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O Tal Podcast

Paula Cardoso e Georgina Angélica
O Tal Podcast
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  • O Tal Podcast

    Carlos Kangoma: “Assusto-me quando vou ver as notícias. Sinto que estamos a descair para um certo regime, um tipo de fascismo light”

    09/07/2026 | 1h 3min
    Após cerca de vinte anos dedicados ao rap, a pandemia obrigou Carlos Kangoma, também conhecido por Lucy, a reinventar-se. Hoje é à frente do seu restaurante de gastronomia libanesa, o Mankooche, que encontra independência financeira para continuar a lutar pela justiça social e bem-estar coletivo. Além de refletir sobre o percurso que o levou da música ao ativismo, o convidado deste episódio d’ “O Tal Podcast” defende que o rap pode ser “uma forma de jornalismo”, capaz de dar voz às comunidades periféricas e desafiar a ideia de que “o bairro é só criminalidade e violência.”
    Ao longo da conversa, Lucy regressa ao bairro onde cresceu para refletir sobre uma infância marcada pela discriminação, repressão policial e ausência de oportunidades. Recorda que o primeiro contacto com a polícia aconteceu quando tinha apenas 11 ou 12 anos, enquanto jogava à bola, e descreve uma realidade em que “existe uma marginalização e uma discriminação feita de uma forma bastante violenta a nível físico e psicológico.”
    Apesar disso, rejeita os estereótipos frequentemente associados às periferias e lembra que é dali que saem muitos dos trabalhadores que garantem o funcionamento da cidade, destacando também o forte sentido de comunidade que caracteriza estes bairros.
    Filho de pais que fugiram de Angola depois da independência, Lucy fala ainda sobre o peso do trauma migratório e da herança colonial, refletindo sobre as desigualdades que continuam a marcar a sociedade portuguesa. Um dos exemplos que aponta é o sistema educativo, que considera “muito eurocêntrico” e que, na sua perspetiva, falha em valorizar a diversidade cultural e em oferecer referências positivas às novas gerações.
    A música surge, por isso, como uma forma de responsabilidade social. Para Lucy, quem cria também influencia, e isso implica um compromisso com a realidade de quem raramente vê a sua experiência representada no espaço público.
    Neste episódio, fala também do trabalho desenvolvido pelo movimento Vida Justa, onde o ativismo acontece no terreno, junto das comunidades. Defende que “o ativismo é uma forma de resistência” e sublinha a importância da organização coletiva para enfrentar as desigualdades, acreditando que a transformação social depende da capacidade das pessoas se unirem para reivindicar direitos e construir um futuro mais justo.
    Ouça aqui a conversa completa, com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
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  • O Tal Podcast

    Cátia Severino: “É importante esta sociedade começar a assumir que ser português não é ter um perfil específico. A Cova da Moura é tão Portugal como o Saldanha”

    02/07/2026 | 58min
    Veio de Angola na barriga da mãe, e foi no Algarve que nasceu e cresceu antes de se mudar para Lisboa, onde construiu uma trajetória académica na área da Linguística. Convidada deste episódio d’ “O Tal Podcast”, Cátia Severino descreve a entrada no ensino superior como a “realização de um sonho de sobrevivência”, enquanto única via possível de mobilidade e dignidade, numa vida marcada pela precariedade, e guiada pela resiliência e educação.
    Do Algarve para Lisboa, Cátia trouxe não apenas o desejo de estudar, mas também um percurso atravessado pelo esforço contínuo: trabalhar de noite, estudar de dia, e sustentar um ritmo de sobrevivência que se prolongou muito além da licenciatura. Mesmo após o mestrado, doutoramento e pós-doutoramento, o descanso parecia sempre adiado. Só mais tarde, com apoio pessoal, conseguiu finalmente reconhecer e habitar as suas conquistas.
    Ao longo da sua trajetória, confrontou-se com várias experiências de discriminação, inclusive dentro da academia. Para começar, o seu sotaque “afro-algarvio” era frequentemente lido como menos legítimo. Somou-se a isso uma reprovação no 12.º ano, que alterou profundamente o seu percurso escolar, episódio que a obrigou a mais um ano de esforço, e que expõe as desigualdades muitas vezes naturalizadas no sistema educativo.
    Cátia reflete ainda sobre o “branqueamento social” do seu percurso, num meio académico onde se tornou frequentemente a única pessoa negra portuguesa.
    A sua experiência é também marcada por uma reflexão profunda sobre identidade, pertença e colorismo. Entre o Algarve e Lisboa, Portugal e Angola, Cátia descreve o impacto constante da pergunta “de onde és?”, apesar de ter nascido em Portugal.
    As suas viagens a Angola ativaram uma ligação íntima com a terra dos pais, mas também a consciência de uma identidade híbrida, que define como afro-portuguesa ou portuguesa negra.
    Neste episódio, Cátia revisita ainda a história familiar atravessada pela guerra, pelo colonialismo e pela migração, destacando figuras como a sua avó Angelina. Ao mesmo tempo, recorda os efeitos dolorosos do colorismo dentro da própria família e comunidade, onde o tom de pele podia determinar aceitação ou exclusão. Para Cátia, negar essa complexidade seria negar a própria história.
    Ouça aqui a conversa completa, com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
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  • O Tal Podcast

