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Sílvia Saraiva: “Estas injecções [GLP-1] devem ser usadas como medicamentos e não como drogas”
28/10/2026 | 46minA endocrinologista Sílvia Saraiva levou pessoas com diabetes a escalar montanhas, autorizou um doente a praticar pára-quedismo e foi mãe pela terceira vez aos 52 anos, quando já tinha dois filhos adultos. Aos 63 anos, continua a defender que os limites não devem ser confundidos com impossibilidades, mas também que a medicina exige planeamento, conhecimento e respeito pelas circunstâncias individuais de cada pessoa.
Há quase 30 anos que organiza actividades desportivas para jovens com diabetes, incluindo expedições a alguns dos picos do mundo. Conta que os participantes a consideravam uma médica um pouco “louca”, até perceberem que as suas propostas resultavam. “Eu sou a mulher dos planos B”, explica, lembrando que por detrás de cada aventura estão vários cenários de segurança cuidadosamente preparados. Para Sílvia Saraiva, viver com uma doença crónica não significa abdicar de uma vida plena.
Recusa a infantilização dos doentes e considera que a relação entre médico e paciente deve assentar na partilha de conhecimento e na confiança. “Eu tenho de respeitar as pessoas como adultas, tenho de respeitar a sua
inteligência, não as posso tratar como crianças”, afirma. E acrescenta que a medicina não pode ignorar a singularidade de cada pessoa, as suas crenças, condições económicas ou circunstâncias familiares: “O doente tem de colaborar, não sei tudo, preciso que me ajude”.
É também por isso que rejeita a culpabilização das pessoas com obesidade, uma doença crónica ainda frequentemente associada à falta de vontade ou de disciplina. Nesta conversa abordam-se os novos medicamentos injectáveis para emagrecer, defendendo a sua utilização com acompanhamento médico, doses ajustadas e tempo para modificar hábitos de vida. “Todas estas injecções deviam ser usadas como medicamentos e não como drogas. Têm de ser usadas na dose certa, com o acompanhamento certo, com a calma certa, com o tempo certo”, diz, criticando a procura de resultados imediatos e o risco de perda excessiva de massa muscular. “Ou seja, há que fazer as pessoas perceberem que emagrecer devagar está bem, não faz mal, podemos esperar. Usar estas soluções como compulsão, só para perder 10 quilos rapidamente, é um erro, mas é legítimo que os pacientes o peçam nesta sociedade do imediatismo. Os médicos é que não podem alinhar.”
A especialista questiona também o recém-anunciado modelo de comparticipação para os tratamentos para obesidade através de injectáveis, que, segundo explica, restringe a prescrição comparticipada a especialistas dos serviços privados, quando muitos doentes enfrentam longas listas de espera para chegar a essas consultas de especialidade no SNS. “É fazer de conta que se está a fazer alguma coisa e não se está a fazer nada”, denuncia. Para Sílvia Saraiva, a prevenção continua a ser uma das grandes oportunidades desperdiçadas pelas políticas de saúde.
Aos 52 anos, Sílvia Saraiva engravidou. Tinha já dois filhos adultos. Recorda uma gravidez tranquila, durante a qual continuou a praticar exercício físico, mas insiste que a sua experiência não é a mais comum, nem deve ser confundida com ausência de riscos. A reacção social à maternidade tardia também não passou despercebida, as expectativas externas sobre o envelhecimento feminino pesaram-lhe. Hoje, aos 63 anos, não esconde a idade nem a vontade de continuar activa e diz: “Eu tenho 63 anos e sou muito feliz porque já os tenho. A vida, para mim, é um contínuo de opções.”
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See omnystudio.com/listener for privacy information.Alexandra Oliveira sobre a prostituição e o estigma: qual é o pior insulto que se pode dar a uma mulher?
