayla frisa a importância de ter um canal central de comunicação que não dependa de terceiros. Ou melhor, que não dependa tanto de terceiros, como é o caso de uma conta de Instagram, em que estamos sempre à mercê do algoritmo e onde muita gente já viu a sua conta ser bloqueada ou mesmo atacada por hackers.
Voltando então à ideia do canal central, para mim era óbvio que o meu podcast seria em formato áudio. Podem estar a perguntar-se porquê, mais a mais quando sabemos que o vídeo está em alta, que os podcasts em vídeo crescem mais, que o YouTube distribui mais o conteúdo dos criadores do que outras plataformas, etc etc. Mas para mim o áudio é algo muito especial. Ouço podcasts em áudio há muito tempo, e adoro o formato intimista. Ouço podcasts quando faço tarefas em que não preciso de produzir discurso, por exemplo, quando estou a desenhar ou a fazer ilustrações. E ouço podcasts quando vou nos transportes públicos, a caminhar pela rua ou a fazer os meus treinos de corrida. A ouvir podcasts, sinto que estou numa realidade paralela, uma redoma em que estou só eu e a pessoa que me está a segredar ao ouvido. E eu adoro essa sensação de ter alguém a segredar-me ao ouvido, mais ainda quando ouço conversas interessantes ou temas em que aprendo imenso.
E por isso, criar um podcast áudio foi uma evidência, foi quase uma não-decisão.
E, sabem? Escrever estes episódios é das tarefas que mais adoro fazer no meu negócio. Fazem-me lembrar do prazer que tinha, há atrasado, de escrever posts no meu blog “Entre Lisboa e Buenos Aires”. Se não sabem do que falo, o “Entre”, como carinhosamente lhe chamava, foi um blog que criei na plataforma blogger nos idos de 2006, quando estava a viver entre Lisboa e Buenos Aires, e depois me mudei definitivamente para lá.
Viver numa cidade diferente já dá matéria prima mais que suficiente para escrever um blog, e eu aproveitei-a com um prazer enorme. Não sabia, mas descobri que adorava estar atenta ao que me rodeava e às coisas que aconteciam à minha frente e transformar essas vivências, grandes e pequenas, mas sobretudo as pequenas, em crónicas que partilhava com o mundo.
Nesse tempo dourado dos blogs, em que o que as pessoas escreviam era quase um diário íntimo, era um prazer conhecer outras pessoas através daquilo que escreviam, entrar um pouco no seu mundo e desfrutar de ir viajando por outras cabeças e outras paisagens.
Neste último ano, em que os meus posts de blog têm uma versão áudio – esta que vocês estão a escutar – tenho sentido esse mesmo prazer dos blogs de antigamente. E, sobretudo, tenho aprendido muito.
É curioso que o facto de estar a aprender e de continuar a aprender muito com a escrita regular deste podcast me venha surpreender. É que, bem vistas as coisas, eu já tenho outras actividades regulares – como o diário gráfico – em que noto a evolução só pela repetição.
Ainda assim, fico surpreendida com os efeitos inesperados deste exercício de criar e escrever episódios para estas “Confissões”. Primeiro, noto que a repetição me traz maior capacidade de observação. Estou mais atenta à matéria prima de que é feito um podcast. Por exemplo: noutro dia, estava eu a fazer umas ilustrações para um concurso, dei por mim zero angustiada e a desfrutar muitíssimo do processo criativo. Isto, para mim, é uma relativa novidade, porque se recuar uns anos até à criação do “Livro do Não”, que publiquei em 2024, lembro-me bem do sofrimento que foi tomar algumas decisões criativas. Quando percebi que estava a desfrutar do processo, pensei: “tenho de escrever um episódio sobre isto.” E, como tal, fiquem atentas ao episódio 51, que será precisamente sobre esse tema.
Outro benefício que noto e que muito valorizo é que esta repetição me tem ajudado a encontrar e a afinar o vocabulário para vos contar sobre o meu trabalho, a minha missão e como isso se traduz nas formações que dou. Há um ano atrás, falava da minha missão como a de acompanhar mulheres conscientes que desejam voltar a conectar-se com a sua criatividade interior. O que, segundo o especialista de marketing que vive cá em casa, poderia alienar as mulheres que não se consideram criativas.
