O Tal Podcast

Paula Cardoso e Georgina Angélica
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    Ana Martins: “Sempre vi a minha mãe e a minha avó a correrem riscos e irem atrás de coisas em que as pessoas diziam: ‘Não podes. Isto não é para ti’. Então, eu sempre quis ser mais”

    28/05/2026 | 55min
    Empreendedora, fundadora da Mella Supply e co-fundadora do The Fam Kitchen Group, Ana Martins constrói pontes dentro da comunidade negra, com foco na promoção de uma maior representatividade e solidariedade. Neste episódio de “O Tal Podcast”, a convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso revisita o percurso que a levou da diplomacia à restauração, sem nunca abandonar a missão de criar impacto social.
    Formada em Relações Internacionais e Estudos de Conflitos no Reino Unido, Ana sonhava trabalhar em diplomacia, mas cedo percebeu as barreiras de acesso a determinados lugares.
    Entre Inglaterra e Estados Unidos da América, foi construindo um olhar crítico sobre representatividade, pertença e liderança, até regressar a Portugal por motivos familiares e decidir abraçar o sonho da mãe: transformar o The Fam Kitchen num projeto familiar que honra o legado da avó cabo-verdiana, imigrante que enfrentou inúmeras dificuldades para construir uma vida melhor.
    Ao longo da conversa, partilhou também a relação complexa com o pai ausente, reencontrado apenas aos 20 anos durante os estudos no estrangeiro. Foi precisamente entre o luto, a pressão do empreendedorismo e a solidão da pandemia que nasceu a Mella Supply.
    O projeto começou ligado ao autocuidado e à beleza negra, mas rapidamente evoluiu para uma plataforma focada em conexão, mentoria e partilha de conhecimento entre talentos negros .“Como é que nos reconhecemos como líderes dentro dos nossos próprios nichos?”, questiona Ana, que defende a importância de fortalecer redes internas, combater a fragmentação da comunidade e esbater as barreiras que impedem acessos a lugares.
    Entre workshops, encontros e debates, a fundadora da Mella Supply procura criar espaços onde a comunidade se possa ouvir, organizar e apoiar mutuamente. A gastronomia surge também como ferramenta de encontro e diplomacia, enquanto os novos projetos do The Fam Kitchen Group — como as casas de hospedagem no norte de Portugal — prolongam essa ideia de acolhimento, descanso e pertença.
    Entre memórias de imigração, empreendedorismo e viagens em família organizadas através de um mealheiro coletivo, Ana Martins revela-se uma “super connector”: alguém que acredita que abrir portas para os outros também é uma forma de transformar o mundo.
    Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.



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    Marco Mendonça: “O humor é uma porta de entrada para um lugar de empatia, escuta, compreensão. Ou mesmo que não seja compreensão, de respeito”

    21/05/2026 | 1h 7min
    Em 2024 criou, encenou e interpretou o espetáculo “Blackface”, a partir de uma velha prática racista. No ano seguinte, juntou a direção artística ao currículo, com “Reparations, Baby!”, peça que usa um concurso de TV para debater reparações históricas. Agora planeia um musical ‘fora de tom’, em que o hino nacional promete desafinar ideias. Marco Mendonça é o convidado deste episódio d’ “O Tal Podcast”, e sobe hoje ao palco do Planetário da Marinha, em Lisboa, com “Hotel Paradoxo”, em cena até sábado, 23.
    Entre histórias da infância em Moçambique, o fascínio precoce pela performance e a descoberta do teatro como espaço de liberdade, Marco Mendonça reflete sobre o impacto pessoal das suas investigações em torno do passado colonial português e da presença negra na cultura contemporânea.
    Com a honestidade e ironia que atravessam criações como “Blackface” e “Reparations, Baby!”, o ator e encenador falou sobre o impacto pessoal das suas investigações em torno do passado colonial português, da presença negra na cultura contemporânea e das dinâmicas de poder que persistem dentro e fora das artes. “Uso muitas vezes os espetáculos que faço para aprender mais. Facilmente me esqueço de coisas importantes: factos, datas. É bom ter várias notas nestes processos de investigação e de pesquisa, para ter acesso direto à história, e àquilo que vou recolhendo como material de uma forma mais acessível para mim também.”
    O humor e o riso acompanharam Marco Mendonça desde a sua juventude, tornando-se cedo uma forma de relação com o mundo: “Achavam que eu fazia bem imitações, porque eu sempre fiz questão de ser um dos palhaços da turma. Quando havia situações mais risíveis, eu tentava estar sempre envolvido nelas.”
    Esse impulso para “mandar larachas” foi-se construindo ao longo do tempo, até resultar na criação em palco.
    Depois do secundário em Artes Visuais, entrou em Estudos Artísticos na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mas bastaram duas semanas para perceber que o melhor seria avançar para a Escola Superior de Teatro e Cinema. “De repente, ali era um espaço de liberdade total. Vamos abraçar-nos e chorar e ser vulneráveis à frente uns dos outros.”
    Pelo meio, houve espaço para falar da “alma velha” de Marco Mendonça, num momento em que, aos 31 anos, assume novas responsabilidades e outra relação com o trabalho e com o corpo.
    A conversa trouxe ainda uma notícia esperada por muitos — o regresso do espetáculo “Blackface” a Lisboa — a que se junta outra novidade: vem aí um musical sobre o hino nacional português, com estreia prevista na Culturgest.
    Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
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  • O Tal Podcast