21/10/2026 | 57minO novo episódio do podcast Um Género de Conversa começa com a palavra puta. Alexandra Oliveira, professora associada da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto e uma das mais conceituadas investigadoras nacionais nesta matéria, estuda prostituição, trabalho sexual, género, sexualidade, norma e desvio há várias décadas, e é peremptória a frisar: “puta” nunca foi apenas uma palavra para designar quem vende serviços sexuais, é também uma forma de pôr as mulheres no lugar.
“Puta é o pior dos insultos que se pode dar a uma mulher. Mas qual é o papel do estigma de puta na nossa sociedade? É um estigma que não recai só sobre as mulheres que vendem serviços sexuais, recai sobre qualquer mulher que tenha um comportamento sexual que fuja um bocadinho das normas. Qualquer mulher sabe disso.”
A investigadora descreve-o como “uma espécie de espada de Damócles” permanentemente suspensa sobre as mulheres, basta existir uma sexualidade demasiado activa, livre, sem fins reprodutivos, distante daquela que lhes foi prescrita. “Acaba por dividir as mulheres em dois tipos: aquelas que são boas, que se comportam bem, e aquelas que são más, que se comportam mal.”
As últimas são castigadas. E as mulheres que fazem trabalho sexual conhecem bem o castigo. “Há uma carga negativa muito grande associada à prostituição e às pessoas que a fazem. Ainda são altamente rejeitadas, discriminadas, excluídas. Isso faz com que as pessoas tenham de esconder a actividade que fazem.”
Esconder, aqui, pode significar, ter de viver duas vidas. Há mulheres que saem de casa de manhã como quem sai para qualquer outro trabalho, cumprem um horário, ganham o seu dinheiro e regressam depois à vida familiar. Sem que os maridos ou os filhos saibam. Por vezes, sem que ninguém à sua volta saiba. Não porque a actividade tenha de ser clandestina, mas porque o estigma continua a ser suficientemente pesado para obrigar à clandestinidade.
Ao longo dos seus mais de 20 anos de estudo nestes temas, a investigadora também teve de desmontar os seus próprios preconceitos. “Eu parti do abolicionismo. Fui educada numa família de classe média, católica. Achava que as prostitutas eram umas pecadoras, as mulheres que se portavam mal.”
Na adolescência, leu Puta de Prisão, de Isabel do Carmo e Fernanda Fráguas, um livro sobre mulheres presas por prostituição, que em Portugal só deixou de ser crime em 1982. “Funcionou, foi um choque, um murro no estômago.” Aquelas mulheres a quem atribuía um rótulo passaram a ter histórias, rostos, vidas.
Mais tarde, já como estudante de Psicologia, passou cinco anos na rua, observando-as, ouvindo-as na primeira pessoa. Esse estudo resultou numa tese de doutoramento que obteve uma Menção Honrosa do Prémio Maria Lamas 2011 e foi editada em livro com o título Andar na vida: prostituição de rua e reacção social.
Nessa altura, Alexandra Oliveira encontrou uma realidade menos conveniente para certezas: “A maior parte das mulheres estava de forma livre na rua, sem ninguém a controlá-las”. Faziam os próprios horários, tinham uma rotina de trabalho, escolhiam com quem iam, quando iam, utilizavam quartos de pensões pelos quais pagavam um valor de cada vez, sem vínculos aos donos dos estabelecimentos. Eram autónomas.
Contudo, encontrou também muita violência. “Estar na rua com mulheres que fazem prostituição é estar constantemente a ser agredida psicológica e, por vezes, também fisicamente”. Dá como exemplo os grupos de rapazes que passavam de carro para insultar ou atirar lixo: “Estes miúdos olham para estas mulheres como? Como não sendo mulheres, como sendo lixo?”, questiona-se.