(Faço aqui um pequeno parêntesis para dizer que acho que somos todas criativas, mesmo as mulheres que não se consideram criativas, porque acredito que todas somos capazes de relacionar duas informações díspares de uma maneira nova. Para mim, isso é a criatividade. Por vezes, esta junção de dois pedaços de informação tem uma manifestação artística; muitas vezes, não tem manifestação artística, mas nem por isso é menos criativa. Fecho parêntesis.)
Retomando: há um ano, falava do fio condutor que une todas as minhas propostas formativas como praticar a reconexão com a criatividade que já temos dentro de nós. Hoje em dia, vejo que o trabalho é um pouco mais amplo: por um lado, recuperamos a conexão com a nossa criança interior – que é a guardiã da nossa criatividade e dos nossos sonhos e desejos mais profundos – mas também modulamos a relação com o nosso crítico interno, que é uma parte de nós que nos quer proteger mas que, se lhe fizermos demasiado caso, acaba por nos limitar, e inclusivamente obstaculizar essa relação que queremos manter em banda larga com a criança interior.
Apesar de ter estado sempre a falar da mesma coisa – da reconexão com a criança interior – tenho a sensação de que fica mais fácil compreender os benefícios das minhas formações usando esta imagem das diferentes partes, em vez de falar directamente sobre criatividade.
Para além de ir afinando a comunicação, penso que o mais importante benefício da escrita regular deste podcast é perceber que estamos sempre, sempre a evoluir. E a escrita destes episódios é um micro-movimento nessa desejada evolução, ao mesmo tempo que é uma pausa consciente para fazer o balanço de onde estou. E acho que isso faz parte da sua magia: ser pausa e movimento ao mesmo tempo.
Para a minha cabeça, sempre formatada para ver o que falta, este é um exercício maravilhoso de olhar para trás e ver o que já andei. Mas também gosto de olhar para o futuro: não é tanto pensar no que falta fazer (falta tanta coisa, felizmente, senão a vida não teria o mesmo interesse), mas sim pensar de que forma me irei surpreender daqui a um ano, quando olhar para trás e vir todo o caminho que, entretanto, percorri.
Antes de terminar este episódio, quero deixar-te um pedido e uma palavra de agradecimento. Este podcast é um exercício meu de comunicação contigo, e se não houver ninguém desse lado, é um exercício de comunicação vazio. E por isso faço-te o pedido: partilha o episódio com alguém do teu círculo a quem achas que possa interessar este processo de reconexão com a criança interior e de modulação da voz do crítico interno. Se puderes, põe estrelas (muitas estrelas!) na app de podcasts, deixa um comentário nos episódios e partilha-os nas redes sociais. Assim, estarás a dizer aos muitos algoritmos que este podcast fala de temas que são relevantes, e assim poderemos chegar a mais mulheres que desejam melhorar a sua relação com o crítico interno e reconectar-se em banda larga com a sua criança interior.
E antes de terminar, quero agradecer-te: por estares desse lado, por ouvires as minhas confissões e por as partilhares com as tuas pessoas. Este podcast só cresce com a tua ajuda e só faz sentido contigo desse lado.
Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação é um podcast de Ana Isabel Ramos, designer, ilustradora, autora de livros e mentora de criatividade em airdesignstudio.com e no Instagram como @air_billy.
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Dou-vos as boas-vindas a este episódio do podcast "Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação".
Hoje começo com uma confissão. Afinal de contas, é de confissões que este podcast trata, e hoje é por aí que começamos.
Estava completamente bloqueada a olhar para o ecrã de computador e sem nenhuma ideia para escrever este episódio. Nenhuma. Nenhuma mesmo. Dentro da minha cabeça, uma suave brisa a circular sem bater em nada. Porque não havia nada.
Neste episódio mencionamos:
“I am remarkable”, workshop da Google
Guia gratuito para começar (e continuar) a desenhar todos os dias.