    Raquel Lima: “Tendo um filho, é importante ele sentir que estou bem. Não dá para reproduzir a mãe estressada. Quero muito estar bem e feliz à volta dele”

    14/05/2026 | 53min
    Poeta, investigadora, arte-educadora e ativista, Raquel Lima é a primeira intelectual portuguesa, angolana e são-tomense galardoada com o Prémio Emma Goldman, recebido no último mês de março, em Viena de Áustria. A experiência, conta neste episódio de “O Tal Podcast”, permitiu-lhe refletir sobre merecimento, autocuidado e literacia financeira, e constatar como, independentemente de geografias, as mulheres partilham uma espécie de “síndrome da impostora coletivo”.
    Nascida em Lisboa, filha de mãe angolana e pai são-tomense, cresceu na margem sul do Tejo, entre uma infância marcada por precariedade, ruturas familiares e perdas precoces, que viriam a tornar-se matéria viva da sua escrita.
    A sua assinatura literária tem passado por vários formatos, tanto no spoken word, como através da academia. Publicou livros como “Ingenuidade, Inocência e Ignorância” e “Ululu”, e hoje trabalha também a partir da oratura, ligada às tradições africanas de transmissão oral.
    Fundadora da União Negra das Artes, tem vindo a pensar o coletivo como espaço de criação, mas também de desgaste. “Perceber o que o coletivo quer dizer é isto: não pode recair sobre uma, duas ou três pessoas que ficam sobrecarregadas”, nota, ao refletir sobre os limites do trabalho partilhado e a necessidade de abrandar sem abandonar a comunidade.
    Neste episódio, a conquista recente do Prémio Emma Goldman surge como ponto de inflexão. Distinção internacional atribuída em Viena, o prémio chega num momento de transição pessoal e abre espaço para uma reflexão sobre merecimento e autocuidado. Entre outras oito mulheres de geografias diversas, Raquel reconhece um “síndrome da impostora coletivo”, como se a dúvida sobre o lugar de cada uma fosse menos individual do que estrutural.
    “Ainda estou a processar”, diz, ao falar de uma distinção que mexe com a autoestima e com a forma como o trabalho é validado.
    Ao mesmo tempo, a artista revela que os 50 mil euros correspondentes ao prémio a fizeram questionar a relação com o dinheiro, e a importância da literacia financeira.Tudo de um lugar onde defende que aprender a receber é tão importante quanto aprender a cuidar.
    Raquel partilha também como a espiritualidade atravessa o seu percurso de forma central. “Eu acho que a nossa revolução só vai acontecer se a gente puser o espiritual aí dentro. Acho que a nossa batalha mesmo antirracista, feminista, é espiritual”, assinala, ao falar de práticas de espiritualidade de matriz africana que recuperou em adulta.
    Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
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    Ângelo Delgado: “A nacionalidade não vale por si só. Tens que ir provando que tens os mesmos hábitos. É aí que está a validação. Não é o bilhete de identidade”

    07/05/2026 | 54min
    Nascido em Portugal em 1981, ano em que a Lei da Nacionalidade entrou em vigor, o escritor Ângelo Delgado reflecte, neste episódio de “O Tal Podcast”, sobre a relação entre documentos e acolhimento. “Cresci num país que me via como alguém diferente”, diz o autor do romance “Foi o Preto”, obra lançada no início do ano, que espelha bem as fraturas raciais que continuam a dividir o país. “A nacionalidade não vale por si só”, sublinha.