É precisamente essa desumanização que a preocupa até aos dias de hoje. “Resumimos as pessoas a uma característica que, neste caso, é serem prostitutas, e esquecemos o resto. Que são mulheres, que são mães, que são irmãs também, que são pessoas. A violência que elas sofrem está muito radicada nesta questão da desumanização do estigma”, frisa. “As legislações sobre trabalho sexual e sobre a prostituição estão pejadas de moral”
Alexandra Oliveira recusa tanto a vitimização de quem faz esta actividade quanto a sua glamourização, como se vê amiúde no trabalho sexual praticado nas plataformas online. As perspetivas abolicionistas, argumenta, partem frequentemente do princípio de que todas estas mulheres são vítimas sem agência, incapazes de escolher. “Quando se referem a estas mulheres como mulheres prostituídas, há um raciocínio de base de que elas são vítimas passivas, alguém que não tem qualquer agência, incapaz de decidir, de escolher.” E isso, acrescenta: “Está a infantilizá-las, está a patologizá-las”.
Reconhecer isto não significa, porém, ignorar a exploração ou a coação que muitas sofrem. “O que eu acho que não faz sentido é tratar toda a gente como igual e dizer que todas as pessoas que estão nesta atividade são vítimas sem exceção, que estão à espera de que nós as salvemos.”
Para Alexandra Oliveira, essa “visão monolítica” acaba por apagar as diferentes realidades que diz querer proteger. Olha também criticamente para as leis que criminalizam os clientes. A lógica parece simples: se não houver procura, não existirá prostituição, mas, lembra, “a verdade é que isto não acabou nos países onde foi instituído, nem vai acabar. Não acabou na Suécia, nem na Noruega, nem na Islândia”.
Na sua leitura, estas políticas empurraram pessoas para os perigos da clandestinidade e contribuíram para aumentar o estigma, alimentando uma batalha muito antiga sobre quem pode decidir sobre o corpo e a sexualidade das mulheres. “As legislações sobre trabalho sexual e sobre a prostituição estão pejadas de moral. Trata-se de tentar regular de forma moral os comportamentos.”
Alexandra Oliveira não nega que existam constrangimentos e reafirma a necessidade de atuação de proteção às vítimas de exploração. “As pessoas que são vítimas, que são coagidas, que não querem estar ali, têm de ser ajudadas a sair.” E o Estado, sublinha, tem de lhes dar “respostas concretas, sólidas, realistas”.
Reconhecer os constrangimentos não obriga a apagar a capacidade de autodeterminação de quem exerce trabalho sexual de forma livre e consentida. O seu discurso, insiste, não é o de desvalorização das agressões implícitas no trabalho sexual. “O meu discurso é de proteção das pessoas com esta atividade. Pessoas que têm sido, ao longo da história, rejeitadas sistematicamente, não incluídas, a quem tem sido tirada a voz. É de defesa dos direitos humanos e laborais de pessoas que continuam sem os ver reconhecidos.”
See omnystudio.com/listener for privacy information.- Em 2022, Ana Rocha de Sousa viu uma activista ucraniana exibir no corpo a frase Stop Raping Us. A imagem ficou com ela. Actriz, argumentista e realizadora, acaba de estrear Asas (nas salas portuguesas a partir de Janeiro de 2027), a sua segunda longa-metragem, inspirada na história real de uma família de mulheres ucranianas obrigada a fugir da guerra e a procurar refúgio em Portugal. “O contexto destas mulheres e desta família é a guerra, mas o filme fala também das guerras internas de cada uma delas”, conta.
A palavra que atravessa este episódio do podcast Um Género de Conversa, com Ana Rocha de Sousa, é indignação. Foi ela que esteve na origem de Listen, a sua primeira longa-metragem, e que volta a estar presente em Asas. Aos 47 anos, a realizadora admite que viver permanentemente nesse estado tem um preço. “A indignação pesa-me. Pesa-me verdadeiramente. Muitas vezes fiquei na frente de batalha sozinha e depois sofri as consequências sozinha.”
Em Asas, as mulheres e as crianças podem conseguir afastar-se da linha da frente de uma guerra, mas isso não significa que escapem à guerra. Ao filmar na Ucrânia, a realizadora confrontou-se com a dimensão dos massacres e da violência sexual sofrida por mulheres ucranianas, mas decidiu não mostrar explicitamente esse horror.