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Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação é um podcast de Ana Isabel Ramos, designer, ilustradora, autora de livros e mentora de criatividade em www.airdesignstudio.com e no Instagram como @air_billy.
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Créditos: “Cover Girl” de Beat Mekanik
Podcast
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Dou-te as boas-vindas a mais uma confissão de uma super-perfeccionista em recuperação, um podcast sobre perfeccionismo, criatividade e empoderamento.
Nestas confissões, vou partilhar contigo os altos e baixos do meu longo caminho de recuperação do super-perfeccionismo.
Se também tu tens vontade de deixar para trás a excessiva exigência contigo própria, soltar o perfeccionismo e abraçar a criatividade que tens dentro de ti, quer te consideres uma pessoa artística, quer não, então fica aqui nas “Confissões”.
Olá e sejam bem-vindas a este episódio de “Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação”.
Hoje começo com uma confissão. Afinal de contas, é de confissões que este podcast trata, e hoje é por aí que começamos.
Estava completamente bloqueada a olhar para o ecrã de computador e sem nenhuma ideia para escrever este episódio. Nenhuma. Nenhuma mesmo. Dentro da minha cabeça, uma suave brisa a circular sem bater em nada. Porque não havia nada.
Estou numa fase de cansaço acumulado que é difícil de descrever. Aliás, nem me lembro de ter tido esta sensação antes, de um cansaço tal que só me sinto confortável de olhos fechados. Ah, olhos fechados, que maravilha…
Bem, então estava eu a tentar pensar em que vos contar neste episódio. Olhei para o calendário e vi que o episódio 50, que será o próximo, será de celebração do primeiro aniversário deste podcast. Que alegria! Sobre isso já sei o que escrever. Mas para hoje? Nada.
Respirei fundo, sorri sempre, peguei na minha caneta e numa folha de papel que serviu para um recado qualquer da minha filha para si própria e comecei a escrever. Já sei que nada como começar a escrever à mão para desbloquear as ideias e fazê-las correr como um rio. Há um fenómeno fabuloso que é começar a escrever e, claro está, o crítico interno vem logo ao de cima, que é como quem diz, a Dona Rosete dá logo sinal de si. E se não conhecem a Dona Rosete, vão escutar o episódio 48, ó faz favor!
Bom, então comecei a escrever, ouvi a Dona Rosete, escrevi no papel as palavras da Dona Rosete e daí continuei. Pensei em como têm sido os meus dias, para os partilhar convosco, e as ideias começaram a fluir.
No dia em que vos escrevo, estou a meio da última semana de uma formação que estou a fazer para me certificar como coach de equipas. Se estou a gostar? Estou, sim. Se estou desejosa de que acabe? Também. A formação é intensa, com uma grande carga horária, fora o trabalho extra que precisa de ser feito. Fora o trabalho normal, para os meus clientes e para o meu negócio, que também preciso de fazer.
Por isso, é justo dizer que estou cansada, muito cansada, mas também contente com estas novas aprendizagens, com esta experiência de aprendizagem remota. A entidade formadora localiza-se em Madrid, as aulas são em castelhano e os meus colegas estão espalhados pelo espaço ibérico e latino-americano. No fundo, sinto-me quase em casa.
Uma parte da aprendizagem para ser coach de equipas é ser membro de uma equipa. De maneira que dividiram a turma em duas metades e puseram-nos a fazer um trabalho de grupo daqueles bem ambiciosos. Qual rocha metamórfica, com a pressão deste trabalho e as ferramentas que fomos adquirindo, a ideia era passarmos de grupo de pessoas a equipa inteligente. Tudo isto, em cinco semanas. Já estão a ver porque é que ando cansada.
Outra parte da aprendizagem é tendo a experiência de ser coach de equipas, fazendo coaching à outra equipa da nossa turma. E foi a ser coach da outra equipa que sucedeu algo que me parece ser interessante partilhar aqui convosco, para esta pessoa que aqui vos fala, uma super-perfeccionista em recuperação.
