147 episódios
Bia Ferreira: “O amor, o afeto e a gentileza me curaram. A alegria é a maior forma de subversão num mundo que naturaliza o ódio”
15/10/2026 | 1h 5minEm Portugal, para apresentar o álbum “Améfrica”, que a 31 de outubro sobe ao palco do Centro Cultural de Paredes, a cantora e compositora brasileira Bia Ferreira partilha, neste episódio d’ “O Tal Podcast”, a alegria que marca esta fase da sua carreira, depois de um início marcado pela dor. Hoje dona do próprio selo discográfico, a também ativista está nomeada para um Grammy Latino, mas faz questão de sublinhar que não corre atrás de prémios. “A minha meta é construir um legado que daqui a 100 anos inspire meninas negras do Brasil, através da minha arte”.
Ouça a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
See omnystudio.com/listener for privacy information.Welket Bungué: “Cresci a ouvir do meu pai que, para ter uma oportunidade igual à dos meus pares, teria de trabalhar a 300%. Isto diz muito sobre a ideia de meritocracia”
08/10/2026 | 1h 14minAtor, realizador e artista multidisciplinar, o guineense-português Welket Bungué é o convidado deste episódio d’ “O Tal Podcast”, no qual se cruzam as diferentes geografias, linguagens artísticas e cinematografias que marcam o seu percurso. Profissionalmente dividido entre Portugal, a Alemanha e o Brasil, Welket tem integrado várias produções internacionais, destacando-se o papel em “Crimes of the Future”, de David Cronenberg, que chegou à competição oficial do Festival de Cannes, mas não o projetou junto da imprensa portuguesa.
A espiritualidade e a procura de um maior conhecimento de si próprio ganharam um lugar central na sua vida. Depois de uma experiência traumática vivida em 2023, no Rio de Janeiro, Welket iniciou um processo mais profundo de autoconhecimento, aproximando-se de diferentes tradições filosóficas, espirituais e conhecimentos ancestrais.
Ao “O Tal Podcast”, fala sobre a reprogramação da mente, a intuição, a oração, a gratidão e a importância de reconhecer tanto a luz como a sombra que existem em cada pessoa. “Quando se trabalha para ascender espiritualmente, isso implica agir conscientemente, praticar atos de bondade, às vezes sacrificando-te pelos outros, e isolares-te para meditar e ouvir o teu coração, o teu Eu Superior - essa mente universal e cósmica que pode dialogar connosco quando estamos em silêncio.”
Para o convidado desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso, “o tempo é espiralar, circular e multidimensional”, e a forma como o vivemos não pode ser dissociada da cultura, do lugar, e da nossa própria compreensão de identidade. Questionando a lógica da produtividade associada às oito horas de trabalho, Welket defende a necessidade de recuperar tempo para cuidarmos de nós.
É também a partir do seu próprio percurso que olha para o mundo artístico português. O esforço necessário para conquistar as oportunidades que lhe chegaram, a entrada no Conservatório e, mais tarde, a chegada a Cannes fizeram-no repensar a ideia de meritocracia e aquilo que está, ou não, ao alcance de um artista negro em Portugal. “Para ter uma oportunidade igual à dos meus pares, teria de trabalhar a 300% e não apenas a 100%”, afiança.
Aliás, mesmo depois de integrar o elenco principal de um filme de David Cronenberg em competição oficial em Cannes, sentiu que o reconhecimento em Portugal ficou aquém do que esperava. Hoje, aponta que um dos problemas do país é “a incapacidade de absorção do talento dos filhos e das filhas que são produzidos neste território.”
Entre a experiência e a transformação, Welket encontra na arte uma forma de transmutar o que viveu e de o devolver aos outros, ao mesmo tempo que vai demarcando o ofício de ator, da sua missão de vida. “A missão é perceber como, através do teu ofício, alavancas o que há de melhor nos outros.”
Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
See omnystudio.com/listener for privacy information.Elga Fontes: “Portugal é um país racista e esse racismo acaba também por chegar às editoras. A literatura não tem cor”
01/10/2026 | 54minElga Fontes cresceu rodeada de histórias. Por influência dos pais e dos avós, cedo os livros tornaram-se parte da sua vida, e acabaram por se tornar parte essencial da sua identidade e percurso profissional. Hoje é tradutora, revisora, editora, criadora de conteúdos sobre livros e autora do projeto “Quem Me Lera”. Coordena ainda a Kiala — nome que significa “trazer luz” —, uma chancela da Vírgula d'Interrogação exclusivamente dedicada à publicação de autores negros em Portugal.