“Acho que o horror também tem um limite para se dar voz. Eu quis que o horror tivesse espaço para existir, porque ele existe, mas era-me profundamente desconfortável fazer um filme de horror.” Depois de Listen, queria que o novo filme pudesse deixar outra coisa além da desesperança. “Era importante para mim que, além das perguntas que ficam no ar, encontrasse um caminho, uma luz qualquer.”
Asas é também um filme sobre desenraizamento e pertença. Uma experiência que Ana Rocha de Sousa conhece, já que viveu em Inglaterra e recorda ter sentido muitas vezes a divisão entre o “nós e eles”. Hoje considera essa experiência determinante para a forma como olha para os outros. “Ser estrangeiro numa terra é uma experiência muito importante na vida. Foi muito importante para fazer crescer em mim grande parte da empatia que tenho hoje.”
A realidade é o ponto de partida dos dois filmes. Ana Rocha de Sousa procura histórias, investiga, cruza acontecimentos, mas não os reproduz literalmente. “Nunca me sinto à vontade para inventar. As histórias que conto não são um decalque da realidade, são inspiradas na realidade e depois transformadas. Eu caso factos e é nisso que me sinto confortável.”
O seu é um cinema inevitavelmente político, embora a realizadora hesite perante a classificação. Diz que os filmes nascem menos de uma intenção política programada do que de uma forma de “ser, existir e respirar”. Em paralelo a Asas, Ana Rocha de Sousa filmou um documentário sobre a fadista Carminho e a tournée no Japão cuja exibição também está programada para breve.
Quando realizou Listen, acreditava que o filme poderia contribuir para mudar a legislação britânica relativa à retirada de crianças às famílias. O filme chegou a ser usado numa defesa em tribunal e esteve associado à mobilização pública no Reino Unido. Ainda assim, reconhece que esperava mais do impacto social do cinema.
A indignação reaparece quando a conversa chega à prescrição dos crimes de abuso sexual. Para Ana Rocha de Sousa, a lei não pode ignorar o conhecimento existente sobre os mecanismos do trauma. “As pessoas levam décadas a perceber o que viveram naquele momento traumático. Não podemos estar a prescrever antes de existir sequer essa percepção.”
See omnystudio.com/listener for privacy information. - Antes de falarem sobre o seu trabalho, as suas escolhas ou os seus sonhos, há sempre uma pergunta que se impõe: quem são? Ou, mais exactamente, por que são como são? Para muitas pessoas ciganas, esta é uma realidade quotidiana, porque certas identidades vivem sob uma exigência permanente de explicação.
Neste episódio do podcast Um Género de Conversa, Maria Gil e Mariana Gil, mãe e filha, contam-nos as suas experiências individuais enquanto mulheres e ciganas, nascidas em gerações distintas. Actriz, activista e uma das vozes mais influentes do feminismo cigano em Portugal, Maria Gil dedicou grande parte da sua vida a combater os estereótipos e criar pontes de diálogo: “Digo sempre que sou mulher e cigana. A minha primeira condição é ser humana, o acréscimo é a minha cultura”, afirma.
Já a sua filha, Mariana, que soma as palavras "afrodescendente" e "estudante" a esta descrição, pertence a uma geração que colhe os frutos desse legado de afirmação, porém, continua a enfrentar preconceitos antigos, agora confrontados com novas formas de discriminação. Como diz, “a mulher cigana ainda é vista como um ser incapaz, primitivo”.
"Eu nasci para existir. Obrigaram-me a resistir", resume Mariana Gil, que terminou a licenciatura com uma média de 18 valores e conseguiu uma bolsa de Mestrado em Communication, Media and Creative Industries da Sciences Po Paris, uma das universidades mais prestigiadas do mundo na área das Ciências Sociais.
Para conseguir fazer face aos custos associados à estadia em França, e, assim, poder cumprir as suas ambições de formação, abriu uma campanha online de angariação de fundos. “O mérito, quando não és uma pessoa branca, não és um homem ou não tens certas potencialidades económicas, leva-te até um certo ponto, mas a ousadia leva-te a outro lugar”.