Ora vejamos. Quando começamos a trabalhar em equipa, uma das primeiras tarefas é escrever o que vão ser as nossas regras de ouro. Estas são as regras que guiam a forma como trabalhamos, em direcção ao nosso objectivo (ao qual se dá o nome de norte). Uma das regras que nós quisemos deixar escritas como importantes para a nossa equipa era que o erro seria visto como uma oportunidade de aprendizagem.
Sabem o que aterroriza uma super-perfeccionista? Cometer erros. Até porque, ao cometer erros, entra aquela vozinha que nos diz, “agora é que as pessoas vão perceber que tu não sabes nada”.
Bem, mas uma super-perfeccionista em recuperação já sabe que o erro é a melhor maneira de aprender, quanto mais não seja porque a vergonha de ter cometido o erro grava o dito erro indelevelmente na nossa mente. Mas estou a divergir.
Convirjamos então de volta ao tema da formação e à conversa muito clara dos formadores de que se entendemos que é momento de intervir, como coaches, mesmo interrompendo a equipa, que o devemos fazer. E que se depois acharmos que foi um erro, não faz mal, porque aprendemos.
Bem, então agora situemo-nos no momento da dita cuja aprendizagem em que eu estou a ser coach da outra equipa, eles estão numa determinada situação em que sinto que devo intervir. Canalizei toda a conversa dos formadores de como podemos e devemos interromper se achamos que é pertinente, e com o meu coração a bater descompassadamente, liguei a câmara e o microfone e interrompi a conversa deles com uma pergunta.
Não tinha muitas expectativas naquele momento, há que dizer, mas olhando para trás, gostaria que o momento tivesse sido de fogos de artifício e cornetas a anunciar a minha como sendo a melhor, mais oportuna e certeira intervenção do mundo.
A realidade, porém, foi outra. Os membros da equipa continuaram, disseram que a minha intervenção não lhes fazia sentido, e continuaram. E eu, já de câmara e microfone desligados, sorri sempre e pensei, “olha, pronto, não serve, não serve. Vou tentar usar este momento como aprendizagem para o futuro.”
A super-perfeccionista que há em mim contorceu-se toda; a super-perfeccionista em recuperação felicitou-se, a medo. Disse-me a mim própria: “achaste que era o momento e intervieste. Se não serviu, não serviu, não é o fim do mundo.”
Depois de terminada a parte do exercício, tivemos a parte de feedback sobre o exercício. Conhecendo-me, pensei para mim: mais vale eu própria levantar o tema do que esperar que alguém fale sobre a minha intervenção, de maneira que pedi a palavra e falei. Puxei da super-perfeccionista em recuperação e disse que tinha arriscado, que o que tinha dito aparentemente não tinha servido à equipa, mas que me tinha sentido confiante em arriscar pelo ambiente criado pelos formadores e pelos colegas de que o erro é uma oportunidade de aprendizagem.
Que vos posso dizer? Posso dizer-vos que isto me faz perceber que sou super-perfeccionista em recuperação. Nem super-perfeccionista só, nem super-perfeccionista recuperada, pois o meu coração continuava a bater descompassadamente com esta situação de risco, vulnerabilidade e exposição aos colegas e aos formadores.
Vai daí, e para minha grande surpresa, a formadora tem um feedback para mim que muito me surpreendeu. Mas que, no fundo, é a materialização da missa que estavam a pregar de que o erro é uma parte fundamental da aprendizagem. A formadora pede a todos os colegas uma grande salva de palmas, e cito, “para a valente” que decidiu intervir.
Confesso-vos: acho que foi a primeira vez que senti orgulho de ter feito um erro. Senti orgulho de me ter arriscado, sem saber se ia correr bem ou não. Senti orgulho de ter ouvido a minha intuição, mesmo que o resultado possa ter sido um erro. O mais importante, mesmo, foi ter sentido em cada célula a verdadeira integração do erro como aprendizagem – e não associada à vergonha, mas sim a algo mais positivo.