    Escritor, leitor compulsivo e voz ativa na reflexão sobre identidade e racismo, Ângelo Delgado abre espaço, entre memórias, feridas e reconstruções, para uma conversa onde a escrita surge como refúgio, mas também como confronto. “É onde vomito aquilo que me vai na alma”, confessa, revelando um processo criativo profundamente íntimo e, muitas vezes, doloroso.

    No centro da conversa está “Foi o Preto”, obra construída a partir de vivências reais — suas, da família e de pessoas próximas. Mais do que um livro, é um exercício de exposição e catarse.

    “Tive de remexer nas minhas entranhas”, admite. O resultado é uma narrativa provocadora, que coloca o leitor diante do desconforto e o deixa, tal como o racismo faz, “num beco sem saída”.

    O autor revisitou uma infância marcada pela sensação de diferença. “Cresci num país que me via como alguém diferente”, recorda, apontando a escola como o primeiro espaço onde essa perceção se impõe, muitas vezes sem explicação, sem espaço para questionar.

    “A nacionalidade não vale por si só”, diz, sublinhando que o verdadeiro reconhecimento continua a depender de códigos invisíveis — hábitos, comportamentos, formas de estar.

    A conversa atravessa também as dinâmicas familiares e culturais que moldam o seu olhar sobre o mundo. Das mulheres cabo-verdianas, fortes, resilientes, frequentemente sobrecarregadas, às estruturas comunitárias que contrastam com o isolamento vivido na diáspora, há um constante movimento entre geografias e significados. “É como colorir memórias a preto e branco”, descreve, num processo de redescoberta da própria identidade.

    Pelo caminho, há ainda espaço para pensar o racismo para lá do discurso imediato, questionando a forma como ele é abordado publicamente, e defendendo a literatura como lugar essencial dessa reflexão. Porque, no fim, escrever não é apenas contar histórias: é dar sentido ao passado, reorganizar o presente e, talvez, encontrar alguma forma de liberdade.

    Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
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    Cirila Bossuet: “O meu trabalho é emprestar o meu corpo. Tudo que eu tenho, eu dou”

    30/04/2026 | 54min
    Nomeada para os Prémios Sophia 2026, marcados para o próximo dia 15 de maio, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, Cirila Bossuet vai disputar a categoria de Melhor Atriz Coadjuvante, pela interpretação no filme “Banzo”, de Margarida Cardoso. A indicação, logo na sua primeira experiência no cinema português, evidencia a importância das oportunidades, um dos temas em destaque neste episódio de “O Tal Podcast”.
    Desde cedo habituada a um ambiente familiar intenso e cheio de vida, foi no silêncio que encontrou o seu lugar. Antes de subir a palco, Cirila Bossuet era a criança que observava e apreciava o silêncio. Hoje, é nesse mesmo equilíbrio, entre interioridade e exposição, que constrói uma carreira marcada pela entrega total à arte de representar.
    Neste episódio de “O Tal Podcast”, a atriz revisita um percurso que começou quase por acaso: seguiu uma amiga para o teatro sem imaginar que ali encontraria a sua voz. “Não fazia ideia do meu tom, do que o meu corpo era capaz”, conta, descrevendo o teatro como um portal de autoconhecimento que lhe permitiu ocupar espaço, falar mais alto e sentir que a sua opinião importa.
    Se a descoberta artística foi inesperada, as raízes estavam lá desde sempre. Filha de bailarinos fundadores do Ballet Nacional de Angola, Cirila cresceu rodeada de expressão artística, embora só mais tarde tenha feito essa ligação. A história familiar, marcada pela migração forçada e pela reconstrução em Portugal, trouxe consigo uma palavra-chave: responsabilidade. E com ela, o desejo profundo de honrar o percurso dos pais.
    Entre múltiplos projetos simultâneos, exaustão física e a instabilidade da profissão, Cirila fala abertamente sobre os desafios de viver da arte em Portugal. Do “veneno da comparação” ao ritmo avassalador de Lisboa, a atriz descreve um meio onde “há sempre a sensação de que se deveria estar a fazer mais”. Ainda assim, resiste, criando distância ao viver fora da cidade, em Sintra, onde encontra o seu “ninho” e o silêncio necessário para se reconstruir.
    A conversa abre ainda espaço para uma reflexão crítica sobre a falta de oportunidades no cinema e na televisão portugueses, onde, lamenta a atriz, “vemos sempre as mesmas caras”. Deixa, por isso, um apelo por processos mais justos e inclusivos.
    Ouça a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso aqui.
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Sobre O Tal Podcast
Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião, com autoria de Georgina Angélica e Paula Cardoso.
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