Com raízes familiares em Angola e Cabo Verde e nascida em Portugal, Elga cresceu entre diferentes referências culturais, numa multiplicidade de vivências que lhe permitiu alargar os horizontes e questionar a ideia de uma única forma de ver e habitar o mundo. Mais tarde, enquanto leitora e profissional do setor editorial, deparou-se com uma realidade que a inquietava: a enorme sub-representação de autores negros no mercado português.
A criação da Kiala nasce dessa inquietação, mas também da vontade de intervir num mercado que considera pequeno e avesso ao risco. “Há muita produção de literatura por autores negros que não chega a Portugal. Muitos destes livros têm imenso sucesso, só que depois há um bloqueio que faz com que eles não cheguem cá.”
Para Elga, esse ‘travão’ não pode ser dissociado do racismo estrutural: “Portugal é um país racista e esse racismo acaba também por chegar a uma editora.”
Nesta conversa, fala ainda sobre a importância de divulgar livros e criar comunidades de leitores, estimulando hábitos de leitura, bem como sobre a experiência de partilhar recomendações literárias nas redes sociais, através do projeto “Quem Me Lera”.
A aceitação do corpo, a liberdade de expressão e as referências que a foram transformando, não apenas como leitora, mas também como profissional, são também temas neste episódio, onde duas obras de Audre Lorde sobressaem: “Irmã Marginal | Sister Outsider”, e “Os Usos da Raiva”, ensaio que lhe permitiu repensar a forma de falar sobre o racismo. “Deu voz a tanta coisa que sentia e que tinha de calcar”, conta, peremptória na apreciação: “Mudou completamente a minha abordagem emocional à violência racista.”
Entre sugestões de livros, publicações nas redes sociais e as novas funções editoriais, Elga reflete sobre identidade, representação e a procura de uma voz própria, mas também sobre a responsabilidade de abrir espaço para que outras vozes possam ser ouvidas.
Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
See omnystudio.com/listener for privacy information.Arlinda Norris: “O meu nome era para ser Ana Cristina, mas a ir para o registo, o meu pai ouviu uma música de uma Arlinda. A minha mãe quase que o matou”
24/09/2026 | 58minHá cerca de dois anos, Arlinda Norris foi atropelada em Nova Iorque, acidente que abriu um novo capítulo na sua história, recém-partilhada no livro biográfico “She Kept Going”. Em português: “Ela seguiu em frente”. Nascida em Portugal, e durante cinco anos educada em Cabo Verde, a autora e ex-bailarina do cantor Emanuel, popularizada como “Nani do Pimba”, recorda, neste episódio d’ “O Tal Podcast”, como viveu o sonho e o pesadelo americano.
Aos 50 anos, Arlinda Norris olha para a sua história e revisita cada recomeço. “O que fiz quando perdi tudo? Quando estava a um dia de ficar ilegal nos Estados Unidos? Quando não tinha casa para morar, e estava com os meus filhos na rua? Quando não havia comida?”.
As respostas, encontradas nos momentos mais difíceis da sua vida, ajudaram-na a construir o “Método RLynda”, traduzido em seis passos que prometem deixar para trás qualquer adversidade: Libertar, Escutar, Ceder, Navegar, Discernir e Reconhecer.
Expressão das suas aprendizagens, o método voltou a ser testado há pouco mais de dois anos, quando Arlinda foi atropelada em Nova Iorque.
“Estava na passadeira, a luz estava verde. Lembro-me de estar feliz. De repente, senti um grande impacto.”
Seguiram-se 13 operações e dois anos de reconstrução física e emocional. “Só me caiu a ficha mais ou menos um mês depois de estar em casa”, conta a convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso.
A experiência determinou a escrita do livro “She Kept Going”, em que partilha os capítulos mais decisivos da sua trajetória.
Nascida e criada em Lisboa, com uma forte ligação às origens cabo-verdianas, Arlinda recorda como a sua infância e início de adolescência foram profundamente marcadas pela mudança para a Ilha do Fogo. “Fomos por 15 dias e voltámos cinco anos depois.” Sem os privilégios a que estava habituada em Portugal, a autora reconhece que foi aí que aprendeu a adaptar-se às circunstâncias.
Mais tarde, já de volta à casa lisboeta, começou a dançar para músicos, como o angolano Paulo Flores, que acabaria por se tornar o seu primeiro namorado. Foi, contudo, com o português Emanuel que correu o país de lés-a-lés e pisou vários palcos do mundo, percurso que lhe valeu o epíteto de “Nani do Pimba”.