(Vou aqui abrir um parêntesis para vos confessar uma coisa: escrevo estas palavras e há uma voz dentro de mim que me diz que me estou a gabar, etc, etc. Já conheço esta voz. A bitola que tento usar para me guiar no momento de saber se estou a gabar-me, ou não, é a seguinte, e aprendi no workshop da Google “I am remarkable”, cujo link vou deixar nas notas deste episódio: se é verdade, então não é gabarolice. E a outra bitola é: se é útil para ilustrar a história que estou a escrever, então faz sentido entrar. De maneira que aqui fica, com todo o meu desconforto, mas aqui fica.)
Penso que o mais importante, para mim, desta experiência moderadamente desconfortável foi entender, mais do que com a minha cabeça, com todo o meu corpo, que o erro não é uma coisa necessariamente negativa. Que é possível, sim, integrar o erro na aprendizagem, e fazer do erro uma ferramenta fundamental da aprendizagem. Depois de uma vida a crescer em ambientes em que o erro era fonte de humilhação, poder ver o erro como, “bem, achei que sim, tentei, mas percebi que não, e tudo bem”, poder ver o erro como realmente um momento importante, mas positivo, foi algo muito, muito valioso.
Dentro da minha cabeça ocorreu então um aceso monólogo do meu crítico interno: a Dona Rosete estava que não podia, sem saber como reagir a esta coisa de um erro ser uma coisa boa! De maneira que lhe agradeci, muito obrigada, Dona Rosete, mas vamos deixar este assunto por aqui, está bem? Vamos só classificar esta experiência como boa, produtiva, e passar à frente, pode ser?
Por estranho que pareça, a Dona Rosete concordou.
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Dou-vos as boas-vindas a este episódio do podcast "Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação".
Olhem, hoje começo com um pedido de ajuda que estendo a esta linda comunidade de ouvintes. Sabem, é que dou por mim a privar de perto com o meu crítico interno e ainda não lhe arranjei um nome. Está mal, está muito mal, e é altura de mudar isto.
Mas… voltemos um bocadinho atrás, porque vai na volta vocês ouvem falar em “crítico interno” e pensam, “crítico interno? Mas como assim, crítico interno?”
Neste episódio mencionamos:
“Não há partes más”, de Richard C. Schwartz
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Dou-te as boas-vindas a mais uma confissão de uma super-perfeccionista em recuperação, um podcast sobre perfeccionismo, criatividade e empoderamento.
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Se também tu tens vontade de deixar para trás a excessiva exigência contigo própria, soltar o perfeccionismo e abraçar a criatividade que tens dentro de ti, quer te consideres uma pessoa artística, quer não, então fica aqui nas “Confissões”.
Olá e sejam bem-vindas a este episódio de “Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação”.
Olhem, hoje começo com um pedido de ajuda que estendo a esta linda comunidade de ouvintes. Sabem, é que dou por mim a privar de perto com o meu crítico interno e ainda não lhe arranjei um nome. Está mal, está muito mal, e é altura de mudar isto.
Mas… voltemos um bocadinho atrás, porque vai na volta vocês ouvem falar em “crítico interno” e pensam, “crítico interno? Mas como assim, crítico interno?”
E eu quero aqui recuar um pouco para vos contar dessa concepção maravilhosa (pelo menos eu acho que é maravilhosa) que é a de imaginar que o nosso mundo interior é composto por várias partes. Essas partes que nos compõem têm agenda própria e agem sempre no seu melhor interesse. Sendo que, sendo partes de nós, o seu melhor interesse é, também, o nosso melhor interesse. Só que a coisa não é assim tão evidente.
Ora vejamos. Esta concepção do mundo interior como sendo um sistema formado por várias partes tem o nome de “Internal Family Systems” e é explorado por Richard C. Schwartz no seu livro “Não há partes más”. Vou deixar o respectivo link nas notas deste episódio, que poderão consultar no meu site, em airdesignstudio.com, ou na plataforma de podcasts em que me estiverem a ouvir.
Cada uma de nós é composta por várias destas partes, sendo que algumas das partes aparecem de forma transversal, em todas as pessoas (ou quase todas, vá, para salvaguardar as possíveis excepções que possam andar por essa vinha do Senhor).