    Grada Kilomba: “Temos que aprender a aceitar quem as pessoas são e saber negociar, estar com essas almas. Há dificuldade em dialogar, porque há dificuldade em escutar”

    25/06/2026 | 53min
    Inaugurou, no passado dia 2 de junho, em Paris, o “Memorial para o Genocídio dos Tutsis no Ruanda”, numa cerimónia de Estado, que contou com a presença do Presidente da França, Emmanuel Macron, e do seu homólogo ruandês, Paul Kagame. Dias antes, a 30 de maio, estava em Sintra, na abertura da exposição “O Fundo do Mundo”, patente até 26 de setembro na Albuquerque Foundation. Dona de uma abordagem artística que corre mundos, Grada Kilomba é a convidada deste episódio d’ O Tal Podcast.
    Reconhecida internacionalmente pelo seu trabalho sobre memória, colonialismo, raça, género, linguagem e poder, Grada Kilomba tem desenvolvido uma prática artística que cruza literatura, performance, instalação, vídeo e encenação. “O conhecimento tem que ser cruzado, estar constantemente em diálogo”, afirma.
    Artista transdisciplinar, com raízes em Angola e São Tomé e Príncipe, Grada fala sobre o seu mais recente projeto: "O Memorial para o Genocídio dos Tutsis no Ruanda", instalado em Paris.
    Encomendada pelo Estado francês, como reconhecimento da cumplicidade naquele genocídio, a obra representou o maior desafio da sua carreira. “A maior honra para um artista é ser convidado para pensar, elaborar e criar uma obra em honra de um milhão de pessoas assassinadas num genocídio”, partilha.
    Ao longo da conversa, Grada reflete sobre o processo de criação de uma obra que procura representar o aparentemente irrepresentável: a violência, a perda, o silêncio e a memória. Fala sobre as viagens que realizou a Kigali, dos encontros com sobreviventes e descendentes das vítimas, e da influência da tradição artística ruandesa Imigongo na construção do memorial. “Uma coisa é trabalhar sobre um tema, outra coisa é vivenciar e conversar diretamente com as pessoas que vivenciaram esse tema”, sublinha.
    Grada aborda também o papel da arte numa sociedade marcada por conflitos, desigualdades e traumas históricos. Na sua leitura, a tarefa do artista passa por abordar os assuntos com os quais a sociedade tem dificuldade em lidar, criando novos vocabulários e imaginários. “Trabalho com temas extremamente violentos, como a morte, a exclusão, a desumanidade, o genocídio, o esquecimento. É extremamente importante trabalhá-los, criando o belo, a poesia”.
    Num diálogo que atravessa a arte, a educação, a espiritualidade e a transformação pessoal, Grada Kilomba reflete ainda sobre a importância da transdisciplinaridade, do corpo como linguagem artística, e da necessidade de cultivar espaços de escuta e colaboração. Critica modelos educativos assentes na fragmentação do conhecimento e defende formas de aprendizagem baseadas no diálogo e na construção coletiva.
    Entre memórias, silêncios e processos criativos, a artista deixa uma reflexão sobre um dos grandes desafios do nosso tempo: a incapacidade de escutar verdadeiramente o outro. “Estamos num momento absolutamente catastrófico, rodeados de guerras, genocídios, ocupações, cumplicidades internacionais, violência explícita e o que parece absolutamente constante é a incapacidade de diálogo.”
    Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
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  • O Tal Podcast

    Assunção Fernandes: “Agradeço ao universo por esta visão que tenho. Não demoro muito ao pé das pessoas para perceber aquilo de que a comunidade precisa”