Até que o chamamento da maternidade se começou a impor. “Os 25 estavam a chegar, já estava cansada de estrada, de televisões, e disse: ‘Vou parar de dançar’”.
Parou, viajou para tentar a sorte na cidade de Boston, mas viu-se na iminência de ficar em situação ilegal, desfecho que evitou com uma noite de trabalho num clube de striptease. Anos mais tarde, já casada com um basquetebolista, regressaria aos EUA para desfrutar o sonho americano, intensamente vivido até voltar a perder tudo.
Ouça aqui a conversa completa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
See omnystudio.com/listener for privacy information.Didier Ferreira: “Sou amigo dos meus alunos. Gosto de me dar bem com eles, mas antes não pensava assim. Muitos professores esquecem que foram alunos”
17/09/2026 | 1h 13minEstiveram cerca de 10 anos sem se ver, mas nunca perderam o contacto. Didier Ferreira e Diogo Rodrigues, professor e antigo aluno, respetivamente, voltaram a encontrar-se neste episódio d’ “O Tal Podcast, especialmente gravado para assinalar o arranque do novo ano letivo. Além de partilharem a importância do vínculo entre professores e alunos, os convidados de Georgina Angélica e Paula Cardoso reflectem sobre a missão da escola.
Diogo estava no 11.º ano, com resultados que eram um “descalabro total” a Português, quando o professor Didier entrou em cena. Conheceram-se num centro de explicações e, no início, estavam ligados por um objetivo modesto: cabia ao professor garantir que o aluno conseguisse uma nota positiva no exame, para não prejudicar a média. Contudo, a relação próxima, divertida e comprometida que se estabeleceu entre os dois acabou por levar Diogo a exame com um 15, e a conseguir um 17 nessa prova final.
O segredo? Para Diogo, está na capacidade de um professor ouvir, conhecer e reconhecer o outro, identificando as suas capacidades, limitações, pontos fortes e pontos fracos para, a partir daí, adaptar a mensagem a quem a recebe. Foi precisamente essa disponibilidade que encontrou em Didier, que rapidamente percebeu que o problema não estava na capacidade ou na inteligência do aluno, mas na sua motivação para a disciplina.
A experiência com Diogo acabaria também por transformar Didier enquanto professor. “Antes via-me como um professor transmissor — que tem o conhecimento e o transmite ao aluno. Só que quando o aluno não quer aprender, que era o caso do Diogo, o que é que faço? Tornei-me um professor condutor e, acima de tudo, um aliado, um amigo.”
A diferença, explica, é que deixou de pensar no seu papel apenas como o de alguém que transmite conhecimento, e passou a colocar a relação com o aluno no centro da sua prática pedagógica.
No caso de Diogo, o gosto partilhado pela poesia e pelo rap tornou-se um dos elementos facilitadores e incentivadores do estudo. Por exemplo, se Diogo mantivesse as notas acima de 14, parte das aulas poderia ser dedicada à análise de poemas e letras de rap.
Mais do que uma estratégia para melhorar resultados, o acordo permitiu que a aprendizagem partisse dos interesse do aluno, e que a explicação se tornasse um espaço de descoberta e experimentação.
“Não esqueço que também fui aluno. Muitos professores esquecem que foram alunos”, nota Didier, dando, como exemplo, a distribuição do tempo. “Se a aula tem 45 minutos, vou dividir para que seja sempre no máximo 15 a 20 minutos de aula teórica, e a seguir prática. Tento não dar seca a ninguém, porque eu também não gostava.”
Da gramática a “Os Lusíadas”, passando pelo “Sermão de Santo António aos Peixes”, o professor partilha algumas vias que utiliza para aproximar conteúdos complexos dos alunos: recorre a analogias, situações do quotidiano e exercícios que os desafiem a considerar outras perspetivas. Resumidamente, implementa uma pedagogia em que o aluno deve ser a “estrela” da sala de aula, enquanto o professor assume o papel de quem trabalha “na sombra”, conduzindo e criando condições para que cada um encontre o seu próprio caminho.
Neste episódio, questiona-se também o papel da escola perante as transformações sociais, e os desafios que os alunos enfrentam. A conversa passa igualmente por uma reflexão sobre a burocratização da profissão docente, a distância entre os métodos de ensino e os interesses das novas gerações, o cyberbullying e as desigualdades sociais.
Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
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Sobre O Tal Podcast
Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião, com autoria de Georgina Angélica e Paula Cardoso.
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