Outras partes há que são específicas nossas, que têm que ver com as nossas experiências de vida e, possivelmente, com as características que herdámos dos nossos antecessores.
E, segundo o autor do livro, não há partes más. Há partes que, no cumprimento de determinada função psíquica, poderão parecer más, ou, no mínimo, dispensáveis, mas elas estão apenas a fazer o seu trabalho: a protegerem-nos e a manter-nos vivas.
Uma dessas partes, e que diria que é transversal a muitas de nós, para não dizer quase todas nós, é o crítico interno. O crítico interno é uma figura muito interessante: é aquela vozinha que se levanta de cada vez que algo ameaça o nosso ego. Vejamos alguns exemplos: estou a pintar em directo na nossa sessão de Desenhamos Juntas, às segundas-feiras à hora de almoço, e a minha mão treme enquanto leva o pincel a deslizar em cima da folha. A linha fica tremida e o meu crítico interno dispara. Diz-me coisas do género: “minha nossa, como treme a tua mão. Olha-me esse desenho que estás a fazer. Achas mesmo que deverias estar a ensinar alguém a desenhar? Quem és tu para ensinar o que quer que seja?” e por aí vai.
Estão a localizar essa voz dentro da vossa cabeça? Contem-me tudo, que eu quero saber.
Pois essa voz fala comigo e, se eu fosse permeável à sua mensagem, lavaria o pincel, arrumá-lo-ia direitinho e jamais pegaria nele outra vez. Porque o crítico interno quer proteger-me. Eu sei, parece estranho uma parte de mim querer proteger-me dizendo-me coisas desagradáveis, mas… sabem? A verdade é que o crítico interno não conhece outra maneira de fazer as coisas, e tudo o que me possa fazer passar vergonha – como desenhar um traço tremido – é considerado uma ameaça ao meu ego. E o meu crítico salta, desejoso de proteger o meu ego dessa vergonha. O crítico interno, no fundo, está ao serviço daquela perfeccionista que vive dentro de mim e que pensa: “será que é desta que as pessoas vão perceber que eu não valho mesmo nada? Que não desenho nada bem e que não deveria estar aqui a facilitar estas sessões?”
Estão a ver o mecanismo? A parte perfeccionista deseja, lá está, perfeição absoluta. Depois, eu desenho, a mão treme e o traço fica tremido. O crítico, então, entra em acção, até porque é mais fácil proteger-me se eu estiver sossegada e não me puser a desenhar cenas.
E daqui pode nascer um ciclo vicioso e paralisante: se eu fizer caso do que me diz o crítico interno, arrumo o pincel, despeço-me de todos e enfio-me na minha gruta, em que não desenho (e adoro desenhar, seria uma pena não desenhar), não canto, não arrisco mesmo, mesmo nada, para o meu ego não sofrer e a minha parte super-perfeccionista não se sentir exposta e ameaçada. Teríamos aqui um belo sarilho, pois a minha vida seria cada vez mais pequena, cada vez mais fechada. E, confesso, não é isso que quero.
Em vez de deixar que o crítico leve a melhor e me faça desistir, o que faço é partilhar as suas palavras em voz alta com as restantes participantes do Desenhamos Juntas – as actuais, que estão comigo em modo síncrono, e as futuras, que vão ver a respectiva gravação em algum momento do futuro. Conto-lhes: “ai, sabem lá, o meu crítico está doido porque a minha mão está a tremer”. E, ao fazer isto, abro também o espaço para que elas partilhem, se quiserem, as palavras dos seus próprios críticos internos.
E, imaginem só, não é que isto retira força àquilo que o crítico interno me e nos está a dizer? Quando comecei as sessões semanais de desenho ao vivo não fazia ideia de que este seria um dos efeitos, mas com o passar do tempo e com essa perda sucessiva da vergonha de partilhar os dizeres desta voz ácida dentro da minha cabeça, aqui estamos. Este é, talvez, um dos efeitos mais poderosos de partilhar com as restantes participantes o que me diz o crítico interno.