Ao longo da conversa, mãe e filha reflectem sobre o peso da resistência permanente, a importância da educação, o papel do feminismo e a necessidade de construir referências positivas para as gerações mais novas. Maria Gil confessa o cansaço de educar os filhos para uma militância constante, enquanto Mariana descreve o desgaste de sentir que a sua identidade continua a ser recebida com surpresa ou desconfiança.
O episódio aborda ainda a invisibilidade das mulheres ciganas nos espaços públicos, a urgência de abandonar narrativas simplistas que reduzem pessoas a caricaturas e os preconceitos persistentes em torno das comunidades ciganas em Portugal, acentuados pelo crescimento das narrativas populistas da extrema-direita.
“Há quem ande com fardos às costas, eu ando com a extrema-direita. Portugal tem desde há quinhentos anos uma raiz muito bem nutrida sobre o anticiganismo, foi um alvo fácil.”.
Mas mais do que falar sobre discriminação, Maria e Mariana Gil convidam a pensar sobre liberdade: a liberdade de cada pessoa definir a sua própria identidade, sem precisar de pedir legitimidade ao olhar dos outros.
See omnystudio.com/listener for privacy information. - Neste episódio do podcast Um Género de Conversa, Maria Rueff fala sobre o seu percurso de quatro décadas, a condição das mulheres na comédia, o envelhecimento, a liberdade de expressão e as dificuldades de uma profissão em que o talento nem sempre determina as oportunidades. A conversa atravessa a sua relação com o teatro, a maternidade, o enfarte que quase lhe tirou a vida e a necessidade de continuar a encontrar sentido no trabalho.
A actriz recorda as mulheres que abriram caminho na comédia portuguesa, de Maria Matos a Laura Alves, Beatriz Costa ou Ivone Silva, sublinhando a coragem de quem fez humor num tempo de ditadura. “Foram mulheres cultíssimas, foram mulheres que num tempo em que vivíamos em ditadura tinham uma coragem.” O reconhecimento desse legado não a impede, contudo, de assinalar as desigualdades que persistem. Quando questionada sobre as oportunidades dadas a homens e mulheres, responde: “De facto, não é igual, continua a não ser igual.”
A reflexão estende-se às transformações do mercado de trabalho e à crescente importância da popularidade digital. “Não és contratado pelo talento, és contratado pelos likes. E os likes não correspondem muitas vezes ao talento”, afirma. Para Maria Rueff, que se tem dedicado aos palcos do teatro, a lógica das redes sociais veio acrescentar uma nova pressão a uma profissão que exige tempo, experiência e uma relação continuada com o público.
Embora assuma que sempre teve “pouca autoestima enquanto mulher”, Maria Rueff recusa a ideia de que envelhecer deva significar desaparecer ou deixar de ser desejável. “O direito à diferença é permitir-nos envelhecer como uma árvore envelhece”, diz, evocando a transformação do tronco, das folhas e dos frutos. No teatro, acrescenta, a experiência pode ser uma vantagem: “É como o vinho do Porto, quanto mais velho, quanto mais experiência, melhor.”
A liberdade de fazer humor é outro dos temas centrais desta conversa. A actriz lamenta que o humor seja frequentemente associado à humilhação e ao bullying, defendendo a importância de distinguir a provocação artística do insulto. “Eu tenho pena do humor agora estar sempre associado a isso, à humilhação, ao bullying”, afirma, acrescentando que a liberdade de expressão não dispensa uma reflexão sobre os limites éticos de quem cria.
Apesar das dificuldades, Maria Rueff não apresenta a resistência como uma palavra abstracta. É uma prática quotidiana, feita de propostas, tentativas e persistência. “O que é que eu posso fazer? Posso não desistir, ser resistência e ir tentando diariamente propor projetcos.” Entre a vontade de continuar a trabalhar e a consciência de que nem todas as decisões dependem de si, a actriz encontra no teatro, no amor da filha e na relação com o público algumas das razões para continuar.
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