    18/06/2026 | 56min
    Maria Assunção Fernandes Lopes Tavares, mais conhecida como “São”, nasceu em Fundura, no interior da ilha de Santiago, em Cabo Verde, e emigrou para Portugal com 22 anos. A convidada deste episódio d’“O Tal Podcast” cresceu numa família onde o serviço à comunidade fazia parte do quotidiano – os pais eram catequistas e ensinaram-lhe, desde cedo, que ninguém constrói nada sem os outros. “Não fazemos nada sozinhos. Temos de ter sempre alguém a apoiar, de uma forma ou de outra.”
    Ao chegar ao bairro da Pedreira dos Húngaros, entretanto demolido, São deparou-se com uma realidade que a inquietou: a falta de oportunidades para crianças e jovens, e uma forte segregação social. Sem recursos, mas movida pela vontade de fazer a diferença, recuperou a paixão pelo andebol que tinha desenvolvido na juventude, e lançou um projeto que viria a mudar centenas de vidas. “Começámos a treinar num campo de futebol, um descampado. No início nem tínhamos bolas”, recorda.
    O que começou com algumas raparigas curiosas tornou-se um espaço seguro de crescimento, pertença e desenvolvimento pessoal. Ao longo dos anos, o desporto abriu horizontes, fortaleceu a autoestima de muitas jovens filhas de imigrantes e ajudou-as a desenvolver competências que transportaram para a vida adulta.
    Paralelamente ao trabalho comunitário, São nunca desistiu da sua formação. Entre a família, o emprego e os treinos, estudou à noite para completar o ensino secundário e, mais tarde, ingressou na universidade. Licenciou-se em Serviço Social e concluiu um mestrado com uma tese dedicada ao impacto do andebol na integração social de jovens raparigas. “A [autoestrada] A5 foi onde eu estudei mais, de noite, de madrugada”, conta, lembrando os anos de esforço e perseverança.
    Neste episódio, fala também sobre os projetos que continua a dinamizar, como o grupo de mulheres “As Marias”, e os Centros de Apoio ao Estudo em bairros municipais de Oeiras, onde procura criar novas oportunidades para crianças e famílias. Reflete ainda sobre os desafios pessoais que enfrentou ao longo do caminho, incluindo os sacrifícios familiares que a sua dedicação exigiu. “Em alguns momentos, esqueci-me dos meus filhos. Dos filhos dos outros, nunca me esqueci”, confessa com honestidade.
    Entre histórias de resiliência, liderança e serviço, São Fernandes partilhou com ‘O Tal Podcast’ a visão que orienta a sua vida: a crença de que a empatia, a educação e o trabalho coletivo têm o poder de transformar comunidades. “O universo ajuda quando a pessoa trabalha com sinceridade, com empatia.”
    Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
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  • O Tal Podcast

    Wilds Gomes: “Poderíamos ser todos melhores humanos se tivéssemos terapia por cada indivíduo que está aqui nessa terra”

    11/06/2026 | 1h 6min
    Jornalista, apresentador, gestor de marca e autor do livro infantil “A girafa do Noah”, Wilds Gomes é o convidado desta semana d’ “O Tal Podcast”. Natural de São Tomé e Príncipe, veio para Portugal quando tinha apenas 4 anos, e desde sempre se viu rodeado de afectos, razão pela qual se confessa “uma pessoa de amor”, com facilidade para falar de sentimentos e expressá-los.
    Comunicador nato, Wilds conta que a grande transformação na forma como passou a olhar para si, e a procurar ser uma melhor pessoa, foi a experiência da paternidade. “Acho que me tornei adulto de verdade após o nascimento do meu filho”.
    A separação da mãe dos filhos mais velhos foi um momento que o fez parar e refletir sobre quem realmente era e o que queria na vida. Esse período mais sombrio levou-o a valorizar mais o auto-cuidado, e a procurar terapia.
    Uma das formas de conexão que tem desenvolvido com os filhos é a leitura noturna, algo que não teve na infância. Foi também por esta razão que escreveu o livro “A girafa do Noah”, publicado no final do ano passado, e no qual aborda o luto de uma forma adaptada para crianças. “Eu quero escrever sobre algo que faça sentido, que os pais consigam refletir e falar com os seus filhos, embora sejam conversas difíceis de ter.”
    Ao “O Tal Podcast”, o apresentador de 34 anos revelou que uma das maiores inspirações da sua vida é a relação dos pais que, após mais de três décadas de união, recentemente subiram ao altar. Wilds teve um papel fundamental na boda, tendo sido responsável pela compra do anel para o pedido de casamento feito pelo pai.
    Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, o são-tomense falou ainda sobre a sua “Carta aberta aos homens negros que odeiam as mulheres negras”, onde desafia preconceitos, e convida a uma reflexão sobre a forma como mulheres da sua comunidade são tratadas. Para o apresentador, o amor, o respeito e a proteção das mulheres negras são também uma forma de resistência e transformação.
    Ouça aqui a conversa completa.
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Sobre O Tal Podcast
Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião, com autoria de Georgina Angélica e Paula Cardoso.
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