E assim, à boleia de coisas tão singelas como desenhos de observação, vamos trabalhando a nossa relação com o crítico interno que todas temos dentro de nós.
O que vale é que nem só de críticos se compõe o nosso mundo interior e, lá dentro, também existe uma outra parte muito mais discreta, muito mais escondida, que é a criança interior.
A nossa criança interior é a casa dos nossos sonhos e desejos de criança, é a casa da nossa criatividade, é a guardiã de todas aquelas coisas que nos fazem vibrar e viver a vida com mais intensidade e alegria. Pessoas que não se consideram criativas que me estão a ouvir: vocês também têm a criança interior e também ela é a guardiã da vossa criatividade. É possível que a vossa criatividade não se manifeste de forma artística, e está tudo bem, mas que ela existe dentro de vocês, acreditem que existe.
Para quem acha que não tem nada disso de criança interior dentro de vocês, deixem-me fazer-vos uma pergunta. Quando fecham os olhos e se lembram da vossa infância – se a vossa infância tiver sido um lugar feliz, e se não tiver sido, esperem só um pouco que já falo convosco – lembram-se daquelas tardes de brincadeira que passavam como que a flutuar enquanto faziam as brincadeiras mais variadas? Eu lembro-me de jogar às escondidas, de fazer “café” (café entre aspas!) com terra, caldo verde com ervas, e de as tardes passarem a voar. Com o mesmo entusiasmo me lembro dos dias em que me refugiava num livro, entrava nesse mundo e o vivia como se fosse o meu. No presente, é quando me ponho a desenhar, a cantar, a tocar cavaquinho ou a passear numa floresta que mais me sinto como nesse tempo. Pois é nesses momentos de leveza, de fluidez, que contactamos com a nossa criança interior.
Para aquelas pessoas que me ouvem para quem a infância não foi um lugar feliz, pensem no aqui e no agora. Há momentos em que parece que tudo flui, que o mundo fica mais leve. Nesses momentos, estamos a contactar com a nossa criança interior.
Sim, ela vive dentro de cada uma de nós e guarda tesouros. Dentro desses tesouros, contam-se as actividades que hoje nos fazem fluir e flutuar; contam-se também os caminhos através dos quais nós podemos contribuir para o mundo, para o melhorar; está lá também um mapa muito específico para nos conduzir a uma vida mais plena, mais feliz e mais serena. Este mapa é revelado etapa a etapa, tipo jogo de computador em que vamos desbloqueando níveis cada vez mais avançados de consciência. E, sim, todos estes tesouros estão ao cuidado da nossa criança interior, parte essa com a qual contactamos quando criamos o silêncio para a ouvir.
Bem, e agora que já vos contei sobre o crítico interno, com a sua voz por vezes bem ácida, e sobre a criança interior, uma parte bem tímida que se esconde dentro de nós, quero voltar então ao mote deste episódio. É que preciso, quero, desejo muito arranjar nomes para estas duas partes.
Às tantas, perguntam vocês, “mas nomes para quê? Crítico interno e criança interior está muito bem, descritivo e tal, para quê dar voltas?”. E eu não contesto. Mas acho que deveriam ter um nome. Sobretudo o crítico interno, que está sempre a falar, ainda que, com o passar do tempo, as suas palavras tenham menos impacto em mim.
Estive a pensar muito sobre este tema, sabem? E acho que tenho aqui um nome candidato para o crítico interno… Quero partilhá-lo convosco para que me digam com que nome desejam baptizar o vosso próprio crítico interno.
Eu acho que ao meu crítico interno fica bem o nome de, rufar de tambores, por favor, ora fica bem o nome de “Dona Rosete”! Bem, ainda me estou a habituar, e pode ser que de hoje para amanhã o nome ainda mude, mas hoje quero partilhá-lo convosco e, contem-me, com que nome baptizaram o vosso crítico interno? Mandem-me um email, deixem um comentário no episódio, ou no Instagram, e contem-me tudo. Por agora, eu, a Dona Rosete e a minha criança interior vamos ali pegar nos pincéis e nas aguarelas e já voltamos. Até para a semana!
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